domingo, 19 de julho de 2009

DE PRÓXIMOS E ESTRANHOS OU O APRENDIZADO DO RECONHECIMENTO



Fui assistir A PARTIDA, o filme japonês ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009 (Japão, 2008, Diretor: Yojiro Takita, sítio http://www.departures-themovie.com/).

Bom roteiro, fotografia, construção dos personagens e desempenho dos atores. Valeu muito, principalmente pelos vários temas que me fez refletir.

Conta a história de um violoncelista que, com a dissolução da orquestra onde trabalhava, decide retornar à cidade natal com a esposa, em busca de alternativas.
Ali ele atende a uma oferta de emprego publicada em jornal, pensando tratar-se de agência de turismo. Era, na verdade, uma empresa especializada no preparo de corpos para o funeral. Ante a boa remuneração oferecida, aceita a função. Mas não tem coragem de dizer à esposa.

A película pode ser abordada a partir de variadas perspectivas. A que me interessa comentar está contida no tripé estranhamento/reconhecimento/respeito. E que me fez lembrar o comentário do Presidente Lula, quando da abertura da Conferência Nacional de Políticas Públicas para LGBTs, em 2008. Falava sobre a ausência dos parlamentares que, embora convidados, preferiram não se fazer presentes. Disse como eles haviam perdido uma grande oportunidade de poder compreender que gays, lésbicas, travestis, transexuais são semelhantes a qualquer outro ser humano.

No filme japonês, como na vida real, é apenas quando os indivíduos tornam-se capazes para o exercício da “identificação imaginativa”, como disse Lynn Hunt [ver postagem anterior] que a verdadeira comunicação com o outro se viabiliza.

Ao se abandonar a postura de fazer nossos pontos de vista, nossas convicções, prevalecerem e sinceramente desejar compreender aquilo que o outro diz, sente, vivencia, assistimos operar-se a mágica da comunicação, do reconhecimento, da relação efetiva.

Ou seja, somente quando nos dispomos ao exercício da empatia, da capacidade de se colocar no lugar do outro, de conhecê-lo em sua singularidade e completude, de abrirmos mão de nosso desejo de fazer impor aquilo que entendemos ser o certo, o apropriado, é que podemos, de fato, falar de relacionamento interpessoal.

É, então que atingimos a superação da mesmidade - nossa tendência de reduzir o Outro a uma indigna e equivocada semelhança conosco. Deixamos de pautar nossas relações como sendo relações com nós mesmos ou com meros objetos cuja existência se resume em satisfazer-nos desejos e expectativas.

No filme, entre vários outros exemplos, vamos encontrar esse instante mágico quando o filho (funcionário público) da dona da casa de banhos consegue enfim compreender o significado, para sua mãe e clientes, do serviço que ela insistia em preservar, apesar da idade avançada;

quando o violoncelista finalmente compreende que a saída do seu pai de casa, ele ainda uma criança, decorreu dos tormentos e intranquilidades experimentados pelo pai, e não por conta de uma rejeição a ele, filho. O que lhe permite afinal reconciliar-se com aquele pai que, apesar de não corresponder às suas idealizações era, sim, o seu pai e o amava;

quando o pai da travesti suicida finalmente reconhece, para além das frustrações e representações estigmatizantes com as quais teve que se defrontar por força da travestilidade do filho, que, embora ela não correspondesse às suas projeções, era, sim, o seu filho tão amado.

Embora, no filme, a maioria apenas consiga reconhecer seus entes amados em sua singularidade após a morte, ela não é sua condição de possibilidade.

O Reconhecimento pode (e deve) ocorrer entre vivos. No filme, podemos vê-lo quando a esposa do violoncelista experimenta a compreensão do significado da nova profissão de seu marido do ponto de vista dele e dos seus clientes.

O fato do casal experimentar a gravidez, ao tempo em que individualmente vão alcançando essa compreensão profunda, a mim me pareceu um desdobramento da metáfora sobre os fluxos, os ciclos da vida e do viver. Metáfora que já fora apresentada pelo novo patrão do violoncelista, ao desmistificar as idéias negativas que temos acerca de cadáveres.

A nos fazer recordar que, embora nossas intrínsecas inseguranças e fragilidades, nos levando insistentemente a buscar certezas absolutas e verdades imutáveis, a vida, como a história, é toda feita de movimento, ciclos, processos.

E por falar em movimento, é uma poesia à parte a harmonia, precisão e ritmo dos gestos empregados na preparação dos corpos. Todo o ritual é puro Reconhecimento - do Outro, dos Outros (Confiram o respeito, a discrição, a sutileza com que o Patrão resolve a "saia justa" ante a descoberta do sexo anatômico daquele corpo de fisionomia tão feminina, em preparação diante da família).

Tanto os movimentos do profissional preparador quanto dos familiares enlutados que, naquela cultura, assistem ao trabalho, são de um respeito, mais do que reverencial, fraterno, empático.

Aqueles mesmos sentimentos que inspiraram a Declaração de Independência dos EUA e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, na Revolução Francesa. Nascedouro, como demonstrou Lynn Hunt, da concepção de Direitos Humanos - ainda atravessada por inúmeras lutas, visando a sua consolidação e observância universais.

Agradeço muito ao meu colega de trabalho por ter me dado a dica do filme e, com ela, a possibilidade de ver uma obra tão delicada, terna e fraterna e tão comprometida com a viabilidade de nós, humanos, enquanto espécie de natureza social.

Confira o trailer em http://www.grupoparisfilmes.com.br/Cinema.aspx?v=2&id=353

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