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quinta-feira, 12 de maio de 2016

A profunda dor da injustiça pessoal não comove num país de injustiças

Me pareceu "fraco" o discurso de Dilma ao anunciar o seu afastamento. Bater na tecla da injustiça em um país cuja maior marca é precisamente a injustiça não me parece producente, tampouco capaz de produzir grande empatia, para além daquelas pessoa que já estão a compreender o processo.

Pessoalmente preferiria que ela tivesse aproveitado a ocasião para rememorar brevemente todos os passos do golpe, para além daqueles imediatamente após a promulgação do resultado das urnas, pelo candidato derrotado Aécio Neves. Que ela mencionasse os travamentos na Câmara aos projetos que encaminhou, desde as jornadas de protestos de 2013; que ela, didatica e sucintamente, explicitasse para a população o crescente processo de imviabilizacao de seu governo, na descarada aposta no "quanto pior, melhor", nas chamadas "pautas bombas e no "deixá-la sangrar até o fim". Em minha percepção pessoal, ela desperdiçou uma excelente oportunidade de rememorar e mesmo informar os atos sequencias dessa farsa humilhante, instrumentalizada por meio do impeachment, coisa que não está clara à grande maioria da população (pela óbvia manipulação realizada diariamente pela mídia oligopolizada). Como disse no início, parece-me de baixissimo impacto empático falar da sua dor pessoal diante da injustiça em uma nação que se caracteriza precisamente pela injustiça.

A tragédia anunciada e ignorada

O Senador Cristovam e o Senador Collor declararam haver buscado alertar a Presidenta quanto a necessidade de falar com a população, com franqueza, sobre os motivos que a levavam a mudar o programa apresentado durante as eleições e com o qual as ganhara. Também o responsável pela área de comunicação do seu governo fez o mesmo - terminou o seu relatório sendo vazado para a imprensa, onde falava que "a comunicação do governo é errática".

- Claro que isso não é motivação para a destituição da Presidenta eleita. Mas reitera o quanto cabeça dura pode ser uma pessoa. Pessoa que se recusa a dar ao interlocutor o benéfico da dúvida na razão ("e se ele tem razão? ...") Posso bem imaginar o quão abissal deve ter sido o sentimento de solidão da Presidenta - uma presidenta não exercitada em nenhum cargo eletivo, inexperiente total e pessoalmente pouco afeita às conversações e adulacoes que chamam "fazer política". 

Mas sinceramente lamento que a primeira mulher eleita para o cargo de Chefe do Executivo Federal tenha incorrido em tantos erros, ciente que era de que seus adversários postavam-se como lobos esfaimados, vigilantes para um seu qualquer descuido. Como ouvi hoje de um dos muitos comentadores na Tv Brasil (que aliás vem realizando um excelente trabalho jornalístico e de informação, através dos vários programas de debates e das participações de especialistas nos plantões do Repórter Brasil), formou-se a vontade de uma maioria contra a Presidenta eleita.

E essa maioria foi sendo fermentada - fermentada, sim, como fungo, bolor -, na medida em que a constelação de elementos ia se ajuntando: à crise internacional juntava-se o tenaz e sórdido bloqueio a todas as propostas que ela enviava à Câmara dos deputados. Seus adversários não se furtaram a declarar, por várias vezes, em convescostes entre pares de talvez mesmo quilate ético, que ela não terminaria o mandato, ou que poriam o seu governo para sangrar até o fim! 

Mas ela sabia, disso tudo estava ciente. Mas não foi capaz da inteligência intuitiva que a vida aquinhoou ao Lula e seguiu apostando em manter-se dentro de seu gabinete, como num bunker, cuidando de trabalhar intensamente pelo país. Honesta, honrada, sem tergiversar com "os malfeitos" (vejam-se todos os atos por ela praticados no sentido de desmantelar processos de corrupção - quem se lembra da alta dignidade do Controlador Geral da União por ela nomeado? quem se lembra do fato de ela ter determinado a troca de toda a direção de Furnas? de ter escolhido uma profissional de carreira da Petrobras para dirigir a nossa maior estatal e esta haver trocado todos os cargos de direção da empresa?), mas vitimada pelo partido da mídia oligopolizada, em conluio com todas as forças políticas que apenas querem maximizar os seus lucros pessoais e corporativos, em aliança com os interesses de empresas estrangeiras, contra os interesses nacionais, que souberam habilmente se aproveitar da crise econômica Internacional e das inabilidades políticas (no trato político, das relações pessoais) da Presidenta. 

Esperemos que o STF, quando do julgamento do mérito, o seu Plenário não se mostre acovardado à tutela da "opinião publicada", trombeteada dia e noite, em todos os espaços, por meio de aparelhos de televisão ligados no canal da voz única. - Será que a instância do Judiciário encarregada da guarda da Constituição e que tem em seu passado as sombras de haver negado habeas corpus a Olga Benário, grávida de um brasileiro, entregando-a às mãos dos nazistas; haver apoiado o regime militar; e haver decretado a constitucionalidade do confisco do Collor, terá a estatura que a história está a lhe exigir?

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Será que a ficha caiu?

Ao contrário das votações na Câmara, hoje, na votação da admissibilidade do pedido de destituição da Presidenta pela Comissao Especial do Senado, não vi nem ouvi nenhuma manifestação de meus cívicos e socialmente preocupados vizinhos - nenhuma panela bateu, nenhum grito gutural, pleno de ódio ribombou pelas varandas...

Será que estão encabulados, diante do desmascaramento do golpe, sobretudo pela imprensa Internacional?, diante da consciência de suas implicações? Será que a ficha caiu? Ou foi simplesmente a incompatibilidade do dia e horário, a inviabilizar mais uma expressão do velho comportamento de torcida de futebol, exibido contra a Presidenta desde a abertura da Copa?

Me recuso a assistir os telejornais desavergonhadamente manipulados da mídia oligopolizada desde que a coisa atingiu os píncaros do descaramento, portanto não saberia dizer o tipo de pasta gosmenta andam a receber. Mas imagino ser impossível a esta altura eles desconhecerem o mico Internacional que a republiqueta das bananas anda a apresentar para consumo nacional e mundial. 

Aguardemos os próximos desdobramentos.