sexta-feira, 9 de outubro de 2009

IDOSOS LGBTs: IBGE divulga indicadores sociais da PNAD 2008

O Yahoo Notícias publicou hoje, 09 10 09, matéria da Agência Estado, divulgando os novos Indicadores Sociais do IBGE.

Fui até a página do Instituto para realizar as atualizações dos dados que venho postando aqui.

Nela, vê-se claramente que as projeções constantes do artigo A Dinâmica Demográfica Brasileira e os Impactos nas Políticas Públicas, também do IBGE, e aqui trazidos na postagem de 29 09 09, encontram-se superados.

Ali, a previsão da população de idosos para 2010 (daqui há três meses!) era de 19.300.000, ou 10% da população nacional.

Já na Síntese dos Indicadores Sociais, divulgada hoje, o IBGE informa que através da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD 2008, o Brasil possuía em 2008 o percentual de 11,1% de pessoas com 60 anos ou mais.

A faixa daqueles com 70 ou mais anos perfazia um total de 9.400.000 pessoas, ou 4,9% do total nacional.

Ainda segundo o Instituto, este índice "supera a população de idosos de vários países europeus, entre os quais, pode-se citar a França, a Inglaterra e a Itália (entre 14 e 16 milhões) de acordo com as estimativas para 2010, das Nações Unidas."

Em síntese, "o quadro apresentado demonstra claramente que o envelhecimento da população brasileira se constitui numa evidência demográfica, e que este novo paradigma está em curso merecendo estudos e políticas públicas específicas adequadas ao novo perfil etário."


O crescimento do grupo etário de 80 anos ou mais no período entre 1998 a 2008 foi da ordem de quase 70%. A estimativa é de aproximadamente 3 milhões de pessoas nessa faixa etária, o que, nas palavras dos demógrafos do IBGE,

"Estes dados mostram como o processo da longevidade está presente na sociedade brasileira e já indicam a necessidade de providências urgentes para garantir uma infraestrutura de atendimento a esses idosos."

Com relação aos mecanismos sociais de proteção da saúde dos idosos, informam ainda que

"Os estudiosos da terceira idade consideram que, para a saúde mental dos idosos, a rede de apoio familiar mostra-se fundamental. Morar com filhos ou com parentes estimula a afetividade e sociabilidade. No País, a proporção de idosos que moravam com filhos, em 2008, era de 33,3%."

Este dado expõe mais uma das contradições presentes na sociedade brasileira, como bem apontou Anna Cruz de Araújo Pereira da Silva, em sua dissertação de mestrado, aprovada este ano (2009) pelo Programa de Pós-graduação em Direito do Instituto de Ciências Jurídicas da universidade Federal do Pará:

Por um lado, a Política Nacional do Idoso e os especialistas estudados pelos técnicos do IBGE afirmam a importância da família como fundamental suporte protetivo e, de outro, os legisladores brasileiros insistem em negar à população lgbtt o direito ao reconhecimento de suas famílias, mantendo-as à margem da lei.

Uma vez mais tomo como parâmetro o índice Kinsey, segundo o qual a população de “homossexuais” representaria algo como 10% da população.

Se aplicarmos este índice àqueles divulgados pelo IBGE poderemos dispor de uma estimativa da população de idosxs lgbtts – um ponto de partida para o dimensionamento desse contingente demográfico até o presente momento alijado das estatísticas e das políticas públicas em quaisquer das três esferas da federação.

Assim, temos a seguinte projeção da população de idosxs lgbtts em 2008:

14,9% o percentual de idosos na população do Rio de Janeiro,
o que significaria dizer que 1,49% o percentual de idosos lgbtts no RJ

13,5% o percentual de idosos na população do Rio Grande do Sul,
o que significaria dizer que 1,35% o percentual de idosos lgbtts no RS

13,7% da população de idosos residentes em domicílios particulares vivem sós (domicílios unifamiliares), o que equivale dizer que
1,37% da população de idosos lgbtts residentes em domicílios particulares vivem sós no Brasil.

O total de idosos lgbtts representaria então

1,11% da população global, ou seja, em torno de
2.100.000 lgbtts com 60 ou mais anos, dos quais
940.000 lgbtts tem mais de 70 anos
300.000 lgbtts tem mais de 80 anos

Segundo a publicação do IBGE de 2008, "o Centro Latinoamericano y Caribeño de Demografia - CLADE, órgão da Comisión Económica para América Latina y el Caribe - CEPAL, das Nações Unidas, classifica o envelhecimento brasileiro como um processo moderado avançado."

Em 2009, no preâmbulo da parte referente aos idosos da Síntese dos Indicadores Sociais, o Instituto afirma:

"que o envelhecimento da população tem proporções significativas, e que várias mudanças já estão sendo sentidas de forma bastante concreta, revelando a necessidade de uma constante revisão das políticas públicas voltadas para este segmento populacional. Não se trata apenas de garantir uma infraestrutura de saúde, mas de todo um conjunto de medidas que possam garantir o bem-estar dos idosos brasileiros, que contemplem os aspectos psicossociais, as relações de trabalho e estudo e convívio familiar. A chamada 'crise de cuidados', que vem sendo percebida com especial relevância nos países europeus, não se aplica somente às crianças, mas sobretudo aos idosos. Os cuidados para estes segmentos exigem uma infraestrutura de serviços cada vez mais eficiente e complexa."

- Você acha que dá pra continuar ignorando esta realidade?



Base de referência:
http://br.noticias.yahoo.com/s/09102009/25/manchetes-ibge-apesar-estudar-mulheres-ganham.html
http://br.noticias.yahoo.com/s/09102009/25/manchetes-ibge-populacao-idosos-no-pais.html
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/indic_sociosaude/2009/indicsaude.pdf
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/sinteseindicsociais2008/indic_sociais2008.pdf
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/sinteseindicsociais2009/indic_sociais2009.pdf
Silva, Anna Cruz de Araújo Pereira da. O pote de ouro ao fim do arco-íris: o reconhecimento da cidadania de idosas e idosos homossexuais/ Anna Cruz de Araújo Pereira da Silva; orientador, Jane Felipe Beltrão. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Pará. Instituto de Ciências Jurídicas, Programa de Pós-Graduação em Direito. Belém, 2009. Belém, 2009.

4 comentários:

RICARDO AGUIEIRAS disse...

É uma pena que o belo e importante trabalho da Anna ainda não foi publicado. Mas, será! ela me disse que o Portal do Envelhecimento (http://www.portaldoenvelhecimento.net/principal/principal.htm) publicará em outubro. Não tenho entrado aqui por que tenho trabalhado muito. Mas tem várias coisas dando certo, Rita... inclusive a ideia - a longo, longuíssimo prazo - de moradia para idosxs LGBT - isso envolve muita coisa, não tenho arquitetos, engenheiros, estudiosos ao meu redor, então conto com você, com a Anna e mais umas poucas pessoas e, com o coração do Douglas, que tem aberto portas longe da militância tradicional que ainda não se voltou para isso.
Beijos,
Ricardo
aguieiras2002@yahoo.com.br

Rita Colaço Brasil disse...

- Salve, Ricardo!
Sempre bom saber dos seus agitos.
Seguinte: Na comunidade do orkut (http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=92244876)
venho inserindo uns tópicos referentes a técnicas construtivas - autoconstrução tbm!
Tem gente, inclusive (não lgbtt, mas o imptte é o movimtº de fazer junto) projetando comunas em lotes padrão (tipo 10 x 20). Tbm vejo mta gente se dispondo a ajudar, passar infos.
- Essa realidade tem jeitooo, rapaz!!!
E vamo que vamo; é mão na massa, boca a boca, ombro a ombro!

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Estive ontem numa sauna gay, aqui da capital (Sampa), uma sauna já bem antiga, calma, dá pra ir, tomar sauna , ler um livro e descansar.Lá trabalha um senhor já bem velhinho, faz a faxina, lembro-me dele desde o início dessa sauna, uns 20 anos ou mais...
Eu fiquei horas me perguntando: "Todas essas bichas que vêm aqui, nesses anos todos, nenhuma nunca se perguntou como esse homem vive?" Percebe-se que ele já tem algumas limitações provocadas pela idade, no entanto é ele, e apenas ele quem faz a faxina inteira da sauna, inclusive da seca e da a vapor, dos banheiros e dos chuveiros, diariamente. A sauna não fecha nunca, 24 horas e ele vai limpando à medida do seu possível. Imagine a sugeira que os gays fazem, com seus cigarros, bebidas e centenas de camisinhas jogadas pelo chão, nas cabines e quartos... ele limpa um andar inteiro em 40 minutos e ainda volta depois para passar cloro em tudo. Sei que ele é gay, uma vez puxei assunto e ele me contou que até os 48 anos foi dono de uma pensão, mas que foi muito explorado. Depois , foi trabalhar com faxina. Os clientes gays, muitos muito bem de vida, na frente se vê seus carrões estacionados, não se perguntam se esse homem tem desejos sexuais? Afinal, ele vê gays transando o dia todo, em salas de sexo coletivo, os vê pelados no chuveiro.... ninguém pensa nele? Onde ele mora? Num quartinho, nos fundos? Ou não?
enfim, Rita... não sei se estou sendo demagogo, mas foi justamente essa "demagogia" que me levou a pensar e agir um pouco....fora que "milito em causa própria"... risos... Tô indo lá no Orkut...
Beijos e bom dia das crianças....
Ricardo
aguieiras2002@yahoo.com.br

Rita Colaço Brasil disse...

É, Ricardo, este senhor - imagina quantas histórias ele tem pra contar das formas de vida da geração dele e que a gente simplesmente desconhece e ignora - faz parte daquelas profisssões "invisíveis"; é como se ele não fosse humano, não existisse, não estivesse ali enquanto pessoa; uma outra forma de negativa de reconhecimento, aliás.

Isto mostra que o segmento lgbtt, como o dos negros, o das mulheres, todos eles, são atravessados tanto pela questão da classe, quanto da "bagagem cultural", da faixa etária, da origem e otras cositas más que a gente conhece tão bem.

Tenho certeza que qualquer hora dessas você conseguirá interagir mais com esse senhor e ele lhe permitirá acesso ao volume de experiência e informação sobre os mecanismos de resistência, as formas de conviver, os locais da cidade, de um período da história de São Paulo, do segmento e do país.

- Falar nisso, no livro "Homossexualismo em São Paulo e outros escritos", organizado pelo James Green e Ronaldo Trindade, tem um texto de José Fábio Barbosa da Silva que trata da vida das bichas de classe alta na São Paulo anos 50.

Dos populares, desconheço informações.