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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Roni Argalji e a sua Duloren: Afinal, quem é mesmo idiota e tem QI de ameba?

Inicialmente pode parecer contraditória essa ideia do Roni Argalji, atual diretor e proprietário da Duloren, de tornar Bolsonaro garoto-propaganda de sua fábrica de peças íntimas.
 
Tendo em 2001, após o falecimento de seu pai, comprado de sua irmã e primos a marca que seu pai havia criado, Roni decidiu dar seguimento à linha publicitária polêmica iniciada na empresa em 1995.

Em julho de 1995 a Duloren teria lançado uma campanha com ninguem menos do que Dercy Gonçalves, para o slogan "Você não sabe do que uma Duloren é capaz".

Em julho de 1999, lançou campanha com a imagem de dois homens de terno se beijando, tendo ao lado o mesmo slogan.

O oposto de Olivero Toscani e Benneton
Não se pode, porém, dizer que a Duloren empregue  o recurso da publicidade polêmica  da mesma forma que a Benetton. Não, de jeito nenhum. De meu ponto de vista, aliás, poderia mesmo ser considerado em sentido diametralmente oposto.

Me explico.
 A Benetton, aderindo à concepção de Olivero Toscani, ousou utilizar-se da linguagem publicitária para, ademais de vender suas mercadorias, quebrar paradigmas e, por meio desse recurso, incitar a reflexão, o debate. Enfim, fazer com que as pessoas parem para pensar sobre si mesmas, em termos de suas concepções de mundo e nas formas de relação instituídas no mundo à sua volta.

  Já a Duloren, pelo que se observa de suas campanhas, embora traga certos traços em princípio lidos como progressistas, na realidade termina por reforçar os padrões estabelecidos. 

Digo de outra forma.

 É certo que ela emprega o humor, a irreverência, a provocação, o erotismo, a sensualidade.  

No entanto, ao fim e ao cabo, não dá ensejo ao surgimento de reflexões críticas. Não abala as estruturas de pensamento, de visão de mundo. 

Como diz o título de uma de suas campanhas, é uma polêmica em bases puramente libertinas.

E por que? Porque emprega uma linguagem que é apenas supostamente transgressora. Porque sua pseudo transgressão se realiza dentro dos mesmíssimos padrões estéticos legitimados pela parcela hegemônica - aquela tida como "cult", "inn", ou que se pensa enquanto tal. 

 As mulheres e os homens cujas imagens são utilizadas nas campanhas, com exceção da Dercy Gonçalves e de uma gordinha simpática, seguem rigorosamente o script hegemônico - brancos, magros, ele musculoso, viril, ela, delgada, delicada, sensual e jovens. 

Quando apareceram os velhos, era dentro da representação arcaica dos vovozinhos "inofensivos".


As lésbicas, por exemplo, são meras projeções idealizadas do imaginário masculino heterossexual, nada mais.
 
Dentro dessa concepção exibida ao longo das campanhas, resulta perfeitamente possível e coerente - do ponto de vista do proprietário da marca - inserir a imagem de uma pessoa como Bolsonaro.

É que, no fundo, no fundo, as campanhas da Duloren não estão aí para questionar coisa nenhuma - ao contrário da Benetton e as campanhas criadas por Olivero Toscani.

O dono da empresa Duloren apenas se aproveita de temas e personas tidos como polêmicos, quer dizer, como o próprio Roni definiu, controvertidos, para "surfar" em sua onda, para se colocar em evidência. Ou seja, para incrementar as vendas da sua mercadoria. 

Então, dentro desse contexto, do mesmo modo que pensa em usar a imagem do Bolsonaro, poderia ter escolhido a de Hitler. 

- Seria simplesmente o legítimo exercício ao sagrado direito de expressão, conforme a opinião de Roni.
A Duloren não tem nada nem a favor nem contra. Desde que não me atrapalhe, minha filha, fique à vontade. 
Dado que a liberdade de expressão - na concepção de Roni Argalji - não possui limites, é um direito absoluto, totalitário, e dado que ele, no fundo, no fundo, não está nem aí para valores, o que ele quer é só e somente utilizar-se da polêmica para vender,  então não há problema algum em utilizar-se seja da imagem de Bolsonaro, seja da imagem de Hitler - dá tudo no mesmo!

Um simples detalhe?
Não me parece, porém, que seja tão simples assim. 

Roni Argalji declarou ao sítio Terra Magazine que aquelas pessoas que pensam em boicotar os produtos de sua empresa por conta de sua decisão de utilizar a imagem de Bolsonaro seriam "idiota"s, "burra"s; teriam "QI de ameba"... Enfim, "gente ignorante que não tem o que fazer."
Isso é coisa de gente com QI de ameba, gente burra.  Uma pessoa, que tem sua opinião e sabe que o outro tem direito a seu pensamento, não vai entrar numa idiotice, numa infantilidade dessa.
Parece que ele deixou de considerar o fato de que, embora dentro dessa ótica puramente libertina e marcadológica, as campanhas que aprova para veicular o nome de sua fábrica de peças íntimas termina tendo como público-alvo mulheres emancipadas, autossuficientes, inteligentes.

Mulheres - e certamente alguns homens - que discordam veementemente de pessoas que desrespeitam e ofendem mulheres e outros seres humanos, inclusive homossexuais - gays, lésbicas, travestis, transexuais.

Embora trabalhe a divulgação de sua marca na linguagem do libertino e das sex shops (- nada contra, por favor!!!), muitas consumidoras e certos consumidores  dos produtos de sua marca (dado que tambem comercializa peças íntimas masculinas), certamente não aprovarão a associação da marca Duloren à imagem de uma pessoa que ridiculariza a noção de Direitos Humanos; que costuma agredir e ridicularizar mulheres e disseminar o desrespeito e o ódio aos homossexuais, travestis e transexuais.

Talvez, alem de refletir sobre os efeitos de associar sua marca a uma pessoa como Bolsonaro - que ademais de possuir eleitores suficientes para reelegê-lo, ocupa um nicho do eleitorado que se caracteriza pela intolerância, autoritarismo, violência e arbítrio -, valesse a pena Roni dedicar alguns minutos de seu dia a examinar a sua própria incoerência.

Incoerência do empresário
Ora ele afirma, na matéria do sítio terra Magazine, que "a Duloren se posiciona". Ora, na mesmíssima matéria, ele diz que "A Duloren não tem nada nem a favor nem contra. Desde que não me atrapalhe, minha filha, fique à vontade."

Parece que ele se esquece - ao que tudo indica - do conteúdo da campanha da coleção Atelier, que aprovou pessoalmente, datada 04/2010 e criação de Marcos Silveira. Ela traz uma mulher estilo vamp, de soutiã com ombreiras, biquini e a mão esquerda para cima, com o dedo médio em riste e, ao lado, o texto: abuso sexual, prostituição infantil, estupro, racismo, violência, humilhação, assédio sexual, corrupção, impunidade, preconceito e, bem mais embaixo, o slogan: você não imagina do que uma Duloren é capaz).

No meio de tanta mixórdia, fica difícil, muito difícil, saber ao certo afinal, a que diabos quer  Roni Argalji que o público consumidor associe à sua fábrica Duloren!

No meio de tanta contradição, cabe a pergunta:

- Afinal, quem é mesmo "idiota", "burro" e tem "QI de ameba"?

Uma coisa, porém, é mais do que certa: 

- Seja lá o que for que Roni tenha em sua cabeça promover em associação à sua marca, certamente não é o culto e a promoção de valores consagrados constitucionalmente!

domingo, 13 de junho de 2010

GRUPO IDENTIDADE CAMPINAS PROCESSA TORCIDA DE FUTEBOL POR HOMOFOBIA

o IDENTIDADE - Grupo de Luta Pela Diversidade Sexual, de Campinas, apresentou, na semana passada, dia sete de junho, DENÚNCIA DE DISCRIMINAÇÃO A CIDADÃOS HOMOSSEXUAIS contra a DRAGÕES DA REAL, uma das torcidas organizadas do São Paulo Futebol Clube.

Segundo a narrativa dos fatos apresentada na petição dirigida ao Secretário de Justiça e Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo, a Dragões da Real, através de seu sítio na internet, no dia 25 de maio teria divulgado matéria de conteúdo discriminatório contra homossexuais, a partir da representação estigmatizante construída sobre uma suposta orientação homoafetiva do jogador Rycharlyson:

"Richarlyson em boate gay... Até quando vamos agüentar isso?"

"Não é de hoje que esse traste suja a imagem sagrada do São Paulo Futebol Clube com seu jeito afeminado. (...)

"Hoje em dia, muitas crianças estão com VERGONHA de dizer que são são-paulinos justamente porque logo são chamados de bambis e de Richarlyson. Será que nossa Diretoria vai ver um jogador homossexual mediano manchar a imagem do clube sem fazer nada? Se Richarlyson recebe dinheiro alto para um Contrato de Imagem com o clube, ele tem de honrar o contrato. E Direto de Imagem envolve SIM ter um mínimo de postura também fora de campo.
As piadas virão aos montes, mas o são-paulino não agüenta mais isso. Os pais são-paulinos não agüentam mais verem os filhos terem vergonha de dizer pro time que torcem por causa de trastes como Richarlyson.
Agora já chega! Ou o cara tem postura e honra o Contrato de Direito de Imagem que tem com o clube ou pede para sair e vai lá para aquele time sem estádio, pois o Rei Momo que é estrela principal deles adora sair com travesti ..."

Segundo o texto da denúncia do Identidade, "atitude homofóbica da denunciada não se limita a atacar a pretensa homossexualidade do jogador Richarlyson, mas também adota uma postura discriminatória contra jogador de outro time: Ou o cara tem postura e honra o Contrato de Direito de Imagem que tem com o clube ou pede para sair e vai lá para aquele time sem estádio, pois o Rei Momo que é estrela principal deles adora sair com travesti ..."

Assim, em razão dos fatos narrados, a torcida denunciada estaria violando a Lei Estadual nº 10.948 de 2001, além da própria Constituição da República (em seus artigos art. 3º e 5º, inciso XLI) e de todas as normas nacionais e internacionais de direitos humanos, ratificadas pelo Brasil.

Conforme a petição do Identidade, "o art. 2º da Lei Estadual nº 10.948 de 2001, descreve as condutas consideradas atentatórias e discriminatórias dos direitos individuais e coletivos dos cidadãos homossexuais, bissexuais e transgêneros. Dentre estas condutas, encontramos no inciso I a previsão de atitudes que correspondem exatamente ao ocorrido com os cidadãos vítimas da discriminação praticada pela denunciada:


I - praticar qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica".

Além disso, a matéria apontada caracterizaria o tipo de infração prevista no inciso VII do mesmo artigo 2º, ao afirmar que a presença de um atleta de futebol homossexual "mancharia" a imagem do clube:

"VII - inibir ou proibir a admissão ou o acesso profissional em qualquer estabelecimento público ou privado em função da orientação sexual do profissional".

No que diz respeito ao agente infrator, sempre segundo a petição do Identidade, o artigo 3º da mesma lei esclarece:

"Artigo 3º. São passíveis de punição o cidadão, inclusive os detentores de função pública, civil ou militar, e toda organização social ou empresa, com ou sem fins lucrativos, de caráter privado ou público, instaladas neste Estado, que intentarem contra o que dispõe esta lei."

Em vista disso, o Identidade requer a "instauração do competente processo administrativo, para que a Comissão Processante Especial apure a prática de atos discriminatórios, nos termos dos arts. 4º e 5º da Lei Estadual nº 10.948/2001", sendo, a final, a entidade infratora submetida às "penalidades previstas no art. 6º" da lei mencionada.

Como é possível facilmente perceber, a importância de os grupos de defesa dos direitos das populações de LGBTs fazerem valer a legislação protetiva já existente, ainda que restrita ao âmbito administrativo, é vital.

Parte integrante do processo de transformação das mentalidades, no sentido de conscientizar a população em geral da indignidade de práticas estigmatizantes seja de quem seja, representa o trabalho de formiguinha, esse indispensável e decisivo trabalho sociopolítico, cotidiano, todo feito de pequenos gestos e atos de nosso cotidiano mas que, juntos todos, sinalizam no sentido da indispensável transformação das visões de mundo, rumo a um paradigma verdadeiramente respeitoso, fraterno, dignificante.

Por isso a atitude do grupo Identidade, materializada através do trabalho de seu Coordenador de Direitos Humanos, o Dr. Paulo Mariante, merece todo o nosso apoio e solidariedade, servindo de estímulo e exemplo para diversas outras entidades de defesa dxs LGBTs em nosso país.

Parabens Dr. Paulo Mariante!
Parabens Identidade - Grupo de Luta Pela Diversidade Sexual de Campinas/SP!







terça-feira, 13 de abril de 2010

"O Vaticano continua o mesmo"

O sumo sacerdote da igreja católica apostólica romana, pretendendo desviar o foco da verdadeira aberração que consiste o acobertamento de pedófilos no seio de uma congregação religiosa, proclama, do alto de sua iniquidade, que o "mal" é o "homossexualismo" (sic) e não o seu totalitarismo, a sua histórica perseguição aos discordantes; o seu passado de genocídios (de mulheres, índios, judeus, muçulmanos, sodomitas); a sua arrogância em legislar sobre a vida privada daqueles que não professam a sua crença, a sua contumácia em desrespeitar o princípio da laicidade.

A revista Carta Capital de 14 de abril, nas bancas, na página 12 traz o editorial de Mino Carta com o título: "O Vaticano continua o mesmo - Galoparam os séculos, mas a Igreja é, ainda e sempre, tragicamente anacrônica". Nele é transcrita a fala de Tullia Zevi, ex-presidente das comunidades judias da Itália, com 91 anos de muita lucidez: "Enfim, quem decide quem é santo?" "Por que o papa não cuida de perceber que o celibato é contra a natureza?"

E aduz o editorialista:
"De todo modo, o escândalo da pedofilia é antigo e deliberadamente ignorado, é brasa debaixo das cinzas a faiscar até menos do que tantos outros. Por exemplo, as ligações do banco vaticano com o crime organizado, a envolver lavagem de dinheiro e até assassínios. Ou as insuportáveis interferências na vida política de vários países, a começar por Itália e Espanha, onde o Estado se diz laico, mas os governos sofrem as pressões de batina e frequentemente se ajoelham, obedientes e compungidos."
Enquanto se dedica a considerar o nazismo um baluarte contra o comunismo (Pio XII), a excomungar o instrumento mais eficaz contra DSTs e inclusive o HIV e o Papiloma Vírus , que é a camisinha (Paulo VI), a silenciar o quanto pode a pedofilia de seus padres e a orquestrar uma perseguição mundial contra homossexuais (gays, lésbicas, travestis e transexuais inclusive), o Vaticano silencia sobre a fome, a miséria, a concentração das riquezas, a corrupção, a exploração do humano pelo humano.

Esqueceu, completamente esta Igreja, TODOS OS ENSINAMENTOS do Cristo que ousa dizer representar e deter, na Terra, a exclusividade da interpretação e exercício de Sua palavra. O Cristo Jesus que era exemplo vivo e cotidiano de fraternidade, coerência, Justiça, equidade, compreensão, acolhimento.

Para esta Igreja espúria, traidora e iníqua, assim como para esses políticos cínicos e irresponsáveis, dou-lhes o meu cântico indignado:

JULGA-ME, SENHOR


(Fundo Musical: Um Dia no Amazonas, de Naná Vasconcelos)


(A Defensoria Pública e ao Ministério Público)




Abre, Senhor, Tua boca, e julga!
E Faze a Justiça necessitada!


Se é verdade que seja eu o mais brutal,
o mais rude dentre todos,
então também é verdade que
não tenho entendimento,
nem sensibilidade, nem solidariedade,
nem compaixão.

Nem aprendi a lutar desesperada e veementemente
quando ao redor a ventania a tudo derrubava.

Nem aprendi a crer na honradez pelo trabalho próprio;
nem constituí minha caminhada uma estrada de fé
e esperança no humano,
transferindo o gozo do vinho, dos sorrisos,
das viagens, para depois de aberta a picada.

Se toda minha palavra é dura e escarnece a ferida,
também é verdade que, como águia no céu,
persegue o suave caminho pelo mar,
revelando os escolhos.

Se sustento a pisada
quando ao meu lado me batem o pé
é porque sustento o Teu nome – e o Meu –,
filho Teu que Sou, Centelha Tua,
a fluir e exigir-me digno de Tua Herança.


II

Se não aprendi a formosura das doces palavras,
é porque duas coisas me exigiste:

“Alonga de ti a arrogância
e a mentira”.

E assim, impondo-me observar-Te as leis,

procurei conduzir os meus e
fazer o meu caminho Teu espelho.

Se em mim não se faz ouvir
o equilíbrio da suavidade,
da meiguice codificada em signos de mercancia,
é que também, desde os tempos idos,
já não se ouve Justiça, Eqüidade, sossego.

Não, Senhor, não aprendi a sabedoria
da mesa e do vinho dos que estabeleceram
todos os contornos da aceitabilidade civilizada.

Não, Senhor, não aprendi tal sabedoria.
Mas tão só o conhecimento das
enchentes nas madrugadas,
que entra destruindo tudo, a castigar e a sucumbir
todos aqueles que não retiverem no espírito
a alma do soldado que dorme em constante vigília.

A cultura que me toca
é a legião de abandonados pelas ruas:
sem casa, sem emprego, sem escola e sem comida.

A produzir com suas mãos o bolo cozido
no fogo do abandono e da indiferença.

Lábios que zombam, bocas que segregam,
olhos que se fazem cegos...
Eis que de meus pés afloram
botas esculpidas em de barro.
O mesmo que – dizem – Tu nos fizestes.

O mesmo barro que ocultamos pressurosamente,
recobrindo-lhe onde passe,
com concreto, exclusão e betume, a sufocar
toda e qualquer semente.

III

Busquei sempre reter em mim e nos meus
o respeito às Tuas e às nossas Leis.

E amoldei os meus
- como meu pai a mim e a meus irmãos
e meu avô a meu pai e a meus tios.

E fiz erigir dentro de cada um dos meus
a altivez pelo trabalho próprio,
a dignidade pela observância das leis,
o respeito absoluto pelo que é do próximo.

Hoje me encontro a perguntar:
- Senhor, de que valeu?

De que valeu, Senhor, se no mundo
nem eu nem os meus
têm encontrado adequação?

Se seguir os ensinamentos Teus e dos antigos
é como falar numa língua esquecida e estrangeira?

Como manter os meus vivos e lúcidos,
se também aqueles que devem julgar
fazem-se insensíveis à sua responsabilidade?

Como, Senhor, convencer a esses jovens,
cujo sangue por Justiça ferve nas veias,
de que deverão permanecer a esperar
indefinidamente,
sem nunca verem-se saciados?

A fome e o frio não sabem esperar, Senhor.

Mas a miséria alheia só incomoda como opróbrio da
opulência (desavergonhada e ignóbil,
que apropria-se sem remorso do dinheiro de todos.)

Então, para silenciar a denúncia
palpável e ambulante que é,
queimemo-la.

Já que de nada vale, de nada serve, que nada é.

...De que vale a vida?! - Queimemo-la, pois.


Queimemo-la, para que depois,
uma Toga venha a branir com sua espada
estrábica e manchada que
não havia maldade; não havia intenção;
não havia malefício.

No entanto, disseste:

“Eis aqui o meu servo a quem sustenho.
Pus sobre ele o meu Espírito e ele promulgará
o Direito para os gentios. Não desanimará
nem se quebrará até que ponha na terra o Direito.”

IV

Por muito tempo estive calado, Senhor.
Permaneci em silêncio e me contive,
acreditando que não me cabia julgar as leis
e menos ainda os Homens da Lei.

E, assim, obediente,
cuidei de cumprir a minha parte.

Agora já não posso mais.
Não posso mais, Senhor.

E por isso eu grito:

Enaltecemos a Lei e fizemo-la grandiosa
pela sua observância cotidiana,
em agrado à própria Justiça.

E o que temos, Senhor?

- Um povo roubado, saqueado,
aninhado em cavernas à beira das estradas,
por sob os viadutos...

Que caminha em procissão de um lado para outro
em busca de chão, mas são tocados como presa.

E ninguém há que os livre.

No entanto reza a Tua Lei:

“O proveito da terra é para todos.”

“Boa e bela coisa é comer e beber
e gozar cada um do bem de todo o seu
trabalho, com que se fatigou debaixo do sol.”


“Ó vós, todos os que tendes sede,
vinde às águas. E os que não tendes dinheiro,
vinde. Comprai e comei. Sim, vinde, pois.
Comprai sem dinheiro e sem preço
vinho e leite.”

Onde o trabalho, Senhor?!

Onde o salário digno?,
contrapartida eqüânime do suor de nossas mãos
ou da fadiga de nossa mente?,
remuneração mantenedora da dignidade
dos meus e de todos?

Como é, pois, Senhor, possível
permanecer obediente e confiante,
vendo ao lado tanta morte,
tanta fome, tanto desamparo?

Como crer e obedecer as Leis e a Justiça,
se a mesma Lei e Justiça voltam-se contra nós,
em desagrado às Tuas palavras?
em desagrado a mais elementar de Tuas Leis?


________________

Referências:

Eclesiastes, 5:9.
Eclesiastes, 5: 18.
Isaías, 55: 1.
Provérbios: 31:8, 9. 30: 2, 7, 8.
Eclesiastes, 5: 19.
Tiago, 2: 1 a 3; 5 e 6. 4:11 e 12. 5.
Isaás, 1:6; 2:16 e 17; 42:22.

Poema oriundo de Samdhyâ - A Primavera do gerúndio e outras estações, ed. da autora, 2004.

terça-feira, 6 de abril de 2010

HOMOFOBIA: LEITURAS DE FALABELLA

À pergunta, formulada por Regina Britto, do jornal O Dia, se faria como o cantor Ricky Martin (ou seja, se assumiria a sua homossexualidade), Miguel Falabella respondeu:

“Não faria isso, porque o Brasil é muito despreparado. Somos aborígenes, ainda mais porque esse tipo de imprensa é de quinta categoria. E se você assume, passa a ser gay e deixa de ser tudo o que você realmente é”.

Sobre o que achou dessa atitude do cantor, disse Falabella:

“Achei maravilhoso. Mas acho tão fora de moda esse negócio de questionar a sexualidade dos outros. O mundo está acabando... Não tenho a menor intenção de saber a opção sexual das pessoas, só das que quero comer. Se ele teve esse tipo de necessidade é um fato. Os preconceitos sempre vão existir, porque o ser humano é mesmo intolerante!”.


À parte o terrível preconceito expresso por Falabella com relação aos nossos aborígenes (povos em geral infinitamente mais solidários, democráticos e respeitosos, inclusive com relação à diversidade sexual, do que nós) e a imprecisão histórica de atribuir o mérito pela informática a seu comerciante, ao invés de ao seu inventor - o gay ALAN TURING, autor dos trabalhos teóricos que estabeleceram os alicerces para o desenvolvimento de tudo o que temos na atualidade em termos de informática e inteligência artificial -, é, sem dúvida, desagradabilíssimo ser interpelado por um jornalista ou por qualquer outra pessoa (exceto eventuais candidatxs) a respeito de nossos interesses eróticoafetivos.

Mas, por outro lado, esse seu modo de perceber desconsidera o processo histórico: nenhuma nação "nasceu" civilizada (aqui como sinônimo de respeito aos direitos humanos).

Para hoje serem apontados como modelo de liberdade e dignidade humana, esses povos primeiro tomaram consciência da necessidade de participação, de comprometimento social e político; primeiro se deram conta de que individual e coletivamente tinham um papel transformador a exercer; de que atitudes individualistas no melhor estilo do "cada um por si" é suicida e burra.

Tambem deixa de enxergar as nuances do preconceito:

Uma coisa é não ter que se ver compelido a confessar o seu desejo (menos por respeito à própria intimidade do que por receio de passar a ser rotulado, estigmatizado, reduzido em todas as suas capacidades ao aspecto eróticoafetivo).

Outra, completamente diferente, é não poder falar com naturalidade sobre a pessoa que amamos, com a qual dividimos a vida e a cama há anos, não podendo ir com ela às confraternizações na escola ou no trabalho, tendo que declarar-nos solteiros em documentos "oficiais", impedidos de receber informações médicas, caso nosso amor adoeça ... (e outros mais de 78 direitos civis negados).

Por isso creio que essa sua fala nos traz excelente oportunidade para reflexão e gostaria mesmo que o próprio Falabella também se dedicasse a se indagar:

- Por que, em nosso país, permanece resistente a visão preconceituosa a respeito da diversidade de orientação do desejo sexual, que leva à violência, à estigmatização, impedindo que muitas pessoas, inclusive profissionais de carreiras tradicionalmente marcadas pelo respeito à diversidade humana, se vejam obrigadas a manter a sua orientação sexual na sombra, vivida em sigilo, e com receio, sem poderem desfrutar de uma expressão tão tranquila e singela quanto a da heterossexualidade?

- O que faz com que o Brasil, que vem num movimento ascendente de reconhecimento e projeção internacional, na questão do respeito à liberdade de orientação sexual, ao contrário das demais nações civilizadas permaneça com a visão preconceituosa, estigmatizante, produtora de violências, levando as pessoas - sejam anônimas, sejam públicas, a se verem obrigadas a manter a esfera de sua afetividade homoerótica à margem, nas sombras, por receio de um rótulo desqualificante?



Referências:

Agradeço a Osmar Rezende, da Libertos Comunicação (http://www.libertos.com.br/) o haver socializado esta entrevista do Falabella ao O Dia na listagls.

http://odia.terra.com.br/portal/diversaoetv/html/2010/4/miguel_falabella_esta_fora_de_moda_questionar_a_sexualidade_dos_outros_73051.html

http://comerdematula.blogspot.com/2009/09/tenho-orgulho-de-pedir-desculpas-um.html

http://carlosalexlima.blogspot.com/2010/01/cidadania-de-segunda-categoria.html

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O Governador Roberto Requião e o Câncer de Mama Masculino

Governador Roberto Requião atribui a incidência de Câncer de Mama em Homens às Paradas Gays.

O Governador Roberto Requião, do Paraná (PMDB), em evento de governo na emissora de televisão do seu estado, ontem, atribuiu às Paradas Gays a ocorrência do câncer de mama em homens.

Hoje, a repercussão de sua desastrada, inadmissível e imperdoável afirmação traz a marca da unanimidade e da mobilização: enorme quantidade de jornalistas, apresentadores de programas, de rádio e de televisão, comentadores, representantes das associações lgbts e, sobretudo, de profissionais da saúde, em uníssono fizeram questão de repudiar semelhante despautério.

Em um país onde os homens são extremamente refratários à atitudes de prevenção; onde reiteradamente a Nação vem investindo em campanhas de conscientização visando superar o renitente preconceito contra o exame de próstata (medida preventiva ao câncer), um Governador de Estado, ainda que à guisa de "ser engraçado", fazer semelhante ilação constitui uma completa irresponsabilidade, para não falar na hipótese de delito contra a saúde pública.

Primeiro, por ser uma afirmação inteiramente absurda, infundada, estituída de qualquer embasamento científico.

Segundo porque, na medida em que constrói essa associação despropositada entre homossexualidade, bissexualidade e transexualidade masculinas e câncer de mama masculino, produz três efeitos nefastos:

a) reforça o preconceito, a estigmatização, a violência contra lgbtts;

b) contribui para o fortalecimento da cultura masculina de não-prevenção, tão combatida por todos os profissionais de saúde, gestores públicos sérios e ativistas dos movimentos lgbtts;

c) e, via de consequência, esvazia todo investimento (humano e econômico) que vem sendo realizado no sentido de combater o descaso masculino por práticas de prevenção.

Terceiro, porque tal atitude está em total incoerência com a política de governo que vem sendo praticada naquele estado, por aquele governador, relativamente ao reconhecimento dos direitos humanos das populações de gays, lésbicas, travestis, bissexuais e transexuais.

É de todo lamentável constatar como é comum se buscar fazer piada, no Brasil, com coisas sérias. Sem medir as consequências, os efeitos sociais.

Uma palavra que seja, quando concorde com uma cultura irracional persistente, tende a produzir seu reforço, deitando por terra os esforços no sentido de sua superação.

Tudo o que nós não precisamos é alguém investido na função pública que, mesmo "por brincadeira", contribua de qualquer modo para que homossexuais e transexuais continuem a ser alvo de violência, ou para que os homens continuem a não adotar atitudes preventivas - seja no tocante ao câncer de mama, seja quanto ao câncer de próstata, à hipertensão, ao alcoolismo, ao sexo sem camisinha, às drogas.

As paradas lgbt são manifestações públicas de caráter político e cultural em prol do reconhecimento e respeito aos direitos de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais.

São eventos dos quais participam não apenas homossexuais, transexuais e bissexuais, mas todos aqueles comprometidos com a construção de um país verdadeiramente democrático e republicano.

Esses indivíduos lutam no Brasil há 31 (trinta e um) anos para serem equiparados a qualquer outro cidadão em termos de direitos, do mesmo modo que o são em suas obrigações - entre elas as tributárias.

O governador do Paraná bem o sabe!

Por tudo o que o governador Roberto Requião tem feito acontecer em seu estado em prol do reconhecimento dos direitos dessa parcela de seus cidadãos torna-se ainda mais difícil digerir semelhante infelicidade no manejo das palavras.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

NOTA DA ABRAGAY SOBRE ATITUDE DO GOVERNADOR DO MS ANDRÉ PICCINELLI (PMDB)

A nota abaixo, segundo divulgado, foi elaborada em 23/09/09 pela manhã e distribuída à imprensa juntamente com o ofício da ABGLT. À comunidade das listas de discussões, contudo, somente foi tornada pública em 24/09/09, às 10:18 horas. Segue o texto divulgado:


"Abragay se pronuncia em relação ao governador do MS

Desrespeitosa e inoportuna a atitude do governador André Puccinelli (PMDB), do
Mato Grosso do Sul ao referir-se ao Ministro Carlos Minc como "viado".

O Ministro Minc é um fervoroso simpatizante da luta de LGBT por direitos e cidadanias. A utilização da referência pejorativa aos homossexuais com fins ofensivos somente coloca em dúvida as intenções de um estado que acaba de elaborar um Plano Estadual de Enfrentamento das DST-AIDS entre Gays, HSH e Travestis, onde se propõe, entre outras ações, a combater a homofobia e a transfobia, como fatores de vulnerabilidade dessa população à doença.

Um homem que declara publicamente que estupraria alguém em praça pública como forma de provar sua não homossexualidade - e a homossexualidade do outro - ou como manifestação de força para se conseguir o que quer não merece estar à frente de um estado tão carente de políticas públicas que o tirem da condição de subdesenvolvimento e ofereça melhores condições de vida à sua população.

Diretoria da Associação Brasileira de Gays.

Marcos Trajano

Presidente"

GOVERNADOR DE MS, ANDRÉ PUCCINELLI, DO PMDB, PEDE DESCULPAS AO MINISTRO MINC

Foto: Rachid Waqued, do portal do Governo do Estado de Mato Grosso do Sul

"Campo Grande (MS) – Na tarde desta terça-feira (22), o governador André Puccinelli reuniu a imprensa em seu gabinete para esclarecer sobre as declarações que envolvem o ministro do Meio Ambiente Carlos Minc.

O governador, acompanhado do presidente da Federação das Indústrias de MS, Sérgio Longen, e do superintendente do Sebrae/MS, Cláudio Mendonça, apresentou pedido pessoal de desculpas ao ministro e reiterou que sua fala foi proferida em ambiente diverso ao da repercussão.

“As críticas direcionadas ao ministro do Meio Ambiente restringem-se ao ambiente técnico e político dos assuntos de interesse do Mato Grosso do Sul e também do ministério”, afirmou André aos jornalistas na nota oficial distribuída.

De acordo com a nota, “quaisquer desdobramentos alheios devem ser entendidos como inapropriados e, se gerarem ofensa ao ministro Carlos Minc, o governador André Puccinelli ratifica suas desculpas”.

Veja abaixo o texto na íntegra da nota oficial:

Nota Oficial

O Governo do Estado de Mato Grosso do Sul, tendo em vista a divulgação de declarações do governador André Puccinelli e que se referiam ao ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente, lamenta a conotação de ofensa a elas atribuídas, pois foram feitas em ambiente diverso, e, antecipando-se a qualquer outra conotação, esclarece que as criticas restringem-se ao ambiente do debate técnico e político dos assuntos que dizem respeito aos interesses de Mato Grosso do Sul e ao Ministério do Meio Ambiente.

Quaisquer outros desdobramentos devem ser entendidos como inapropriados e, na hipótese de terem gerado ofensa ao Ministro, o Governador do Estado de Mato Grosso do Sul apresenta seu pedido de desculpas."

http://www.ms.gov.br/noticias/index.php?templat=vis&site=136&id_comp=1068&id_reg=81058&voltar=home&site_reg=136&id_comp_orig=1068

MOÇÃO DE REPÚDIO CONTRA O GOVERNADOR DO MS, DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS DA CÂMARA DOS DEPUTADOS

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CÂMARA DOS DEPUTADOS
Comissão de Direitos Humanos e Minorias



Brasília, 23 de setembro de 2009

MOÇÃO DE REPÚDIO A DECLARAÇÕES DO GOVERNADOR
ANDRÉ PUCCINELLI CONTRA O MINISTRO CARLOS MINC


A Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados manifesta veemente repudio às declarações ofensivas feitas ontem (22) pelo governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli, contra o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc – a quem
ameaçou "estuprar em praça pública", em resposta a ações do ministro em defesa do meio ambiente do Pantanal.

A grosseria das afirmações de Puccinelli desrespeita a própria função pública eletiva de um governador, que agiu neste caso em absoluto descompasso com as características generosas do povo sul-matogrossense.

Além de revelar uma visão homofóbica e preconceituosa, incompatível com os preceitos básicos dos direitos humanos, Puccinelli incorreu na apologia ao crime de estupro, revelando insensibilidade às vítimas desse crime hediondo.

Ainda que tenha se “desculpado” por meio de ambígua nota oficial distribuída por sua assessoria, o governador André Puccinelli fica devedor à sociedade de ações concretas e condutas em defesa de valores e direitos humanos.

Aprovada por unanimidade em reunião ordinária de 23 de setembro de 2009.


Deputado Luiz Couto
Presidente

Câmara dos Deputados - anexo II - sala 185A - Pavimento Superior -CEP 70.160-900 - Brasília - DF - Brasil
Tel: (061) 3216-6570 - fax: (061) 3216-6580 e-mail: cdh@camara.gov.br
Home page: http://www.camara.gov.br/cdh

http://www2.camara.gov.br/comissoes/cdhm/CDHM-Mocao-Puccinelli-23-09-2009.pdf

MANIFESTO DE REPÚDIO AO GOVERNADOR DO MS E AO MINISTRO DO MEIO AMBIENTE, DO INSTITUTO ARCO ÍRIS DE FLORIANÓPOLIS

Prezadas Senhoras e Senhores,

O Instituto Arco-Íris, devidamente registrado conforme segue:

OSCIP MJ 08015.011557/2003-70 , CNPJ Nº 01.832.996/0001-64, Inscrição Municipal Nº 415.321-9, Registro Conselho Municipal de Assistência Social Nº 097/2.002, LEI DE UTILIDADE PUBLICA MUNICIPAL Nº 5.559 e LEI DE UTILIDADE PUBLICA ESTADUAL Nº 12.288. localizado a Travessa Ratcliff, 56 em Florianópolis, Estado de Santa Catarina, através de seu Membro do Conselho Fiscal, Sociólogo Roberto Luiz Warken,Msc, manifesta-se publicamente contra as declarações do Sr, Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc e o Sr. Governador do Estado do Mato Grosso do Sul, Sr. André Puccinelli (PMDB).

Os senhores Ministro e Governador acima citados vem se atacando publicamente utilizando a Orientação Sexual Homossexual em forma de adjetivação negativa, como pode ser visto em FONTE: http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI3991274-EI7896,00-Minc+diz+que+governador+que+o+atacou+e+homossexual+enrustido.html.

O conteúdo do link acima encontra-se abaixo deste texto.

Consideramos que além de ser fora do contexto de dois representantes de duas esferas importantes do Estado (Federal e Estadual) e, em nome das pessoas que os elegeram (nós, o povo) utilizam de linguagem metafórica com o intuito de degradar, humilhar, constranger,enfim, uma linguagem visivelmente homofóbica, como se a orientação sexual estivesse alinhada a condição moral ou ética, o que não é verdade.

PEDIDO

Desta forma, solicitamos ao Governo Brasileiro que providências sejam tomadas no sentido de pedir que ambos, no mínimo venham a público manifestar suas desculpas.

CONTEXTO EM SE CELEBRA TAL PEDIDO

O Brasil, admirado no exterior por conter as maiores riquezas da Terra, ou seja, o maior potencial energético e a maior selva (biosfera), também é considerado um dos países onde mais ocorrem crimes contra pessoas homossexuais. Exemplos como destas duas autoiridades podem incentivar tal comportamento e gerar violência, criar um efeito catastrófico em cascata. Talvez não estejam a par de quantas crianças homossexuais se suicidam, ou quantas destas sofrem assédio moral (bullying) ou quantas destas são vítimas de pedófilos?

Se pessoas que devem e são exemplos para a comunidade trocam agressões entre si ofendendo a uma categoria que representa mais ou menos 10% da população brasileira, ou seja: mais ou menos 19 milhões de habitantes, é porque chegamos ao limite.

Este clima gera insatisfação. Este é um governo que tem tudo para banir o preconceito, a homofobia, em especial. Aliás , onde estão as ações previstas no Brasil sem Homofobia? Onde estão os elementos da I Conferencia LGBT do mundo chamada por um presidente?

Se o Estado Brasileiro é laico, porque pessoas homossexuais não tem acesso a mais 250 Direitos previstos em nossa Constituição? Ou devemos pensar de forma lógica? Se não temos os mesmos Direitos, porque temos os mesmos Deveres?

Senhores, Ministro de Estado e Governador de Estado, é no diálogo, no bom senso e, principalmente, no Respeito Mútuo que as situações se resolvem.

Não aceitamos tal comportamento.

Atenciosamente e pela criminalização da homofobia

Roberto Luiz Warken

Sociólogo, Especialista em Educação Sexual
Mestre em Educação, Membro do Conselho do Instituto Arco-Íris (SC)
http://www.warken.floripa.com.br




Minc diz que governador que o atacou é homossexual enrustido
FONTE: http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI3991274-EI7896,00-Minc+diz+que+governador+que+o+atacou+e+homossexual+enrustido.html


O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, voltou a ironizar o governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB), e afirmou que o gestor é um "homossexual enrustido".

Na terça-feira, o governador classificou o ministro de "veado e fumador de maconha" e disse que o estupraria em praça pública caso voltasse ao Estado para participar de eventos ambientais.

"Ele deve fazer uma análise mais profunda da declaração dele sobre o estupro em praça pública e examinar e tratar com mais carinho o homossexualismo que existe dentro dele próprio e talvez aceitar isso com mais razoabilidade. O Freud (Sigmund Freud, psicanalista) explica que muitas pessoas que têm o homossexualismo enrustido tentam matar o homossexual que há dentro dele próprio", disse o ministro, descartando pretender processar Puccinelli pelas agressões. "Eu sou um defensor conhecido dos direitos dos homossexuais contra todos os preconceitos. Agora acho que o povo e os tribunais têm de julgar se ele está apto para exercer o governo do Estado."

Ainda na tarde de ontem, o próprio governador sul-matogrossense pediu desculpas pelas ofensas dirigidas ao ministro e, em nota, disse que se tratava de uma "brincadeira".

"É um ataque gratuito. Na verdade ele professou um estupro ao Pantanal e um estupro a ele próprio", afirmou Carlos Minc. "São os eleitores e naturalmente os tribunais que vão julgar se uma pessoa com esse nível de desequilíbrio está apta para exercer o governo do Estado. Esse nível para onde ele está levando o debate, mais para as páginas policiais ou para o divã de psicanalistas, deve ser julgado pelos eleitores ou pelos promotores que acharem que ele está incapacitado para exercer o governo do Estado."

Para o ministro, independentemente dos ataques feitos pelo governador, o governo continuará coibindo o plantio de cana-de-açúcar em regiões como o Pantanal e tentando evitar desequilíbrios ambientais promovidos pela agricultura sem controle.

"(O governador) É uma pessoa desequilibrada. Aliás, tem de um lado o desequilíbrio ambiental que ele provocaria se a gente deixasse destruir o Pantanal com cana-de-açúcar, e um desequilíbrio patológico também", ressaltou o ministro. "Estou acostumado a embate político com ruralistas, com governadores, mas em cima de ideias. Uma agressão como essa é difícil até imaginar como uma pessoa dessa pretende exercer o governo do Estado."

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

NOTA OFICIAL CONTRA FALA DO GOVERNADOR DO MS ANDRÉ PUCCINELLI (PMDB), DO GRUPO ARCO ÍRIS - RJ

*Nota Oficial*



O Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT repudia veementemente as declarações do Governador do Estado de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB) que atacam de maneira pouco ética o Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc (PT).
Nossa organização entende que todo o tipo de divergência político-administrativa deve ser solucionada de forma pacífica e sem ofensas de baixo calão, como ocorrido na manhã do dia 22 de setembro deste ano.

Chamar o Ministro do Meio Ambiente de “viado e fumante de maconha” e declarar que “ o estupraria em praça pública”, no mínimo deve ser considerado como quebra de decoro. A conduta homofóbica do referido governador deve ser enquadrada pelo Ministério Público nos crimes de injúria, calúnia e difamação. Carlos Minc é um Ministro de Estado e deve ser respeitado como tal.

O Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT rejeita as declarações e reivindica a retratação pública por parte do referido governador.


Gilza Rodrigues
Presidente do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT

PEDIDO DE EXPLICAÇÕES AO GOVERNADOR ANDRÉ PUCCINELLI, DO MS (PMDB), OFÍCIO DA ABGLT

"Ofício PR 478/2009 (TR/dh) Curitiba, 23 de setembro de 2009

Ao: Exmo. Sr. André Puccinelli

Governador do Mato Grosso do Sul

Senhor Governador,

Assunto: Explicações pede-se

A ABGLT - Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais - é uma entidade de abrangência nacional que congrega 220 organizações congêneres e tem como objetivo a defesa e promoção da cidadania desses segmentos da população. A ABGLT também é atuante internacionalmente e tem status consultivo junto ao Conselho Econômico e Social da Organização das Nações Unidas.

Atentos ao panorama político nacional, tomamos conhecimento dos relatos de sua fala ontem (22/08) quando o senhor teria se referido ao Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, de "Viado fumador de maconha".

Ficamos surpreendidos com essa declaração, utilizando da homossexualidade para menosprezar uma pessoa, uma vez que o senhor foi um dos apenas três governadores que prestigiaram as Conferências Estaduais LGBT em 2008, e que seu governo apoia o Centro de Referência LGBT de Campo Grande, bem como a Associação das Travestis e Transexuais do Mato Grosso do Sul.

Sabemos que na hora do nervosismo às vezes queremos agredir, mas, se sua declaração foi reproduzida fielmente pelos meios de comunicação, o senhor foi infeliz, ao utilizar-se de um termo denotando a homossexualidade como forma de menosprezar outra pessoa. Desta forma, o senhor reforçou o preconceito à homossexualidade, atitude pouco condizente com o decoro de um político do naipe do senhor.

Neste sentido, seria importante que o senhor explicasse o acontecido e deixasse claro, publicamente, que não tem preconceito contra os homossexuais.

Afinal, cabe a todos nós, sobretudo aqueles que têm responsabilidades por gerir políticas públicas, combater toda e qualquer forma de preconceito e discriminação, conforme reza o Inciso III do Artigo 3º da Constituição Federal.

Salientamos que outros parlamentares e políticos que fizeram declarações desta natureza nos últimos anos tiveram se retratarem em seguida.

Na expectativa de sua manifestação pública neste sentido, colocamo-nos à disposição pelos telefones 41 9602 8906, e despedimo-nos

Cordialmente

Toni Reis

Presidente"
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Em 30 de setembro, o presidente da ABGLT divulgou a resposta recebida do governador do Mato Grosso do Sul. Veja o ofício digitalizado: