segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O cãozinho e os homossexuais ou Imagens e palavras

Já se disse que mais vale uma imagem do que mil palavras. Já se disse e se escreveu (e pesquisou) muito sobre o poder da imagem, sobretudo em relação à escrita ou à fala.

As imagens exibidas à farta pelas televisões das cenas de tortura até à morte do cãozinho pela enfermeira chocaram o país. De imediato, campanhas de assinaturas virtuais exigiam "a punição exemplar" da enfermeira que aparece nas imagens agredindo o cãozinho. Consta que também houve mobilização pedindo alteração na legislação, de forma a aumentar a pena desse tipo de delito.


Lésbica, 16 anos, à facada. Goiás. Suspeitos: pai e irmão da namorada
Enquanto isso, gays, lésbicas, travestis, transexuais, e qualquer pessoa que seja identificada (à sua revelia) como um deles, seguem sendo trucidados no Brasil.



Heli de Lima,  gay, 44 anos: olhos furados, mão direita decepada, a barriga cortada, vísceras à mostra, AL



É que, ao que parece, nenhuma emissora de televisão julgou importante, relevante socialmente, exibir reiteradas vezes as incontáveis imagens bárbaras dos corpos de LGTTs vitimados pela homofobia nacional agora já a cada 36 horas , ou os desdobramentos das ações investigativas e punitivas da Polícia, do Ministério Público e do Judiciário.

Walberty, 16 anos, travesti. A tiros, Simões Filho, BA. 



Assim, por falta de imagens, o Parlamento, que ao longo das últimas 4 décadas vem se deixando manter dominado por forças teócratico-obscurantista-fisiológicas, afirma alto e bom som que não existe homofobia - na mais absoluta contramão do que diz a ONU, a OEA e os países mais desenvolvidos do planeta.




Encontro e Exumação do corpo do menino 14 anos, trucidado por neonazistas em São Gonçalo, RJ
Menino, 14 anos, espancado a pau, pedras, barras de ferro, enforcado com a própria  camiseta, crâneo esmagado a pedradas,corpo deixado em um terreno baldio na cidade de São Gonçalo, no Rio de Janeiro.
Sua mãe, inconformada, indaga: "Quero que me mostrem em que texto da bíblia está escrito que meu filho merecia morrer da forma com que foi assassinado”. 

Um ano após o bárbaro assassinato, ela denunciou: Minha maior dificuldade foi encontrar ajuda na própria cidade onde moro e criei meus filhos. Não teve um conselho tutelar ou comissão de direitos humanos que abrisse as portas para eu falar do caso. [...] “Eu tive que aprender a ter forças com esses três jovens querendo desqualificar meu filho. Até exame toxicológico foi solicitado pela defesa. Além de ter o filho morto, eu tenho que provar diariamente que ele não merecia o que fizeram com ele. Isso tudo é muito doloroso para a família”"









Douglas, gay, 23 anos, Morto a pedradas, traumatismo craniano, Mossoró, RN

Assim, por falta de imagens, a Presidenta Dilma segue em seu mutismo decepcionante - quando fala é para afirmar que o seu "governo não fará propaganda de opção sexual", numa ostensiva demonstração do quanto desconhece e despreza um assunto de tanta importância.


Reinaldo D., travesti "Jarro". Maceió, Estrangulado
Por falta de imagem, na Abertura da II Conferência Nacional de Políticas Públicas para LGBT, ocasião mais do que propícia para a Presidenta se retratar perante essa parcela dos cidadãos brasileiros - cidadãos que, diga-se de passagem, votoaram maciçamente nela -, Dilma preferiu aplicar os ensinamentos de Maquiavel, n'O Príncipe, e a sua abertura foi realizada pela Ministra Maria do Rosário.

Jocivaldo, travesti, 26 anos. A facadas, BA


Por falta de imagem, incontáveis vezes a Presidenta Dilma Rousseff vem demonstrando o seu profundo desprezo para com os homossexuais, as travestis e as transexuais - para desilusão de todos e todas aqueles e aquelas que acreditaram que uma mulher que havia enfrentado as torturas da ditadura militar e  decantada como de personalidade firme, de têmpera moral, não se furtaria a lutar para fazer cumprir o mandamento constitucional que proibe práticas discriminatórias, seja por qual motivo for, também em face dessa parcela da população. Em vez disso, a Presidenta Dilma segue cumprindo à risca aquilo que pactuou com os setores mais obscurantistas da política nacional (assinando, inclusive, segundo Magno Malta) e nada faz no sentido de que seja enfim aprovada a Lei Antidiscriminação, complementando e regulamentando o que diz a Constituição.


Eu faço coro ao pessoal do blog Eleições Hoje, especialmente ao All Moon, em seu texto lapidar (embora discorde da parte em que ele classifica de hipócritas as pessoas que se mobilizaram em face das imagens das torturas infligidas ao cãozinho, detalhe que eu não havia observado em minha primeira leitura e ao qual fui chamada atenção através das reflexões do Raphael Tsavkko Garcia, em texto referido mais abaixo):

Não somos cachorros, não (mas merecemos respeito)!


Também me uno às reflexões presentes no texto de Raphael Tsavkko Garcia, Quando morre um cão: A miséria humana não nos comove mais?

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

UM ESTADO LAICO COM BANCADA EVANGÉLICA

As bancadas conservadoras no Congresso Nacional nunca foram tão grandes em número e em influência quanto atualmente. A Bancada Ruralista, por exemplo, conseguiu aprovar no Senado, neste dia 6 de dezembro, o novo Código Florestal, acusado por ambientalistas de dar brechas e até mesmo incentivar o desmatamento de vegetação nativa, em prol do agronegócio (Entenda o que muda com o novo Código Florestal clicando AQUI e AQUI). Foram 59 votos a favor e 7 contra e, a partir de agora, o texto volta para a Câmara, para a apreciação das alterações feitas pelos senadores, para depois ser encaminhado para a sanção da presidenta Dilma.

Porém a bancada que mais tem conseguido projeção neste mandato talvez seja a Bancada Evangélica. Segundo dados da própria Frente Parlamentar Evangélica, nas eleições de 2010, a bancada cresceu de 46 deputados (9% do total da Casa) para 68 deputados (13,2% do total), um crescimento de mais de 50%, se comparado ao tamanho da bancada no mandato anterior. No Senado, a bancada conta atualmente com 3 representantes: Walter Pinheiro (PT-BA), Magno Malta (PR-ES) e o bispo Marcelo Crivella (PR-RJ).

Se fossem comparadas às bancadas dos partidos, a Evangélica seria a terceira maior do Congresso, atrás apenas das do PT e do PMDB, e empatada com o número de parlamentares do PSDB. A força do grupo, liderado principalmente por religiosos e representantes da Assembleia de Deus, mostrou-se já durante a campanha, quando pautaram, juntamente com os membros da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a questão da legalização do aborto na agenda dos candidatos à presidência.

A atual distribuição dos membros das bancadas por partidos é a seguinte:
A bancada evangélica tem feito o monitoramento de 368 projetos da Câmara e do Senado, a maioria referente a questões de direitos individuais, e agido não de acordo com o programa dos seus partidos, legalmente constituídos e pelos quais foram eleitos, mas sim pelas orientações religiosas a que professam.

O último caso a chamar a atenção foi o Projeto de Lei nº 1.763/2007, que prevê o pagamento de um salário mínimo durante 18 anos para mulheres vítimas de estupro, para que mantenham a gravidez e criem seus filhos. O PL criada pela bancada ainda tem outro ponto bastante polêmico: a ideia de que psicólogos de orientação cristã atendam as mulheres vítimas de estupro, na tentativa de convencê-las sobre a importância da vida e de manter a gravidez. Tudo, obviamente, pago pelo Estado. Porém o próprio Código de Ética dos profissionais de Psicologia veta a indução a “convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual”.

Desde 1940, o artigo 128 do Código Penal permite a prática do aborto em apenas dois casos: se não há outro meio de salvar a vida da gestante (aborto terapêutico), ou se a gravidez resulta de estupro e há consentimento da gestante (aborto sentimental).

A ex-Ministra da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, Nilcéa Freire, disse em entrevista ao Estadão que a proposta “é retrocesso, uma proposta sem cabimento, equivocada desde o começo. Nós apoiamos a liberdade de escolha da mulher”.

Na mesma reportagem, a advogada Samantha Buglione, do Instituto Antígona e das Jornadas Pelo Direito de Decidir, afirma que “Há uma dificuldade em compreender que o Estado democrático surge para assegurar a liberdade de crença da população. Há uma confusão no entendimento de alguns parlamentares entre direito e moral, entre religião e política pública.”
Gráfico por João Victor Moura

Outro ponto fundamental da plataforma da bancada evangélica é a questão relacionada aos direitos da comunidade LGBTT. Vários já foram os ataques da bancada. O primeiro a criar polêmica diz respeito ao Kit anti-homofobia, erroneamente chamado pela bancada de “Kit gay”. O material do Ministério da Educação seria distribuído entre escolas de ensino médio, buscando esclarecer questões a respeito da diversidade sexual e, assim, diminuir os preconceitos dentro das escolas e da sociedade. Os parlamentares da bancada evangélica, no entanto, ameaçaram não votarem mais nada até que o kit fosse recolhido e, se a presidenta Dilma aprovasse o material, iriam convocar o então ministro da Casa Civil, Antônio Palocci, para prestar depoimento sobre seu rápido enriquecimento. A “chantagem” deu resultado e a presidenta mandou suspender o kit, chamando-o de “inadequado”.

A bancada agiu da mesma forma frente ao Estatuto do Juventude, aprovado na Câmara no dia 05 de outubro. O texto prevê, entre outras coisas, o pagamento de meia-entrada para os estudantes na faixa etária de 15 a 29 anos no transporte público e em eventos artísticos, culturais e de entretenimento em todo o território nacional (As atuais leis sobre a meia-entrada são de âmbitos estaduais e municipais). O ponto atacado pela bancada evangélica, no entanto, foi o que diz respeito ao tratamento de temas relacionados à sexualidade nos conteúdos escolares. O projeto do Estatuto da Juventude só seguiu adiante, para a apreciação do Senado, após a relatora, Manuela D’Ávilla (PCdoB – RS), acrescentar ao texto um adendo dizendo que o tema seria tratado “desde que respeitado a diversidade de valores e crenças”.

Em maio deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou com unanimidade a união homoafetiva estável (para saber mais do julgamento, clique AQUI) e, em outubro, o Supremo Tribunal da Justiça (STJ) aprovou o primeiro casamento homoafetivo, abrindo precedentes para a prática seja adotada em todo o país. A Frente Parlamentar Evangélica (Associação civil de natureza não-governamental, constituída no âmbito do congresso nacional, integrada por deputados federais e senadores da República), na pessoa do seu presidente, o deputado João Campos (PSDB-GO), entrou com um pedido de inclusão na legislação brasileira de um dispositivo que impeça que igrejas sejam obrigadas a celebrar cerimônias de casamento entre homossexuais. Porém, a proposta parece infundada, visto que em nenhum momento a aprovação da união estável e do casamento homoafetivos interfere nas práticas religiosas. Em entrevista ao G1, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) afirmou que “Isso é desespero para confundir a opinião publica, para jogar união publica contra o direito civil. O direito é publico, a fé é privada. Nenhum homossexual quer casar em igreja”.

Estes são apenas alguns exemplos das medidas tomadas pela bancada evangélica na tentativa de vetar alguns direitos individuais, principalmente aqueles relacionados à liberdade sexual. Além disso, ainda se trava no campo político e na sociedade em geral uma batalha referente à aprovação da PLC 122/2006, que prevê o crime de homofobia (saiba mais clicando AQUI), projeto contra o qual a bancada já criou passeatas públicas, alegando que a aprovação vai contra o direito de liberdade religiosa.
Gráfico por João Victor Moura

Os membros do Poder Executivo, vereadores, deputados estaduais ou federais, senadores, juízes de Direito, juízes federais, desembargadores, ministros de tribunal superior e presidente têm a obrigação que exercer suas funções de acordo com os princípios fundantes do Estado; Como a Laicidade é garantida por Constituição, os representantes do poder público deveriam agir em defesa da separação do Estado das Religiões. Porém não é isso que temos observado na prática.

Pensando nisso, a procuradora em Brasília do município de São Paulo, Simone Andréa Barcelos Coutinho, defende uma reforma no código eleitoral que acabe com as bancadas católicas e evangélicas no Congresso Nacional. Para ela, é inconcebível que em um Estado Laico existam partidos que tragam em seu nome a palavra “Cristão”, por exemplo.

(Leia o artigo completo da procuradora Simone Andréa Coutinho clicando AQUI)

A medida pode parecer um tanto drástica, mas se formos analisar as falas dos atuais parlamentares que compõem a bancada evangélica, como o deputado federal Henrique Afonso (PT-AC), que disse: “O Estado deve garantir o que pensa a maioria e acredito que a maioria dos brasileiros acredita no que Deus prega, que é o direito à vida. Não posso separar o deputado do cristão”, notamos o quanto o debate é pertinente e urgente.

A consolidação do Estado Laico – garantido na nossa Constituição, mas como vimos, bastante frágil em sua prática – não é importante apenas para a comunidade LGBTT. Sua consolidação vem favorecer os praticantes de todas as religiões ou de nenhuma delas, que têm dessa forma asseguradas a sua liberdade de crença e de descrença.

Como diz a procuradora Simone Andréa Coutinho:
“O pluralismo, por si só, é incompossível com qualquer forma de união entre o Estado e qualquer religião, pois aquele significa a tolerância e o respeito à multiplicidade de consciências, de crenças, de convicções filosóficas, existenciais, políticas e éticas, em lugar de uma sociedade em que as opções da maioria são impostas a todos, travestidas de “bem comum”, “vontade do povo”, “moral e bons costumes” e outros. (…)
O Estado laico respeita e tolera, pois, a diversidade de crenças de toda sorte. Mais do que isso, atua em obediência necessária ao pluralismo de consciência, de crença, de culto ou de manifesta ausência de sentimento ou prática religiosa. Sobretudo, um Estado laico e pluralista conduz seus negócios, pratica seus atos e define o interesse público com total independência de qualquer religião, grupo ou sentimento religioso, ainda que francamente majoritário. (…)
A Constituição da Republica Federativa do Brasil determina que “ninguém será obrigado a fazer ou a deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei” (art. 5º, inc. II). A religião, assim como a tradição, a ninguém obriga.” 
UM ESTADO LAICO COM BANCADA EVANGÉLICA, pelo viés de Felipe Severo

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

PLC 122/2006: O Parlamento, o Executivo, os Direitos Humanos, o fisiologismo e o obscurantismo religioso e cultural

Um país continental, repleto de riquezas naturais, muitos minerais estratégicos,  enorme biodiversidade, clima e solo capazes de produzir duas safras ao ano, algumas espécies sendo produzidas ao longo de todo o ano, lamentavelmente ainda marcado por gravíssimos índices de analfabetismo - infantil, adulto e funcional -, baixa taxa de escolarização, péssima qualidade de ensino - escolas superiores apenas foram instituídas na Colônia no século XIX; as Ciências Sociais e a pesquisa universitária, apenas a partir dos ano trinta do século XX - e grande concentração de renda. Uma população cuja avassaladora maioria possui apenas a televisão comercial aberta e os templos religiosos como os grandes "agentes educativos".

Some-se a isto uma democracia ainda tenra, não totalmente sedimentada - vez por vez o poder civil se curvando ante ameaças vindas da caserna -, a baixa cultura de participação e compromisso sociais (o chamado capital social ou civismo) e a histórica tradição predatória, corrupta, que tende a instrumentalizar o estado e seus aparelhos em benefício de interesses particulares de grupos de poder.

O resultado é um povo facilmente manipulável - seja pelos veículos de comunicação, seja por líderes religiosos -, com baixa capacidade de exercício do senso crítico.

Isso se espelha no tipo de parlamento que esse mesmo povo é capaz de produzir. Inepto, fisiológico, mais voltado para interesses particulares do que para os grandes desafios da nação; corrompido, economica e moralmente; obscurantista, impregnado por modos de visão que remontam à Idade Média. Acima de tudo, um parlamento com parca vontade de conhecer os assuntos sobre os quais possui a competência institucional de se pronunciar, de legislar - apesar de toda a orgia de verbas que lhe é destinada. Vimos isso, entre muitos outros exemplos, aqui no Rio de Janeiro na votação da PEC 23.

Vimos mais do mesmo se repetir outra vez ontem, 08/12/2011, no Senado da República, na Comissão de Direitos Humanos, durante a sessão que tinha por objetivo votar o substitutivo da Senadora Marta Suplicy ao PLC 122/06.

As pérolas proferidas pelos Senadores Crivella e Magno Malta, afirmando que orientação sexual é escolha - algo da mesma ordem que religião, roupa, calçado etc. -; tecendo comentários que apontavam ou para o completo desconhecimento do texto do substitutivo em exame e que, segundo Marta Suplicy, teria sido elaborado em conjunto com eles ou à profunda má fé; afirmando que inexiste em nossa sociedade o móvel volitivo específico do ódio a homossexuais, travestis e transexuais (homofobia); que os assassinos e espancadores de gays, supostos gays, travestis, lésbicas e transexuais são os mesmos tipos de criminosos que agridem idosos, crianças e mendigos, o teor geral de suas falas e, acima de tudo, conduta, tudo isso reinstaura a pergunta:

- Que parlamento é este? Como é possível pessoas serem investidas de tão grave função, cujas ações, posições e decisões são capazes de interferir na vida de toda a população ou de enormes contingentes dela e, no entanto, demonstrarem tamanho desconhecimento, demonstrando um despreparo a respeito dos assuntos sobre os quais se debruçam, proferindo opiniões pessoais, fruto da mais completa e complexa ignorância e preconceito?




Como é possível um poder cuja manutenção é tão absurdamente onerosa a todos nós, mostrar-se tão absurdamente despreparado, inepto, desrespeitoso, incapaz de funcionar em mínimas bases de civilidade, de educação?

Dilma e sua contradição extrema
Por outro lado, como é possível se conceber a ideia de uma candidata ao Executivo Federal assinar um compromisso no qual declara que, eleita, jamais sancionará qualquer projeto de lei que tenha por objetivo o reconhecimento de direitos de parte da população?

- Pois foi precisamente isto que fez a Presidenta Dilma Roussef, a candidata do Partido dos Trabalhadores - que desde a sua fundação, em 1982, inscreveu em seu Programa a obrigação de defender o reconhecimento e a efetividade dos direitos humanos de gays, lésbicas, travestis e transexuais -, a candidata que lutou na resistência democrática contra a ditadura militar, foi presa e torturada, viu incontáveis companheiros serem torturados e outros tantos, mortos.

A candidata e depois Presidenta eleita de um país cujo governo ela é sucessora e continuadora e que em 2003 apresentou à ONU uma Resolução afirmando a orientação sexual e a identidade de gênero como direitos humanos.

 Em abril de 2003, a delegação brasileira junto à Comissão de Direitos Humanos da ONU apresentou uma resolução histórica - e surpreendente - que proíbe a discriminação com base na orientação sexual à esta mesma Comissão de Direitos humanos (CDH).



No entanto, a Presidenta Dilma tem se esmerado em mostrar viva determinação em honrar este compromisso assumido com o lado mais reacionário e obscurantista das religiões de matriz cristã.


Triste República! Parece que ainda vivemos nos tempos do Boca do Inferno, o grande poeta Gregório de Mattos e Guerra, que viveu na Bahia durante o século XVII.

Enquanto isso, no mundo civilizado...

Do sítio da ONU, de 09/12/2011:

   ONU condena homofobia e diz que países devem agir contra discriminação

 O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, exortou na quinta-feira (08/12) jornalistas, líderes comunitários, professores, familiares e governantes a combaterem o assédio homofóbico contra jovens e adultos. Ban discursou durante a abertura de um evento realizado em Nova York sobre a violência e a discriminação com base na orientação sexual e identidade de gênero.


Do sítio da ONU, em 17 de maio de 2011, data internacional de combate à homofobia,

No Dia Internacional contra a Homofobia e a Transfobia, ONU alerta para aumento dos crimes homofóbicos

A Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, fez um alerta nesta terça-feira (17/05) para o aumento dos crimes contra lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros, e pediu aos governos que tomem medidas para acabar com a discriminação e com o preconceito baseado na orientação sexual ou na identidade de gênero.

Dados de 2008 da violência homofóbica no Brasil, compilados pela Fundação Perseu Abramo e Rosa Luxemburgo, e publicados em 2009:

 O estudo detectou a existência do preconceito explícito, a forte influência da religião, o despreparo das famílias e da sociedade para receber o novo, a aceitação/rejeição à orientação sexual, entre outros problemas.

O Centro Latinoamericano em Sexualidade e Direitos Humanos - CLAM -, da UERJ, tem acumulado conhecimento científico sobre os números e modos da violência homofóbica. Sua biblioteca digital on line dispõe de vasto material sobre a questão da violência homofóbica e dos direitos humanos de LGBTTs que, caso os senhores senadores tivessem interesse, poderiam colocar os seus assessores a pesquisar para lhes informar - afinal, é para isso, principalmente, que nós os pagamos. Eis apenas alguns, caso suas excelências tenham algum interesse pelos direitos humanos mais do que pelo seu obscurantismo cultural:

Política, Direitos, Violência e Homossexualidade (reune dados de pesquisas realizadas em 2003, 2004, 2005 e 2006 em vários estados brasileiros, com participantes das Paradas do Orgulho LGBTT)

http://clam.tempsite.ws/bibliotecadigital/detalhes.asp?cod_dados=1187
 Violência letal contra travestis
Percepções sobre a discriminação homofóbica entre concluintes do ensino médio no Brasil entre 2004 e 2008
 http://clam.tempsite.ws/bibliotecadigital/pesquisa-alfa.asp?Pagina=1&pag=next&letra=h
 Mas sabemos bem não se tratar de falta de informação apenas, mas, ao contrário de manifesto interesse em obstaculizar o reconhecimento e a garantia dos direitos humanos de parcela da população com a qual tais parlamentares religiosos obscurantistas, fundamentalistas, se antagonizam, em razão de sua forma de desejo e afeto. Prova disso é os modos pelos quais reagiram ante a soberana e incontestável decisão da corte superior constitucional do país, o STF, quando do julgamento das duas ações que versavam sobre a união homoafetiva:

Ataques ao STF e manipulação da informação

Caso tenha interesse, confira também os textos dos marcadores a seguir: