domingo, 7 de abril de 2013

Dilma Rousseff e Benedita da Silva: trajetórias que se aproximam na negação do passado

Andaram a perguntar semana passada, nas redes sociais, por que Dilma mantinha tão pesado silêncio sobre toda essa sorte de ignomínias que vem sendo dita contra homossexuais, travestis, transexuais, negros, mulheres, macumbeiros, candomblecistas e católicos pelo parlamentar eleito Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados que se intitula pastor. Diversas tem sido as personalidades públicas que tem se manifestado publicamente contra esse inopinado retrocesso em nossa ainda tão jovem democracia. Inclusive a Ministra da Cultura, deputada Marta Suplicy.

Há momentos nos quais adotar uma posição é não apenas necessário, mas, sobretudo, vital. Foi assim durante a regime de exceção instaurado com o golpe militar, em 1964. Diante da situação extrema, formada por torturas, extermínios, desaparecimentos e perseguição de opositores, crimes inadmissíveis (porque supressores do devido processo legal, do direito à ampla defesa) praticados parte de agentes do Estado, tornou-se imperativa a tomada de posição. Não era possível proceder ao modo do avestruz - enfiar a cabeça no buraco e deixar a tempestade passar, como se não fosse conosco. Desafiados em um tal contexto, viu-se honrar a história pessoas como a atriz e depois deputada Estadual por São Paulo, Ruth Escobar, cantores e compositores entre os quais Luiz Gonzaga Júnior, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, e tantos mais. 

Foi assim também durante o Congresso Constituinte, quando o então Movimento Homossexual Brasileiro decidiu confrontar o real da democracia brasileira e apresentou e defendeu sua demanda pelo direito de viver livre de discriminação. Entre outros, Suplicy (PT-SP), José Genoíno (PT-SP), Luiz Alfredo Salomão (PDT/RJ) exerceram importantíssimo papel na defesa dos direitos humanos como um valor civilizatório universal, dos quais nenhum segmento da família humana pode restar segregado. Entre esses, pasmem os mais jovens, estava Benedita da Silva (PT-RJ), que ascendeu à política partidária com o slogan "mulher, negra e favelada".

Benedita, que sempre foi evangélica, em 1987, no processo Constituinte, agiu com profundo senso de dignidade e de justiça. Sua experiência de discriminação que se sobrepõem, vez que advém de múltiplas motivadoras (gênero, etnia e origem social), lhe dotava - naquela ocasião - do profundo sentido ético e solidário.

Em 1987 Benedita sustentava a sua convicção de que "o direito de exercer plenamente a sua cidadania passa pela sua orientação sexual" (Diário da Assembléia Constituinte, 24 de julho de 1987 apud CÂMARA, 2002, p. 135). Esse sentido ético a levou a se apartar da bancada evangélica que, naquele processo, compunha o chamado Centrão - o bloco conservador atuante durante o Congresso Constituinte.

Em 29 de janeiro de 1993, no Rio de Janeiro, a Frente Parlamentar Evangélica ainda não havia side formada, embora existissem parlamentares religiosos fundamentalistas e totalitários, como durante o processo Constituinte. E Benedita, em entrevista à Cristina Câmara, autora da pesquisa, respondeu:

"Eu não acredito em tudo o que eu tenha defendido na Constituinte eu concorde, mas o respeito à individualidade de cada um faz com que o representante político busque defender os direitos das pessoas (...)
"O que significa um projeto cidadão? Enquadrar as pessoas dentro dos meus princípios religiosos, filosóficos, ou garantir à elas, democraticamente, os direitos que elas reivindicam? Então esse é o papel do Constituinte, o de fazer uma lei para todos e não para o meu universo. O meu universo específico eu já tenho: eu sou da Assembleia de Deus. Ali eu tenho uma doutrina, se mandar abortar eu não aborto, se for uma relação homossexual, também não tenho... dentro daqueles princípios. Eu não posso obrigar toda uma sociedade àquela doutrina, como não admito que erra sociedade me obrigue a outras".
Com o avanço do bloco totalitário de matriz cristã no Parlamento, Benedita da Silva optou por desonrar o seu passado. Agora que as forças estão polarizadas, que aquilo que era o "Centrão" se transformou em uma grande serpente a gestar o ovo do totalitarismo e que mais se necessita de pessoas com o status ético que ela exibiu em 1987, Benedita da Silva escolheu integrar a Frente Parlamentar Evangélica e, via de consequência, tornar-se cúmplice de todo o descalabro, em termos de valores civilizatórios, que ela representa.

Entre defender aquilo que em 1987 e em 1993 Benedita exibia como sendo o seu sentimento ético profundo e aquietar-se confortavelmente sob a sombra de um bloco de poder que de maneira alguma representa os valores propagados por Jesus, o Cristo (veja-se as diversas manifestações de religiosos evangélicos contrários aos rumos que determinadores pastores vem imprimindo à política brasileira). Ela optou pelo mais fácil: - Ficar com os totalitários cristãos e, com isso, negar toda a sua história como mulher, negra e favelada, isto é, mulher que sabe na carne as dores da discriminação e do preconceito. Convidada a integrar a Frente Parlamentar pela Diversidade Sexual, recusou-se polidamente, indo ficar entre aqueles que, aos seus olhos, eram os mais fortes (porque controlam votos de incautos).

Passo semelhante vem dando a primeira mulher a presidir o Brasil. Dilma Rousseff também teve um passado ético, de defesa de valores caros ao processo civilizatório (Direitos Humanos e Democracia). No exercício da presidência, contudo, desde maio de 2011 vem se esmerando em ações que entram em rota de colisão com esse passado: 

Ao material paradidático do Programa Escola Sem Homofobia negou seguimento, sabendo o prejuízo que isso acarretava em termos econômicos, pedagógicos e civilizacionais - porque consente com a cultura da discriminação e do bullying. E, ao fazê-lo, consentiu com a versão de que o que se estava a tratar não era de  um programa de enfrentamento, nas escolas públicas, à cultura da violência e discriminação, mas, sim, de se "fazer propaganda de opção sexual (sic)". Fiel às pressões do mesmo bloco a que Benedita resolveu aderir, Dilma também negou seguimento à campanha contra o HIV no Carnaval.

Como Benedita, Dilma vem demonstrando não ter mais nenhum compromisso com aqueles valores que defendeu no passado. Embora ainda durante a cerimônia de sua posse ela pronunciava afirmando que seria uma intransigente defensora dos Direitos Humanos e que governaria para todos. 

Mas não é isso o que tem feito. Não em relação ao direito de homossexuais, travestis e transexuais em viverem livres de discriminação e preconceito, como detentores do direito à dignidade, base dos direitos humanos. Em sua fome de sustentabilidade política - que parece não servir para muita coisa, haja vista a negativa de votação da lei orçamentária e a derrubada de seu veto às lei dos royalties -, Dilma se iguala à Benedita, no abandono de valores que no passado defendia com vigor.

Em sua base de sustentação política, Dilma tem não apenas o PSC (do deputado pastor Marco Feliciano), como o PR (o Partido da República, de Anthony Garotinho), o PSDS (Partido Social Democrata Cristão), PRTB (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro), PRB (Partido Republicano Brasileiro), PMN (Partido da Mobilização Nacional), PPL  (Partido da Pátria Livre), PTC (Partido Trabalhista Cristão). Acima de qualquer valor civilizatório, Dilma tem demonstrado despeitar apenas os acordos que celebrou com esse grupo.

Enquanto Dilma e Benedita se omitem, a cantora Daniela Mercury declarando publicamente o seu amor, revelou comprometimento social e cívico com esses mesmos valores que, aliás, estão expressos em nossa Constituição - dignidade, liberdade, autodeterminação, direito à busca da felicidade.

É, parece mesmo que essas duas entrarão para a história como Gal Costa e Maria Bethânia - como um arremedo, um ser perdido de seu próprio tempo, incapaz de atitudes que sustente a existência como algo capaz de se sentir paz na consciência.

Gal Costa e Maria Bethânia têm como atenuantes, sua capacidade vocal e interpretativa, mas, e Benedita? E Dilma? Que legado de coerência? Quais valores?

2 comentários:

Janaina disse...

Parabéns pelo texto - disseram tudo que eu sempre quis dizer sobre a Dilma e sua atual postura, tão diferente de seu passado e de suas falas durante a campanha. Tomara que em 2014 tenhamos mais alternativas!

Citizen 86 disse...

Dilma, para mim, foi uma grande decepção. Votei nela no segundo turno,mas me arrependi amargamente quando ela fez negócios escusos com a bancada evangélica. Para mim, Dilma e o PT Morreram. Os dois perderam o sentido de ser. O de serem a alternativa nacional.

Gostei muito do seu texto. Infelizmente esta mulher ganhará com o grande apoio desses partidos teocráticos. Mais uma vez serão 4 anos de mordaça do executivo para com o movimento civil GLBT.