sábado, 6 de agosto de 2011

Gestão Duloren: gritos, murros e xingamentos - Onde o respeito à dignidade pessoal?

Na postagem anterior, procurei demonstrar como é apenas aparente a contradição no fato de Roni Argalji pretender usar a imagem de Bolsonaro como o novo garoto-propaganda de sua fábrica de calcinhas, sutiãs e sungas.
Comparei as peças publicitárias produzidas por Olivero Toscani para a Benetton e as que tem sido elaboradas pela agência de Agnelo Pacheco com a aprovação pessoal de Roni Argalji para a Duloren, pontuando os modos pelos quais a fábrica de peças íntimas opera validando os mesmos signos hegemônicos.

Por meio dessa comparação, explicitei como o único interesse por trás das supostas "mensagens sociais" contidas nas campanhas produzidas por Agnelo Pacheco era, ao contrário de Olivero Toscani e da Benetton, pura e simplesmente a maximização das vendas das peças fabricadas e comercializadas pela Duloren - ver, como exemplo, a vazia e inconsistente "Senhora D", criada no Facebook

Através desse percurso comparativo, pude demonstrar como Roni Argalji se utiliza da polêmica raza, oportunista - totalmente descompromissada com a realidade social e sua transformação - para alcançar o seu verdadeiro objetivo, que é apenas aumentar as vendas. 

Examinando em conjunto as suas campanhas publicitárias é possível compreender que o dono da Duloren simplesmente se apropria um tema controvertido em destaque no momento para, polemizando ainda mais, alavancar seus lucros. 

Assim, tomando em consideração o seu real objetivo - o aumento das vendas - e o papel que a polêmica ocupa na busca da concretização desse objetivo, fica bastante claro que não importa se a "mensagem" veiculada em uma campanha hoje seja, amanhã, renegada.

Nesse sentido, é possível afirmar que a contradição apontada entre as campanhas veiculadas pela marca e o anúncio do uso da imagem de Bolsonaro na realidade não existe.

Como as supostas "mensagens sociais" inexistem - existindo somente temas empregados como insumos, ingredientes do bolo chamado aumento das vendas -, não há que se falar em contradição entre os temas que a marca se apropria em suas publicidades.

Como a proposta da Duloren - ao contrário da Benetton, recorde-se mais uma vez - não é a crítica dos moralismos e preconceitos, mas simplesmente o aproveitamento barato da polêmica e o apelo ao erótico, sensual, libertino, transgressor, há, sim, completa coerência. 
 

Hoje, porém, o que eu quero é demonstrar como a decisão de usar uma personagem como o Bolsonaro está em total coerência com o próprio perfil do dono da Duloren - Roni Argalji.

Por trás de calcinhas e sutiãs, o assédio moral

Foto do www.exame.abril.com.br/edicoes/0892/noticias

Segundo matéria de Samantha Lima para o Portal Exame, republicada no sítio Gestão Estratégica da Comunicação organizacional e Relações Públicas, o dono da Duloren, de 53 anos, embora seja graduado em economia e administração (pela Universidade Cândido Mendes), não dá a mínima para o conhecimento construído, testado e acumulado por esses campos do saber. Ao contrário.

Roni Argalji se ufana em "seguir sua própria cartilha", mandando às favas os protolocos de gestão empresarial, sobretudo os de gestão de pessoal.

Prefere muito mais gritar com seus empregados, dizer impropérios quando contrariado, e ofensas às modelos que participam das seleções para as campanhas publicitárias de sua marca:
Estilo informal e agressivo Veste sempre calça jeans e camiseta de malha. Um soco na mesa é sua forma de dizer não. Cobra aos brados mais desempenho e menos desperdício em reuniões periódicas com executivos e também com operários

Chamado de "trator" em duas matérias, Roni Argalji parece tambem fazer questão de ignorar os preceitos das boas maneiras, do respeito ao próximo, principalmente àqueles em posição vulnerável em relação a ele.

Sentindo-se todo-poderoso - "Não conheço a derrota, só a vitória" -, age como um feitor, não medindo palavras quando o assunto é humilhar e desrespeitar pessoas em posição social inferior à sua
 Tambem com os profissionais da área de marketing não costuma Argalji primar pelas boas maneiras:

O respeito e reconhecimento que destina aos empregados pode ser conferido no próprio sítio da empresa. O texto apresentado na seção "história" em nenhum momento faz referência aos seus empregados - apenas ao número de empregos gerados. 

Exalta suas "máquinas e equipamentos de última geração", a tonelagem de tecidos produzidos mensalmente, o número de peças produzidas e " orgulha-se de operar um dos mais avançados marketing estratégicos do mercado de lingerie", mas sobre a contribuição de seus operários para a consecução desses resultados, nada.

A matéria assinada por Samantha Lima para a Revista Exame não à toa é entitulada "Só a tirania resolve?"

Roni Argalji
Camisa da campanha de Bolsonaro
Percebe-se, portanto, o quão próximos são os estilos de comportamento de Bolsonaro e de Roni Argalji.

Mais uma vez, nenhuma incoerência!

Inconsistência foi tomar suas peças publicitárias meramente mercantis como propostas à reflexão crítica.

Não foi à toa que a empresa e seus departamentos se recusaram a conceder entrevista a Vanderlúcio Souza, do blog Ancoradouro, comentando sua campanha sobre pedofilia, que se utilizou da imagem de um padre a quem é exibido um crucifixo a modo de exorcismo, tendo ao fundo a Igreja de São Pedro, sede do Vaticano.

Em seu blog, Vanderlúcio encerra com uma pergunta:
Samantha Lima, do Portal Exame, adverte que esse seu estilo "enérgico", se auxiliou no processo de recuperação da empresa na crise em que estava mergulhada em 2000, "pode acabar atrapalhando no futuro".


Uma dessas atrapalhadas é, sem dúvida, apostar nesse seu hábito de impor a sua opinião à base de gritos e ofensas ("QI de ameba"; "idiota", "burra") e, mais do que se identificar pessoalmente com a imagem pública de Bolsonaro, promover uma associação publicitária de sua marca com essa persona e tudo o que ela representa.


Afinal, as mulheres heterossexuais (entre estas as transexuais), as travestis e as lésbicas - que tambem são mulheres, caso alguem se esqueça -, por mínima que seja a sua consciência da opressão androcêntrica e heteronormativa, não aprovam patrões que humilham e gritam com as suas empregadas - Elas sabem que isso é assédio moral, prática nociva  e proibida.

E, como consumidoras de peças íntimas femininas, não empregarão o seu rico dinheirinho a aumentar os lucros e perpetuar essa cultura do assédio moral empregada pelo dono da Duloren.

Como cidadãs conscientes da luta tenaz e ancestral contra a desqualificação, o desrespeito, a violência (dez mulheres são assassinadas todos os dias, fruto dessa mesma cultura) não aplicarão o seu dinheiro a alimentar essa prática gerencial opressiva e ilegal. 

Um comentário:

De Melo disse...

É uma ótima análise, precisa e incisiva, sobre o 'por trás' do mentor da indústria da polêmica.

Essa visão empoeirada do capital antisocial, visando apenas números depois das cifras, aliada à arrogância dos piores donos de engenhos escravocatas, remetem sempre ao passado dessa terra brasilis que nunca consegue se desvencilhar da cultura reaça do fazer produzir, acumular e cair fora.

E os problemas gerados na produção? "Eles" (a sociedade em geral, ou o social em geral, quem quiser ) que limpem a sujeira!