quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Fundamentalistas Querem Retirada do Beijo Entre 2 Rapazes, Veiculado pelo PSOL

Sem dúvida que merece um estudo em psicologia social a obsessão que certos supostos cristãos (sim, porque desqualificação, perseguição, intolerância, são ações que vão contra tudo aquilo que o Cristo pregou) tem em relação às homossexualidades.

Nada é capaz de os mobilizar - enchentes, secas, injustiças, concentração de renda, desemprego, o lucro estrondoso dos bancos, o trabalho escravo, a infância abandonada, a velhice desvalida, o ensino público de péssima qualidade etc.

Exceto a luta d@s homossexuais pelo reconhecimento de seus direitos - de desfrutar dos bônus e ônus civis e jurídicos decorrentes de toda conjugalidade, de não permanecer alvo de homofóbicos que @s espancam, ofendem, humilham, matam.

Abuso (heteros)sexual praticado por pais, avôs, padrastos, a pedofilia praticada por religiosos, o tráfico internacional de crianças, mulheres e jovens rapazes, nada, absolutamente nada é capaz de mobilizar a sua energia cívica, os seus recursos econômicos e políticos.

Apenas o fato de gays, lésbicas, travestis e transexuais terem decidido não mais permanecer no lugar de párias, abjetos, doentes, imorais, "nefandos"; de terem decidido reivindicar o lugar que lhes cabe na sociedade da qual fazem parte e para a qual contribuem com o seu trabalho, estudo e tributos.

Tal como ainda vemos em determinados homens, que espancam e matam ex-mulheres ou ex-namoradas, simplesmente porque não conseguem conviver com o fato de que elas tem o direito de TERMINAR A RELAÇÃO, de DECIDIREM que NÃO QUEREM MAIS FICAR COM ELES, assim esses falsos "cristãos" manipulam e deturpam a palavra do Cristo (todo amor e bondade) tentando fazê-Lo instrumento de seu ódio - ódio por alguem que simplesmente exige lhe seja reconhecido o direito que tem de viver em paz, como qualquer outro ser humano.

Pois não é que resolveram tentar impedir o PSOL de apresentar, em sua campanha eleitoral, a troca de afeto (um beijo) entre dois homens?

- É, pasme você. É exatamente isso que agora eles querem tentar: que o TRE impeça o PSOL de exibir em sua propaganda política, a DEMONSTRAÇÃO DE AFETO, DE AMOR, entre DOIS HOMENS!

E, claro, como não poderia deixar de acontecer, haja vista que nosso país tem um estado LAICO, o que significa que nenhuma crença religiosa, ainda que seguida pela avassaladora maioria dos cidadãos (o que não é o caso), não tem o direito de se imiscuir em assuntos da vida CIVIL, @s cidad@s comprometid@s com o estado democrático e republicano organizaram uma CARTA DE REPÚDIO a semelhante despautério.

Veja a seguir o texto integral. Depois, escreva para o Dário Neto (, enviando o seu nome, qualificação e número da identidade.

Repasse para suas redes de contatos, se você se preocupa com tentativas de destruição do princípio DA LAICIDADE DO ESTADO.


CARTA DE REPÚDIO

Após a propaganda eleitoral do PSOL veicular uma troca de beijos entre dois rapazes, o esperado aconteceu: setores conservadores e moralistas se manifestaram contra a propaganda, exigindo inclusive a punição pelo Tribunal Regional Eleitoral e o impedimento de veiculação da mesma.

A polêmica evidencia algumas questões fundamentais para compreender até onde se estende o poder manipulador de lideranças religiosas fundamentalistas.

Acusando o PLC 122/2006 (projeto de lei que, se aprovado, criminalizará a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, o que protege inclusive os heterossexuais) de ser uma “mordaça gay” a ser posta sobre líderes cristãos, esses fundamentalistas mostram quem de fato quer colocar a mordaça em quem.

Se eles reivindicam para si o direito à livre expressão, o qual, segundo eles, estaria ameaçado por esse projeto de lei, evidenciam quem de fato tem em si colocada a mordaça: a população LGBT, que não pode sequer ver na mídia televisiva a expressão de afeto entre pessoas do mesmo sexo.

Também mostram o quanto são contrários a um Estado Laico, querendo transformar o seu direito à prática de fé em privilégio político que ultrapassa o espaço físico de seus templos para poder definir o que deve ou não deve ser veiculado na mídia.

Esses fundamentalistas religiosos demonstram como desprezam a concepção pluralista de sociedade ao condenar publicamente todo aquele que não se adequa à seus descabidos dogmas, em postura flagrantemente inconstitucional por afronta aos direitos fundamentais à liberdade, à obrigatoriedade de tolerância àqueles que não prejudicam terceiros e do pluralismo social, os quais, com nuances próprias, garantem a todos o direito de reger suas vidas como bem entenderem, desde que não prejudiquem terceiros.

A polêmica em torno dessa propaganda eleitoral pôs por terra o discurso vitimista desses cristãos fundamentalistas, na medida em que evidenciou o quanto há de perverso na argumentação deles em combater o avanço dos direitos da população LGBT.

Em seus discursos inflamados, eles querem confundir a sociedade, fazendo-a acreditar que o projeto de lei que criminaliza a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero comprometerá o direito à liberdade de expressão com base na religião quando isso não é verdade, pois o projeto apenas proíbe ofensas e discriminações arbitrárias contra LGBT.

Ao exigirem punição a um partido que não professa os princípios religiosos desses algozes, querem ditar comportamentos e valores para além do púlpito, com o explícito objetivo de enquadrar a sociedade brasileira dentro de valores cristãos deturpados.

Com isso, ferem a concepção de Estado Democrático e a soberania do Estado Brasileiro promulgada pela Constituição Federal, impondo a todos e todas a interpretação distorcida que fazem da Bíblia, da qual muitos teólogos sérios sequer compactuam.

Além disso, ferem o artigo 5º da Constituição, ao defenderem tratamento desigual à população LGBT em relação à população heterossexual no que tange as legítimas manifestações de afeto; ferem o inciso IV do artigo 5º ao pretenderem impedir o livre pensamento e opinião dos políticos do PSOL; ferem o inciso X desse mesmo artigo ao violar a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas LGBT, ao adjetivá-las negativamente por meio de termos como “deploráveis” por conta da sua orientação sexual e identidade de gênero, sob pretexto da garantia de direito à livre expressão; ferem a Declaração Universal dos Direitos Humanos promulgado em 1948, ao comprometer a dignidade das pessoas LGBT; ferem o seu artigo 1º, ao não agirem com espírito de fraternidade; ferem o seu artigo 6º ao comprometerem o direito de reconhecimento e de ser das pessoas LGBT como pessoas dotadas de direitos perante a lei; por fim, ferem o seu artigo 12, ao interferirem na vida privada, bem como atacarem a honra e a reputação das pessoas LGBT.

Desse modo, repudiamos toda ação contrária a essa propaganda eleitoral, entendendo como direito a livre expressão dos políticos do PSOL, ao vincular sua defesa às relações homoafetivas e entendendo como direito constitucional da população LGBT em vivenciar sua orientação sexual e identidade de gênero, sem, por isso, ser adjetivada negativamente por qualquer totalitarismo moral ou religioso.

Repudiamos também a prática autoritária dessa liderança cristã fundamentalista em incitar o ódio à população LGBT, na medida em que descabidamente os qualifica negativamente.

Por fim, repudiamos a tentativa desses fundamentalistas em comprometer a laicidade do Estado Brasileiro e sua soberania, ao quererem enquadrar dentro de uma interpretação teológica pessoas, grupos e o Tribunal Regional Eleitoral, os quais não necessariamente professam essa fé ou não compartilham dessa mesma interpretação teológica da Bíblia.

Esta nota de repúdio não visa a defesa dos partidos em disputa eleitoral, mas a defesa da liberdade de expressão de defenderem como valor digno de tutela o respeito à diversidade sexual ou, no mínimo, a tolerância à mesma.

Nota-se aqui a incoerência dos fundamentalistas homofóbicos, pois dizem que estariam lutando pela “liberdade de expressão” quando, na verdade, se opõem de forma totalitária a manifestações de pensamentos contrárias a seus dogmas (sendo que as manifestações de pensamento que eles atacam não são ofensivas a nenhum valor constitucional, ao contrário dos discursos de ódios que eles, fundamentalistas, pregam contra LGBT, ofendendo-os gratuitamente).

Assinam:

Dário Ferreira Sousa Neto
Membro do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual de São Paulo
Diretor da APG – USP capital
Membro do Grupo PRISMA – DCE – USP
Diácono da Igreja da Comunidade Metropolitana de São Paulo
Membro da Rede Conexão Paulista

Paulo Roberto Iotti Vecchiatti
Especialista em Direito Constitucional pela PUC/SP
Mestrando em Direito Constitucional pela Instituição Toledo de Ensino/Bauru
Advogado – OAB/SP 242.668
Autor do livro “Manual da Homoafetividade. Da Possibilidade Jurídica do Casamento Civil, da União Estável e da Adoção por Casais Homoafetivos”.

Dr. João Adolfo Hansen
Professor Titular de Literatura Brasileira
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas
Faculdade de Filosofia,Letras e Ciências Humanas
USP

Dr. Emerson Inácio
Professor de Estudos Comparados de Língua Portuguesa
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
USP

Dr. Kabengele Munanga
Professor Titular do Departamento de Antropologia
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
USP

[Seguem-se mais 65 assinaturas]


4 comentários:

Patola disse...

Rita, você já me conhece da vista e é lógico que concordo com a carta de repúdio, mas esse manifesto me parece um pouco "nervoso" demais, a começar pela "@" no lugar de algumas vogais (desculpa, mas o português é um só e, enquanto não for reformado para vocábulos mais neutros de gênero, a "@" incomoda e distrai na leitura). Mas tem também a parte desse parágrafo: "Abuso (heteros)sexual praticado por pais, avôs, padrastos, a pedofilia praticada por religiosos..." - acredito que o abuso homossexual ocorra igualmente entre as famílias, não sendo restrito ao mesmo sexo. Reclame contra o preconceito às homossexualidades, mas não considere a heterossexualidade uma vilania por si só.

Nós, heterossexuais, somos legais (exceto os preconceituosos). Vocês podem conviver conosco em paz. ;)

Aliás, onde adicionamos nome à carta? Sou um zé-ninguém no movimento mas se quiser adicione meu nome, "Cláudio Luís Marques Sampaio". Não dá pra fazer algo naqueles sítios de abaixo-assinado?

Rita Colaço Brasil disse...

Patola, agradeço o seu comentário.
Para assinar a carta de repúdio, conforme disse no texto, basta enviar e-mail para o Dário Neto, da USP: flordamoita@yahoo.com.br.
Fiquei na dúvida sobre a qual dos textos exatamente você achou "nervoso" demais. Se ao meu, ou ao da carta.
Como seus comentários se referem ao meu, concluo que tenha sido a ele. Com esse entendimento, passo a lhe responder.
Achei bem interessante o incômodo que lhe proporcionou o uso da "@" e a referência às práticas incestuosas heterossexuais no seio da família sacrossanta.
É que, através deles, você pode imaginar o desconforto de quem tem a vida inteira que se ver retratada e referida por meio do artigo masculino, e aquele vivenciado pelas pessoas com práticas homossexuais - culturalmente retratadas à exaustão pelo viés da imoralidade, patologia, aberração.
Não vejo plausível a sustentação de que as práticas incestuosas apresentem a mesma incidência entre hetero e homossexuais, haja vista os dados disponíveis, seja entre pesquisador@s, seja noticiados pela imprensa. Na exploração sexual de menores, os dados disponíveis apontam abuso sexual entre meninos (colegas, primos), prática relatada com certa frequência, parte da cultura (masculina, notadamente) de subjugação do outro (mais fraco, de menor idade).
Escapou-me a parte onde expresso uma compreensão da heterossexualidade como intrinsecamente dotada de vilania. - Seria, aos seus olhos, o fato de referir as práticas, digamos pouco sacrossantas presentes nas relações familiares, nas famílias modelares (heterossexuais, porque as homoparentais ainda estão em vias de serem reconhecidas)?
Fiquei com a sensação de que fui lida num registro de retaliação às heterossexualidades, o que absolutamente não foi a minha intenção, tampouco se verifica em meu texto.
Meu argumento foi todo desenvolvido em torno da contradição presente nas práticas de fundamentalistas "cristãos"; em momento algum generalizei críticas às heterossexualidades.
Desculpe-me se não consegui transmitir adequadamente minhas idéias.

Patola disse...

Oi, Rita, acho que a sua insinuação sobre o meu incômodo com a arroba não procede - não é heteronormatividade enrustida, digamos. Gosto da minha língua e expresso o mesmo incômodo com a escrita de abreviações como "vc", "tb", com anglicismos desnecessários e outros desvios. O fato é que a gente "ouve" na mente o que lê, então causa uma pausa na leitura quando encontramos algo como "tod@s" - todarrobas? todoas? todes? Não existe equivalente fonético pra isso. Não sou contra reformas na língua pra expressar um conceito mais universal de gêneros, mas não dessa forma. Acho ridículo um grupo de 9 mulheres e um homem ser referido como "eles"? Acho. Mas também acho ridículo e mais inadequado se você se referir ao grupo como el@s.

É, não sendo homossexual não dá pra eu me colocar no lugar de um. Por outro lado, mesmo não sendo homossexual eu nunca escondo a minha curiosidade pela área, algo que é sempre visto com alguma reserva pelas pessoas com quem convivo, e por mais de uma vez, em fórum de internet, fui "denunciado" pelas minhas ligações com a homossexualidade e não é nem difícil achar isso procurando por "patola" pelo google. Então, embora eu não tenha conhecimento pragmático de sentir esse preconceito na pele, acho que chego suficientemente perto pra falar sobre ele. :)

Sobre o abuso sexual, eu não sei qual é a estatística mais confiável. Há estudos que mostram preponderância homossexual, outros heterossexual. Mas acho isso pouco relevante pro argumento: convenhamos, acontecem as duas coisas, de forma estatisticamente próxima. O meu ponto é que você quis limitar os abusos à heterossexualidade quando menciona "o abuso (heteros)sexual", e essa foi a parte em que entendi uma retratação negativa da heterossexualidade.

P.S.: Curiosidade apenas - eu costumo falar das "homossexualidades" porque temos bissexualidade, transexualidade, etc... Mas "heterossexualidades" nunca vi, sempre vi no singular; alguma razão específica para esse termo?

Rita Colaço Brasil disse...

Oi, Patola.
Desculpe a demora.
Olha, não fiz insinuação nenhuma, não. Apenas registrei que o desconforto poderia servir para um exercício de empatia, só isso.
Nesse sentido, penso diferente, pois creio, sim, na possibilidade da empatia - colocar-se no lugar do outro, imaginar como esse outro se sente, ainda que jamais venhamos a ter a verdadeira experiência que ele tem.
Sobre a busca por um termo neutro, eu tambem me sinto desconfortável com as em exercício - @ e o "x". Mas vejo como uma sirene a soar, uma provocação mesmo, ainda que produza-me, visualmente, os mesmos sentimentos que você relata. - À exceção de achá-los ridículos. ;-)
Desculpe-me então, pois eu desconheço estudos que afirmem ser as práticas de abuso sexual incestuosas (pai, padrasto, tio...) praticadas "de forma estatísticamente próximas" sejam hetero sejam homossexuais.
Como disse no outro comentário, apenas disponho de dados que retratam práticas heterossexuais, maciçamente predominantes as masculinas, mas encontrando-se tambem registros de práticas desferidas por mulheres (mães, madrastas, tias etc), contra meninos seus parentes.
O emprego do plural, ao meu ver, se deve em respeito à diversidade de práticas e condutas homossexuais (que, estrito senso, não abarcam as transexualidades ou bissexualidades). Assim, também as práticas e condutas sexuais entre pessoas de mesmo sexo são dotadas de singularidades.
[]'s.