sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

ORGULHO DE SER CLÓVIS, BORNAY, GAY

Dias desses, presenciei uma conversação interessante. Um jovem falava aos seus companheiros sobre a antipatia que nutria pelo seu prenome - Clóvis - e como essa escolha paterna lhe proporcionou gozações na vida escolar. Dizia que, para irritá-lo, os colegas chamavam-no ora de Bornay, ora de Clô. Lá pelas tantas de sua narrativa, desabafou: Tinha que ser registrado com um nome que evocava um gay?!

Tentei contemporizar. Afinal, Bornay foi um museólogo que, por intermédio de sua participação nos desfiles de carnaval, com sua enorme criatividade, dava aulas de história, popularizando temas e personagens históricos que, de outro modo, a maioria da população não teria acesso. Falei de seu reconhecimento pelo afeto e dedicação de sua empregada.

Talvez para não se sentir desconcertado, sabedor que é da homossexualidade enquanto meu objeto de investigação acadêmica, concordou com os atributos positivos do nosso grande carnavalesco.

Afinal, emendei, o problema não era o Bornay ser gay, mas, sim, o injustificável preconceito que diariamente busca, pela desqualificação sistemática, aniquilar socialmente os homossexuais.

Outros integrantes da roda de conversa passaram então a destacar as qualidades de Clodovil Hernandez, profissional da Alta Costura de reconhecida qualidade, apresentador de televisão e, mais recentemente, deputado federal - cargo no qual veio a falecer, vítima de Acidente Vascular Encefálico.

Poderiam ter sito aduzidos outros tantos atributos positivos desses que foram grandes ícones da cultura nacional e da cultura LGBT em particular.

Poderia, por exemplo, ter sido lembrado que Bornay, assim como Clodovil, foram pessoas que tiveram a grande coragem, dignidade e ousadia de, ainda nos anos finais da década de trinta do século passado, assumir publicamente a sua homossexualidade, não compactuando com a hipocrisia da dupla moral. Nenhum dos dois veio a contrair casamento heterossexual como estratégia de salvação contra a homofobia, como já vimos tantos fazerem.

Também jamais ouvi falar que Bornay fosse um profissional inescrupuloso, que usasse de práticas antiéticas, passando por cima de seus colegas. Que tivesse buscado ocupar o seu lugar na sociedade através de apadrinhamentos, de bajulações. Dele são unânimes as referências ao seu talento inigualável - ao ponto de ter se tornado hors concours nos concursos de fantasias de carnaval categoria luxo. Também à sua educação e gentileza são frequentes as referências.

Por falar em conduta profissional, consta que, museólogo do Museu Histórico Nacional, cedeu um aparelho de ar refrigerado do seu gabinete de trabalho para que fosse utilizado pna preservação da temperatura ambiente necessária à boa conservação de peças do acervo, em uma sala de exposição-depósito que estava sendo criada na instituição.

Sublinhando sua conduta pessoal, registra-se que, todo ano, em agosto, ele próprio se encarregava de elaborar um novo manto para a estátua de Nossa Senhora da Glória do Outeiro.

Também se mostrou dotado do sentido de compromisso cívico - em 2004 registra-se a sua participação, à pé, como um anônimo qualquer, à Parada do Orgulho LGBT em Copacabana.

Simples, sem a afetação exibida por tantos heterossexuais que de alguma forma atingem a notoriedade ou alguma espécie por mais ínfima que seja de poder, Bornay possuía endereço e número de telefone conhecidos. Ele mesmo atendia as ligações - ao ponto de um alucinado ter passado 16 anos a lhe fazer trotes.

Morador na Prado Júnior, em Copacabana, era comum vê-lo a pé no calçadão de Copacabana.

Sua contribuição para a cultura nacional lhe torna um personagem merecedor de uma homenagem semelhante à prestada ao grande poeta, também residente em Copacabana, Carlos Drumond de Andrade: uma escultura sua em tamanho natural, vestido com uma de suas esplendorosas criações, fruto de sua genialidade criativa e moral.

Mas, numa sociedade preconceituosa, hipócrita, cínica, antiética, corrupta, desrespeitosa das leis e das normas de contuda, de sociabilidade e educação, guiada pelo salve-se quem puder, pelo jeitinho, pela lei de Murici, pela lei de Gerson, imoral é o gay, a lésbica, a travesti, a transexual!

É por isso que lutamos contra a Homofobia, assim como contra todas as demais formas de estigmatização. É por isso que lutamos pela aprovação do PL 122.

Para que as pessoas sejam respeitadas em sua dignidade. Nem menos, nem mais.

Quem desejar obter maiores informações sobre este grante personagem da vida carioca e da cultura homossexual, com vídeos e fotos, indico os sítios a seguir, os quais serviram de fonte para a presente postagem, inclusive de onde foram retiradas as fotos:

http://www.midiaindependente.org/en/red/2004/06/284605.shtml
http://dusinfernus.wordpress.com/2009/08/05/clovis-bornay-te-adogo/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cl%C3%B3vis_Bornay
http://inmemorian.multiply.com/photos/album/379/379

Veja também aqui, mais informações indispensáveis sobre o museólogo e carnavalesco: http://www.famososquepartiram.com/2009/11/clovis-bornay.html

4 comentários:

Carlos Alexandre Neves Lima disse...

Clóvis me lembra fantasia de bate-bola!

Anônimo disse...

Bornay foi casado sim embora somente no papel. E em uma entrevista no superpop chegou a negar a homossexualidade atribuída.

Rita Colaço Brasil disse...

Anônimo (pena você se manifestar por meio do anonimato):

Bornay se casou com a sua empregada, em um cartório em Nova Iguaçu se não me engano(decerto para evitar a imprensa), de modo a destinar a ela a totalidade dos seus bens.

Não conheço referências a esta entrevista no superpop. Seria interessante sabermos quando foi, a data.

Abs. e um ótimo ano para você.

Rita Colaço Brasil disse...

Sim, Clóvis também é um personagem carnavalesco, assim como a Colombina e o Arlequim.