Após postar o texto anterior, sintonizei o programa do Rolando Boldrim. Depois de contar seus causos com a graça e talento que lhe são peculiares, convidou ao palco um grupo para cantar. Era um trio, formado entre outros, segundo informou depois, pelo seu Produtor, agora investindo em competência outra. Cantaram um samba de breque do Moreira da Silva - o saudoso Kid Morengueira, de grande originalidade.
O sintoma se manifestou quando, depois dele próprio - o produtor agora cantor - contar um causo, passou a cantar uma música cujo enredo tratava da decepção de um homem que, ao conhecer uma mulher muito bonita, por ela se apaixona e se casa, ignorando a advertência de um amigo. Esta, feita sob a forma de metáfora, ligava à moça que despertara a paixão do protagonista à figura da modelo Roberta Close.
O ápice foi atingido quando o cantor chegou ao trecho da letra que contava a reação do marido durante a noite de núpcias: Ante a declaração de que, após descobrir-se enganado, agride a "mulher", o auditório explode em palmas vibrantes.
Como mencionado na postagem anterior, as manifestações de intolerância e estigmatização da diferença encontram-se presentes em todos os setores de nossa sociedade. A música popular não poderia ser exceção.
Como também foi mencionado, o que torna a violência tão arraigada é o fato de que tornou-se incorporada pelas pessoas de forma inconsciente. Como um senso comum: partilha-se da mesma noção deturpada de que é legítimo e correto humilhar, desqualificar, ridicularizar outrem, simplesmente porque diferente.
Esse sentimento de concordância, de tão profundo, corriqueiro, torna-se imperceptível à consciência crítica daqueles que o partilham. Não conseguem perceber o quanto é abjeta semelhante forma de "humor". É a chamada violência simbólica - porque se manifesta assim, "inocentemente", por meio de símbolos, de representações culturais.
Nem por isso menos cruel ou danosa. Muito ao contrário.
domingo, 28 de junho de 2009
sábado, 27 de junho de 2009
POR QUE CRIMINALIZAR A VIOLÊNCIA CONTRA HOMOSSEXUAIS?
Nesta noite, há algumas horas atrás, encontrava-me no ponto terminal do ônibus de uma linha no Centro da cidade do Rio. Havia um homem já aguardando que o coletivo abrisse as portas. De repente, ouço a voz de um jovem, como na casa dos vinte e poucos anos. Chamava a atenção para duas moças igualmente jovens que, num grupo de três, passaram pelo ponto e seguiram adiante de mãos dadas. Dizia que aquele gesto dava o que desconfiar. O homem no ponto, aparentando uns quarenta anos, fez côro ao jovem. Sim, era muito esquisito. Já as observara desde o metrô, de onde ele próprio viera. - E o pior, continuava o jovem, ambas eram bonitas! - Tenho a maior raiva dessa gente, complementou ele. - Eu também, concordou o homem. - Dá a maior vontade de tacar uma cadeira na cabeça delas, que é pra ver se aprendem a ser mulher!, desabafou o jovem. - Dá mesmo!, seguiu-lhe o homem.
Cruzar com pessoas portadoras de tais sentimentos e desejos constitui uma realidade bastante comum na vida de gays, lésbicas, travestis ou transexuais. Nesta cena presenciada, as moças não se deram conta dos desejos e sentimentos daqueles homens que concluíram suas falas afirmando que a elas estava faltando era a necessária intervenção do clássico "falo redentor", capaz de restaurar-lhes ao seu "lugar de mulher". Ao contrário do ocorrido nesta cena, porém, não raras vezes termina em morte, invariavelmente precedida de repertório o mais abjeto de sevícias.
Pudemos ter uma amostra gritante do quão é elevado o potencial de letalidade desse sentimento (que lamentavelmente encontra-se disseminado em nosso e em diversos outros países), durante a realização da Parada do Orgulho de São Paulo. Ali, vimos um rapaz ser levado à morte em razão da violência com que foi continuamente espancado. Diversos outros participantes também foram alvo de agressões. Uma BOMBA foi atirada sobre os participantes. Única e exclusivamente por serem diferentes.
O assunto, contudo, não mereceu grande destaque ou estranhamento por parte dos veículos de informação, comparativamente a outros crimes ou acontecimentos - apenas para citar dois: o caso da engenheira carioca cujo corpo ainda não foi encontrado e o do menino filho de pai estadunidense e mãe brasileira, cuja morte abriu uma disputa judicial pela sua guarda que vem gozando de vastíssima cobertura pela mídia radiofônica e televisiva.
A apuração, o acompanhamento dos desdobramentos das investigações da série de violências praticadas contra gays, lésbicas, travestis e transexuais presentes à Parada do Orgulho de São Paulo não mereceu figurar em sua pauta. Sinalizam, com isto, ser acontecimento de menor importância na escala de valores dos detentores do poder de "fazer" a notícia; não caberia, portanto, destinar-lhe espaço e tempo em sua cobertura e divulgação. Naturaliza-se, com isto, tais práticas. Imprime-se sobre elas o carimbo de "APROVADO": Funciona como uma adesão, uma concordância silenciosa.
Essa espécie de pacto vigente e operante, fruto da ausência de uma política de Estado firme e consistente que, juntamente com o educar para o respeito às diferenças - entre estas as de orientação sexual e de identidade de gênero -, imponha sanções eficazes à sua violação, toma as mais diversas formas de apresentação. Não se restringe a essas mais abertas e explícitas como as ocorridas durante a Parada do Orgulho em São Paulo. Parte integrante de uma cultura na qual as percepções relacional, interdependente e relativa encontram-se extirpadas, moldada que foi em torno do primado da visão pessoal como a única válida e legítima, que vê o Outro como mero instrumento de satisfação dos desejos próprios, simples veículo de acesso aos interesses pessoais, se manifesta de modos os mais sutis e em todos os setores da sociedade.
Pode ser encontrado em discursos forjados sobre uma deturpação no conceito de liberdade de expressão e manifestação do pensamento, em supostas manifestações de humor e até naqueles moldados sobre uma interpretação degenerativa do princípio da religiosidade - que implica, antes e acima de qualquer credo peculiar, religar, isto é, reconectar o humano com o sentido profundo e responsável de sua pertença a tudo o mais que compõe o planeta em que habitamos.
Esta cena relatada, ocorreu e foi presenciada na véspera da comemoração dos 40 anos da Rebelião de Stonewall e no ano em que se comemoram 220 anos da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, 61 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e 21 anos da promulgação de nossa "Constituição Cidadã". O que demonstra que ainda há muito o que lutar para que tenhamos um modo de nos relacionarmos efetivamente pautado no respeito e na dignidade da pessoa; no reconhecimento da inviolabilidade de seus direitos fundamentais - entre estes o direito à diferença.
No entanto, embora a gravidade da questão - que vem sento apontada por inúmeras pesquisas e estudos científicos, tanto no Brasil quanto nos países desenvolvidos - uma parcela significativa de nosso parlamento federal insiste em manter-se fiel à cultura obscurantista, intolerante e violenta, trabalhando diária e intensivamente e com recursos auferidos de nossos tributos, para a preservação desse estado de coisas.
Entendem que não há porque se sancionar as práticas homofóbicas, do mesmo modo que, no passado, as mesmas forças arcáicas e antidemocráticas lutaram vorazmente para impedir a punição à violência contra os negros e as mulheres.
Porém, do mesmo modo que conseguimos fazer serem aprovados os instrumentos jurídicos capazes de alavancar a superação de tais formas de estigmatização, também haveremos de ver este país tornar-se, em não tão remoto tempo, um lugar onde gays, lésbicas, travestis, transexuais possam viver em paz, sem medo de serem assassinados, espancados, empalados, esquartejados - simplesmente por amarem pessoas de seu mesmo sexo biológico.
- Diga NÃO À HOMOFOBIA! NÃO À INTOLERÂNCIA! NÃO À ESTIGMATIZAÇÃO!
Cruzar com pessoas portadoras de tais sentimentos e desejos constitui uma realidade bastante comum na vida de gays, lésbicas, travestis ou transexuais. Nesta cena presenciada, as moças não se deram conta dos desejos e sentimentos daqueles homens que concluíram suas falas afirmando que a elas estava faltando era a necessária intervenção do clássico "falo redentor", capaz de restaurar-lhes ao seu "lugar de mulher". Ao contrário do ocorrido nesta cena, porém, não raras vezes termina em morte, invariavelmente precedida de repertório o mais abjeto de sevícias.
Pudemos ter uma amostra gritante do quão é elevado o potencial de letalidade desse sentimento (que lamentavelmente encontra-se disseminado em nosso e em diversos outros países), durante a realização da Parada do Orgulho de São Paulo. Ali, vimos um rapaz ser levado à morte em razão da violência com que foi continuamente espancado. Diversos outros participantes também foram alvo de agressões. Uma BOMBA foi atirada sobre os participantes. Única e exclusivamente por serem diferentes.
O assunto, contudo, não mereceu grande destaque ou estranhamento por parte dos veículos de informação, comparativamente a outros crimes ou acontecimentos - apenas para citar dois: o caso da engenheira carioca cujo corpo ainda não foi encontrado e o do menino filho de pai estadunidense e mãe brasileira, cuja morte abriu uma disputa judicial pela sua guarda que vem gozando de vastíssima cobertura pela mídia radiofônica e televisiva.
A apuração, o acompanhamento dos desdobramentos das investigações da série de violências praticadas contra gays, lésbicas, travestis e transexuais presentes à Parada do Orgulho de São Paulo não mereceu figurar em sua pauta. Sinalizam, com isto, ser acontecimento de menor importância na escala de valores dos detentores do poder de "fazer" a notícia; não caberia, portanto, destinar-lhe espaço e tempo em sua cobertura e divulgação. Naturaliza-se, com isto, tais práticas. Imprime-se sobre elas o carimbo de "APROVADO": Funciona como uma adesão, uma concordância silenciosa.
Essa espécie de pacto vigente e operante, fruto da ausência de uma política de Estado firme e consistente que, juntamente com o educar para o respeito às diferenças - entre estas as de orientação sexual e de identidade de gênero -, imponha sanções eficazes à sua violação, toma as mais diversas formas de apresentação. Não se restringe a essas mais abertas e explícitas como as ocorridas durante a Parada do Orgulho em São Paulo. Parte integrante de uma cultura na qual as percepções relacional, interdependente e relativa encontram-se extirpadas, moldada que foi em torno do primado da visão pessoal como a única válida e legítima, que vê o Outro como mero instrumento de satisfação dos desejos próprios, simples veículo de acesso aos interesses pessoais, se manifesta de modos os mais sutis e em todos os setores da sociedade.
Pode ser encontrado em discursos forjados sobre uma deturpação no conceito de liberdade de expressão e manifestação do pensamento, em supostas manifestações de humor e até naqueles moldados sobre uma interpretação degenerativa do princípio da religiosidade - que implica, antes e acima de qualquer credo peculiar, religar, isto é, reconectar o humano com o sentido profundo e responsável de sua pertença a tudo o mais que compõe o planeta em que habitamos.
Esta cena relatada, ocorreu e foi presenciada na véspera da comemoração dos 40 anos da Rebelião de Stonewall e no ano em que se comemoram 220 anos da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, 61 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e 21 anos da promulgação de nossa "Constituição Cidadã". O que demonstra que ainda há muito o que lutar para que tenhamos um modo de nos relacionarmos efetivamente pautado no respeito e na dignidade da pessoa; no reconhecimento da inviolabilidade de seus direitos fundamentais - entre estes o direito à diferença.
No entanto, embora a gravidade da questão - que vem sento apontada por inúmeras pesquisas e estudos científicos, tanto no Brasil quanto nos países desenvolvidos - uma parcela significativa de nosso parlamento federal insiste em manter-se fiel à cultura obscurantista, intolerante e violenta, trabalhando diária e intensivamente e com recursos auferidos de nossos tributos, para a preservação desse estado de coisas.
Entendem que não há porque se sancionar as práticas homofóbicas, do mesmo modo que, no passado, as mesmas forças arcáicas e antidemocráticas lutaram vorazmente para impedir a punição à violência contra os negros e as mulheres.
Porém, do mesmo modo que conseguimos fazer serem aprovados os instrumentos jurídicos capazes de alavancar a superação de tais formas de estigmatização, também haveremos de ver este país tornar-se, em não tão remoto tempo, um lugar onde gays, lésbicas, travestis, transexuais possam viver em paz, sem medo de serem assassinados, espancados, empalados, esquartejados - simplesmente por amarem pessoas de seu mesmo sexo biológico.
- Diga NÃO À HOMOFOBIA! NÃO À INTOLERÂNCIA! NÃO À ESTIGMATIZAÇÃO!
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