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segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Tá boa, Santa? Quando o bicho pega, leiloa-se a companheirada mais aguerrida?

Como na fantasmagoria que terminou elegendo "isso que tá aí", estamos vendo se multiplicar falas de companheirxs de luta pelas esquerdas, no sentido de que "talvez seja o momento de se repensar as pautas identitárias". 

- Risível, para dizer o mínimo. Mais fácil do que reconhecer suas incompetências discursivas e mobilizadoras na disputa pelo consenso, é leiloar as demandas dos povos pretos, autóctones, profissionais do sexo, mulheres e LGBTQIA+.

Que companheiros são esses que diante de um grande desafio a apontar resoluto e inequívoco para os próprios erros e inabilidades, preferem abandonar as parcelas que mais têm produzido avanços nas lutas populares, nas últimas décadas?

"A despedida do historiador
Chico Alencar: 'A esquerda perdeu a disputa de ideias na sociedade'
por Bernardo Mello Franco em O Globo, 16/12/2018, 06h00

Há nove dias, o deputado Chico Alencar subiu num caixote de madeira para conversar com eleitores no centro do Rio. De camiseta e sandálias de couro, comentou o noticiário político e distribuiu um folheto sobre o trabalho em Brasília. Foi a última vez que ele cumpriu o ritual de todas as sextas-feiras, dia em que presta contas do mandato em praça pública.

Depois de 16 anos, Chico vai deixar o Congresso. O historiador abriu mão de uma reeleição segura para concorrer ao Senado como azarão. Recebeu 1,2 milhão de votos, mas ficou em quinto lugar. A derrota deu início a uma fase de reflexões. Na quarta-feira, ele fez o discurso de despedida. Ao descer da tribuna, produziu uma cena inusitada: petistas e bolsonaristas se uniram na mesma salva de palmas.
“Senti uma emoção diferente, de missão cumprida e, para minha surpresa, reconhecida”, conta. “Mediar é diferente de fazer média e de conciliar. Talvez venha daí o reconhecimento dos conservadores: sempre tento afirmar posições sem agredir. As ideias devem brigar, não as pessoas”, defende.

Para Chico, o Parlamento deveria ser o lugar de “civilizar o debate e dar racionalidade às contradições”. Ele crê que esses princípios ficarão ainda mais fora de moda na próxima legislatura. “O clima deve se acirrar. A revolta com a política produziu um voto raivoso, que elegeu governantes e parlamentares truculentos. Serão tempos piores”, prevê.

O deputado chegou a Brasília em 2003, eleito pelo PT. Viveu a euforia com a posse de Lula e a decepção com o mensalão. No dia em que o marqueteiro Duda Mendonça admitiu ter recebido dinheiro de caixa dois, foi às lágrimas no plenário. Saiu do partido e ajudou a fundar o PSOL.

“A esquerda ganhou pecha de corrupta, ficou identificada com a podridão do sistema. É uma tragédia, mas caímos na vala comum”, reconhece.

Na contramão dos petistas, Chico defende uma autocrítica rigorosa para sair do buraco. “Não dá para esconder a enorme derrota histórica que nós sofremos. A extrema direita conseguiu canalizar a indignação da sociedade”.
Ele também diz que o PSOL precisa repensar a ênfase em pautas identitárias e temas que assustam o eleitor não engajado. “Outro dia, eu estava numa passeata e a turma começou a cantar: ‘Eu quero o fim da Polícia Militar’. Aí um PM veio falar comigo: ‘Seu Chico, vocês querem que a gente fique desempregado?’. Às vezes o slogan reduz o alcance do que se propõe”, observa.

O deputado se surpreendeu com a vitória de Jair Bolsonaro, que considera “raso e despreparado”. “Há três anos, eu diria que era mais fácil o Tiririca se eleger presidente”, admite. Ele prevê tempos difíceis e teme uma escalada autoritária. “A esquerda perdeu a disputa de ideias na sociedade. Mas nada é definitivo, a história dá muitas voltas”, lembra.

Aos 69 anos, Chico planeja fazer doutorado e voltar a dar aulas na UFRJ. “Preciso trabalhar para sobreviver. Deputado não é profissão”, afirma o historiador, que não aderiu ao generoso plano de previdência parlamentar. Ele diz que não quer mais se candidatar a cargos públicos. “Tinha seis ternos, já doei três. Espero não ter que usar os outros, prefiro andar de bermuda”, brinca. “Mas não pretendo me aposentar para jogar sueca na praça!”."

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O deputado e a natureza de sua função

Não vejo porque chamar o deputado Jean Wyllys de herói.  Aliás,  não gosto de heróis  - eles costumam cobrar muito caro por façanhas para as quais a ninguém consultou se queria, cientificando previamente do preço.

Dito isso, sobre a mais recente controvérsia que o mesmo se envolveu (mais do que a simples visita a uma Universidade em  Israel, as suas posições,  por ele mesmo escritas e divulgadas, sem que desta feita possa alegar alguma edição truncadora de parte de jornalista qualquer) tenho a mencionar duas coisas, uma das quais já havia destacado quando o mesmo fez questão de sair a dar entrevistas em tudo o quanto fosse de veículos e falar contra o PLC 122, ciente de que estava em rota de colisão com a demanda principal dos movimentos LGBTs (colisão que ele mesmo reconheceu em uma dessas entrevistas):

1) O PSOL - partido do deputado - tem questão fechada sobre o  boicote à Israel (movimento BDS). Dado que o deputado tem posição diferente,  melhor que busque uma agremiação capaz de melhor lhe representar as formas de visão. O que me parece crítico é termos também entre os de esquerda, os "progressistas", pessoas afeitas a atuações em modo solo a ocupar posições de REPRESENTAÇÃO. Se não podemos saber qual será o posicionamento de um parlamentar no qual votamos e que está referendado no espaço público a partir de sua agremiação partidária, identificada pelo eleitorado precisamente a partir de suas posições assumidas coletivamente, a natureza mesma dessa REPRESENTAÇÃO torna-se prejudicada;

2) A posição adotada e defendida publicamente pelo deputado, contrariando frontalmente a posição de seu partido, mais uma vez demonstra a sua baixa aptidão para exercer a REPRESENTAÇÃO (essência da função parlamentar). A primeira vez se deu ao contrariar publicamente o posicionamento da maioria dos ativistas LGBTs, que clara e ostensivamente defendiam o PLC 122 - o deputado deliberou  atuar em frontal e arrogante rota de colisão, desqualificando essa posição em entrevistas várias (neste blog encontram-se postagens abordando essa conduta, inclusive links para as entrevistas). Quem sabe, talvez, a sua dificuldade seja com a REPRESENTAÇÃO mesma. Talvez seja um ator político (um ótimo ator político, todos reconhecemos, mas ainda assim humano, tão humano e mortal como qualquer outro) que mais se identifique com a função do intelectual do que com a função do parlamentar. O que seria uma pena se ao fim e ao cabo se chegasse a essa conclusão, dado que é, sim, uma voz (ainda assim) importante em nosso Parlamento. O tempo nos dirá.

No mais, partilho o texto a seguir, não sem recomendar vivamente a leitura de SHLOMO SAND - A invenção do povo judeu:

Por Waldo Mermelstein.

Companheiro Jean Wyllys,

Hoje à noite companheiros de longa data me chamaram a atenção para seu post no facebook acerca de sua visita a Israel. Li com atenção o que você escreveu, além de boa parte das respostas que o post ensejou. Vi também que foi a convite de um amigo meu de longa data, James Green, que foi militante da mesma organização socialista (trotskista) que eu e um dos iniciadores na esquerda, há décadas, do combate pelos direitos dos homossexuais.

Sou um antigo militante da esquerda. Meus pais eram judeus, e eu cheguei a ser sionista na adolescência, rompendo com o sionismo após ter passado um ano em Israel. Por essa razão original, sigo acompanhando o tema com muito interesse. Me desculpo pela extensão desta carta, o que, entretanto, me parece compreensível pela intensidade e urgência do debate em questão. De todo modo, não me aprofundarei no tema tal como ele exigiria, afinal, esta carta é só uma carta, e não seria justo, metodologicamente, responder a um post com infindáveis laudas. Naturalmente, não tenho acordo com o que você escreveu, e acho que algumas das questões/críticas que irei colocar abaixo já foram, talvez com mais propriedade, assinaladas por outros dos seus interlocutores.

Em primeiro lugar, o tema não é entre judeus e árabes, mas entre o Estado sionista (e os que o apoiam) e a população nativa que ali habitava há centenas de anos. Infelizmente, a esmagadora maioria da população judaica de Israel apoia os aspectos essenciais em que se baseia o Estado de Israel. Não é possível se referir à situação atual sem relatar e compreender o que aconteceu em 1948, quando as Nações Unidas dividiram a região da Palestina Histórica contra a vontade da maioria da população e os sionistas aproveitaram a chance histórica para expulsar 80% da população palestina. Desde então, Israel tem continuado essa obra, se estabelecendo como um Estado judaico e democrático, um oximoro. Sugiro que faça um pequeno teste: sem falar sobre mais nada, proponha aos que estão lhe recebendo, ou às ONGs que você mencionou, que Israel comece se definindo como um estado de todos os seus habitantes, como o Brasil o é, por exemplo, não obstante todas as suas desigualdades sociais. Essa pode ser uma lição útil para você ver que não está perante um Estado como os demais, mas frente a um Estado que é legalmente racista, a começar pela sua definição e suas infinitas leis racistas. Não estou me referindo ainda aos territórios ocupados, mas às fronteiras de 1948.

Em segundo lugar, a ideia de dois Estados, independentemente de sua justiça, foi destruída pelas décadas de ocupação e colonização. Por isso, uma saída sem banho de sangue que a você e a todos seduz teria que ter como base a restituição da justiça, dos direitos espoliados dos palestinos para que pudesse haver a convivência pacífica. A base para isso é o direito internacional dos refugiados e seus descendentes que foram expulsos em 1947-8. Sei que há várias versões sobre o fato, mas a boa historiografia palestina já foi confirmada quando da abertura dos arquivos do Estado de Israel e mostra que houve uma política deliberada de expulsão em massa dos residentes palestinos. Mas mesmo que isso não fosse verdadeiro, o direito de retorno dos refugiados é inalienável. Basta ver tudo o que diz o direito internacional e as próprias resoluções da ONU da época, nunca revogadas. Então pergunte aos seus anfitriões tão democráticos se eles estão dispostos a aceitar esse direito, no marco dos dois Estados que propõem. Não quero fazer nenhum jogo, sei perfeitamente o que irão lhe responder.

Em terceiro lugar, e talvez o mais importante: siga o exemplo de Caetano, vá até à Cisjordânia, conheça as aldeias ameaçadas permanentemente pelos colonos e pelo exército de ocupação. Verás que a vida lá é só não duramente real, mas também de viés. A experiência de Caetano o levou à conclusão de que, parafraseando seu companheiro de show na ocasião, Gil, ter ido a Israel foi “necessário para [não] voltar”. Sem concordar a maioria das reflexões de Caetano em sua volta de Israel (pois mantém o erro de apoiar a solução dos dois estados, além de ter furado o boicote e seguir atacando o BDS) arrisco a dizer que as conclusões a que você chegará como parlamentar de esquerda e ativista social (não nesta ordem) serão bem distintas das que você colocou em seu post. Aliás, não por acaso, boa parte de seus eleitores possuem uma posição bem distinta do que você expressou e por razões bem fundamentadas.

Voltando ao começo da minha carta: não é verdade que o movimento de solidariedade aos palestinos se baseie no antissemitismo. A cartada do antissemitismo é uma das maiores mentiras divulgadas pelo movimento sionista. É bom saber que os sionistas nada fizeram para lutar contra o antissemitismo quando ele era importante. Em vez de se unirem aos movimentos sociais para lutar contra o antissemitismo preferiram aderir à ideia de colonizar a Palestina e negociar com todos os poderes opressores, os podres poderes de então, a começar pelo Czar de toda a Rússia, onde viviam 80% dos judeus à época (início do século XX). Há uma mais uma mancha na história dos sionistas que é o acordo de transferência de bens e pessoas para a Palestina, feito com Hitler em 1933, no momento em que a esquerda no continente tentava organizar um boicote à Alemanha. Digo isso porque como descendente de uma família que se perdeu nos campos de concentração e nas câmaras de gás me repugna a utilização falsa desse fato monstruoso. Prefiro a inteireza moral de muitos sobreviventes que sempre disseram que justamente por terem sofrido e presenciado o horror não podem ser cúmplices em uma política racista.

Por fim, você compara o BDS com o boicote americano a Cuba. Nesta lógica formal e nada dialética, você iguala a violência do escravo para com o feitor à violência deste contra aquele, ignorando que a própria escravidão já é, antes de tudo, uma própra violência. Pare para pensar e verá que a comparação entre os dois boicotes é descabida: o boicote a Cuba é pelo fato da pequena ilha ter desafiado o poder imperial. O BDS é a arma dos palestinos oprimidos por Israel e estimula a solidariedade para que os cidadãos judeus de Israel percebam que o mundo não tolera regimes como o do apartheid. Você estaria contra o boicote ao regime racista dos boers? Certamente não! A luta era para que houvesse mínimos direitos iguais entre todos os que lá habitavam. O boicote levou décadas, mas ajudou muito a que o regime racista da África do Sul caísse. Leve em conta que há várias organizações sociais na Europa e nos EUA que já aderiram ao boicote e que este é um instrumento legítimo de luta.

Não espero que concorde com o que escrevi rapidamente, mas pelo menos vá conversar, conhecer o lado dos milhões nos territórios ocupados. Foi a visão dos operários que trabalhavam em Israel e voltavam para Gaza em 1970, em um ônibus cheio deles em minha volta ao kibutz em que trabalhava, que me empurrou decididamente a romper com o sionismo, mais do que qualquer livro que li. Como disse certa feita um antigo filho de judeus, ateu e marxista Lev Davidovicht Bronstein (Trotsky), “se o papel aguenta tudo, a história não”. E a história lá não é senão a história da opressão de um Estado sobre um povo sem Estado. O resto o papel aguenta, mas o resto é resto.


Fonte: https://www.facebook.com/waldo.mermelstein/posts/10206717037782838?fref=nf&pnref=story