domingo, 7 de março de 2010

Ser Mulher: Uma Construção Diária Rumo à Isonomia de Direitos e de Dignidade


"Simone de Beauvior mudou nossas vidas", diz Fernanda Montenegro (belíssima, como sempre), na capa da Revista Bravo de maio de 2009.

É verdade. Através de Beauvoir, foi possível dar impulso (ainda que tardio) ao processo de conhecimento de que os gêneros são construídos culturalmente, como já havia anunciado em 1928 e 1947 a antropóloga Margareth Mead, com base em pesquisas de campo (nos livros Adolescência, Sexo e Cultura em Samoa e Sexo e Temperamento).

A mulher não nasce, mas torna-se - disse-nos Simone em 1949, data da primeira edição do seu livro O Segundo Sexo (disponível para download).

Em outras palavras, é por meio da socialização que as pessoas aprendem, incorporam e reproduzem os atributos construídos historicamente para o masculino e o feminino.

Constituídos no seio da sociedade, são elaborados um em relação ao outro de forma assimétrica, hierárquica - o homem como o referente ordenador, o Um paradigmático em relação ao qual a mulher é construída e se constroi como o Outro.

Foi também com ela (e nesse mesmo livro) o nosso aprendizado teórico daquilo que todas nós sabemos na carne: "o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos". Em outras palavras, que é através da incorporação e da reprodução que concedemos a necessária permanência aos sistemas de valores, sem as quais eles não funcionam.

Foi, porém, pessimamente recebido pela crítica esse livro, nos informa Françoise Thébaud e Sylvie Chaperon.

Naquela época, diz Thébaud, falar sobre o corpo e a sexualidade das mulheres, principalmente sendo uma outra mulher a fazer isso era algo muito mal visto.

Foi um verdadeiro escândalo!

A reação foi tão negativa que Simone chegou a enfrentar hostilidade em locais públicos, conforme nos informa Sylvie Chaperon:

[Sua publicação] abre longa e áspera polêmica que mobiliza intelectuais de renome: François Mauriac, Julien Benda, Roger Nimier, Julien Gracq, Thierry Maulnier, Emmanuel Mounier, para citar apenas os de maior prestígio. Le Figaro, Le Monde, La Croix, revistas literárias ou filosóficas como Esprit, La Nef, Combat, Les Temps Modernes, é claro, mas também Les Lettres Françaises e La Nouvelle Critique, todas consagram algumas páginas a um debate que se tornara nacional. Uma enchente de correspondência invade a caixa de correio de Simone de Beauvoir, que também tem que enfrentar reações de hostilidade em lugares públicos. Em cartas oudiscussões, as palavras são às vezes cruas; conhecemos as de François Mauriac ao se dirigir a um colaborador dos Temps Modernes para queixar-se de ter “aprendido tudo sobre a vagina de sua patroa”.

Para Michelle Perrot, embora dotado de uma "novidade radical", passou completamente despercebido o desmonte que efetuou do sistema dos gêneros.

Apenas lá pelos idos dos anos de 1960, através das feministas estadunidenses, é que se recupera as análises efetuadas por Beauvoir e por Margareth Mead.

Artemísia Flores Espínola informa-nos ainda que Simone foi também a precurssora da crítica à racionalidade e objetividade científicas, ao apontar, no primeiro volume de O Segundo Sexo, o conteúdo ideológico das verdades científicas.

Já a crítica que Beauvoir elabora (em fins da década de 1940, ressalte-se) sobre as convicções aristotélicas a respeito o sêmem como a única “causa eficiente” na procriação, e sobre a concepção da anatomia e da fisiologia da mulher como o inverso inferior do homem (cientista e referente), que gozou de credibilidade dogmática até o século XIX, será retomada por Laqueur em 1990.


Como se vê, foram necessárias muitas décadas para que se recuperasse, investisse e consolidasse a linha investigativa que ela propunha – o exame todos os aspectos de construção das pessoas. Não apenas o biológico, mas também o cultural, psicológico, histórico, de modo a compreender por que as pessoas são constituídas e se constituem como são.

Com relação à Margareth Mead, é consensual entre os antropólogos a relevância daqueles seus estudos inaugurais para o entendimento da mutabilidade dos “papéis de gênero” - base de apoio sobre a qual se consolidou a idéia da cultura como o local de sua elaboração.

De igual forma, pesquisadores de áreas diversas reconhecem no movimento feminista e, paralelamente, na teorização feminista, a introdução da categoria do gênero para referir os processos sociohistóricos de significação da diferença entre os sexos.


Muita água passou no leito do rio da história da lutas das mulhes por dignidade e isonomia, desde esses trabalhos inaugurais. Muitas conquistas, é verdade.

Muitas permanências, também.

Embora sejam a maioria da população brasileira, ainda sofrem diariamente com a elevada prática de violência doméstica - apesar da Lei Maria da Penha ter sido promulgada em 2006, há quatro anos, portanto.

Já "virou rotina" ouvir no noticiário que algum homem atirou ou mantém sob ameaça a ex-namorada ou ex-esposa, porque "não se conforma" que esta tenha terminado a relação.

Pesquisas apontam que a cada 15 segundos, uma mulher é agredida pelo "companheiro"; das vitimadas, apenas 40% apresentam queixa-crime. 56% dos entrevistados apontam a violência contra as mulheres dentro de suas próprias casas como o problema que mais preocupa as brasileiras. Segundo eles, "a questão cultural e o alcoolismo estão por trás da violência contra a mulher". No RJ, 50% das agredidas têm menos de 18 anos. Em SP, em 2006 foram registrados três estupros a cada dia.

Numa cultura onde desde a gestação o gênero feminino é representado de maneira inferior, instrumentalizada, objetal, sobra violência para todas as gerações:

A discriminação contra a mulher começa na infância e vai até a velhice. Em alguns casos, começa até mesmo antes do nascimento, na seleção do sexo do embrião.

No caso da violência doméstica contra os idosos, a imensa maioria das vítimas são mulheres. Segundo Maria Antonia Gigliotti, aos 77 anos, presidente do Conselho Municipal do Idoso da cidade de São Paulo, isso “tem a ver com a lógica do sistema patriarcal, que considera que a mulher vale menos do que o homem, não importa a idade que ela tenha. Também conta o fator financeiro: as mulheres idosas são normalmente bem mais pobres do que os homens idosos”. Fonte: Unifem, Maria, Maria nº 0.



A diferença salarial pelo mesmo trabalho também é tema ainda não superado. Do mesmo modo que conquistar o direito de não ser tratada como caça, objeto sexual, idiota ou mercadoria.

Conquistaram o mercado de trabalho, sendo mesmo a maioria entre as aprovadas em concursos públicos, com presença marcante na magistratura e na academia. Não conseguiram todavia superar a vulnerabilidade psicossociossexual aprendida.

Não raro vemos mulheres que ocupam cargos de poder e prestígio e que conquistaram relativamente boa autonomia financeira, se submeterem a relacionamentos nocivos, sofrendo ameaças e violências cotidianas por parte de companheiros os quais ou sustentam ou lhes complementam a renda.

Embora tenham conquistado a liberdade de praticar o sexo com o advento da pílula anticoncepcional, não conquistaram paralelamente a necessária autonomia erótica, sendo ainda incapazes, em sua imensa maioria, de adotar com independência o sexo seguro:

- São alarmantes os números da contaminação das mulheres pelo HIV! Por mais que o governo dedique somas as mais vultosas em campanhas de conscientização!

Se ainda não conquistaram o direito ao pleno prazer, com inúmeras igualmente se submetendo a relacionamentos onde o gozo é apenas do parceiro, também não alcançaram o direito à livre orientação sexual:

O fato de ser lésbica torna as mulheres homossexuais ainda mais vulneráveis às diversas formas de violências cometidas contra as mulheres.

“As jovens que se descobrem lésbicas, e que vivem com seus pais, são as que mais sofrem violência. A família reprova a lesbianidade da filha e procura impor a heterossexualidade como normalização da prática sexual do indivíduo. Por serem destituídas de qualquer poder, os pais buscam sujeitar e controlar o corpo das filhas lésbicas, lançando mão de diferentes formas de violência, como os maus-tratos físicos e psicológicos. E não faltam acusações, ameaças e, inclusive, a expulsão de casa. As ocorrências de violência sempre têm o sentido de dominação: é o exercício do poder, utilizado como ferramenta de ensino, punição e controle.” Fonte: Marisa FernandesEste endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo. , “Violência contra as lésbicas”, Maria, Maria, nº 0.



O "estupro corretivo" ainda é uma prática frequente contra lésbicas, como pode ser observado recentemente, por ocasião do episódio envolvendo dois jogadores do Big Brother Brasil 10 - o Dourado e a Angélica ("Morango").

A presença de uma lésbica de personalidade assertiva desencadeou reações as mais tradicionalistas, com manifestações explícitas de machismo e lesbofobia em diversos sítios da rede, alguns contendo explícitas conclamações ao estupro corretivo.


Agora, por ocasião das comemorações pelos 100 anos do Dia Internacional da Mulher, penso que vale a pena aproveitarmos a data para refletirmos, em todos os espaços que interagimos, sobre as condições gerais da mulher brasileira - seja lésbica, bi ou heterossexual; de classe média, alta ou miserável. Jovem ou velha; negra ou mestiça. E tendo sempre por moldura aquelas descobertas ainda tão inéditas para a realidade de muitas de nós:

- O desamparo feminino é aprendido, como ó é a submissão, o colocar-se em segundo plano, a passividade, a insegurança, o receio, a baixa autoestima.

É claro que não se pode destruir séculos de aprendizado inferiorizante com cento e poucos anos de luta feminista (emprego aqui o termo feminista abarcando também os movimentos pelo direito ao voto e à educação, desencadeados no século passado).

Mas temos o dever moral para conosco mesmas e para com as gerações vindouras - de homens e mulheres - de dar seguimento diário e sem tréguas a essa batalha por formas mais dignas e respeitosas de viver e se relacionar.

- Uma luta que é de todo o gênero humano!



Para quem gosta de história, umas dicas:
Camile Claudel - livro e filme

- livros:
Maria Ruth, de Ruth Escobar
Profissão Artista: Pintoras e escultoras acadêmicas brasileiras, de Ana Paula Cavalcanti Simioni (Edusp-Fapesp)
História do Estupro, de Georges Vigarello
Anayde Beiriz, de José Joffily
Entre a história e a liberdade, de Margareth Rago

- filmes:
Anahy de las misiones, de Sérgio Silva - Europa Filmes
Lanternas Vermelhas, de Zhang Yimou - Spectra Nova
A Cor Púrpura, de Steven Spelberg - Warner Bros.
Pretérito Perfeito, de Gustavo Pizzi - Saraguina (prod.) e Pipa (distrib.)
Sou Mulher, Sou Brasileira, Sou Lésbica, de Vagner de Almeida - Prazeres e Paixões (prod.)
A Morte Inventada: Alienação Parental, de Alan Minas - Original Vídeo
Que Bom Te Ver Viva, de Lúcia Murat - Taiga Filmes
O Cárcere e a Rua, de Liliana Sulzbach -


Referências:
Revista Bravo, maio de 2009
Revista Carta Capital, 06 de dezembro de 2006
Idem, 11 de março de 2009
BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo. 1. Fatos e Mitos. São Paulo: Círculo do Livro, 1986.
ESPÍNOLA, Artemisa Flores. La Segunda Ola del Movimiento Feminista: El Surgimiento de la Teoría de Género Feminista. In: Mneme – Revista Virtual de Humanidades, n. 11, v. 5, jul./set. 2004. Dossiê Gênero. Disponível em: http://www.seol.com.br/mneme.
LAQUEUR, Thomas. Inventando o Sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.
PERROT, Michelle. Controverses autour du livre de Pierre Bourdieu La Domination Masculine. In: Travail, genre et sociétés, nº 1, avril, 1999, 201-234.
THÉBAUD, Françoise. História das Mulheres, História do Gênero e Feminismo: O Exemplo da França. In: COSTA, Cláudia de Lima e SCHMIDT, Simone Pereira. Poéticas e Políticas Feministas. Ilha de Santa Catarina: Editora Mulheres, 2004, 67-80.
http://cynthiasemiramis.org/?p=114
http://www.maismulheresnopoderbrasil.com.br/pdf/Sociedade/Aue_sobre_O_Segundo_Sexo.pdf
A imagem de Margareth Mead é de autoria de Edward Lynch e foi obtida de: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Margaret_Mead_NYWTS.jpg
A foto de Simone de Beauvoir foi obtida de: http://www2.warwick.ac.uk/fac/arts/french/pg/culturethought/modules/simone_de_beauvoir.jpg
http://www.violenciamulher.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1213&Itemid=2


2 comentários:

Rita Colaço Brasil disse...

Pra continuar pensando, ainda que doa:
- Deu na CBN agora pela manhã: enquanto que no consumo as mulheres, em uma década, chegaram ao patamar de 40% dos compradores de automóveis, em termos de participação no poder (mandatos eletivos), estamos no 114º lugar.

Pra dar uma idéia de contexto, foi igualmente informado pela emissora que no ranking mundial a Argentina está no 11ª lugar.

Ainda na CBN, a Míriam Leitão comenta sobre a terrível prática, sobretudo nos países asiáticos, de eliminarem os bebês do sexo feminino e que agora vem desencadeando raptos de moças, decorrente do desequilíbrio demográfico.

Veja em http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2010/03/08/dia-deve-ser-comemorado-mas-ainda-ha-muito-se-fazer-272512.asp

amapagu disse...

Obrigada pela "luta",estamos entrelaçadas pelo mesmo desejo!Saudações