Por que quando se trata de nossa dor, de nossos mortos e feridos, sempre pedem que falemos menos?
Não lhes repugnam tantas mortes bárbaras, tanta homofobia, mas apenas o nosso clamor por justiça!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

DEPUTADOS E SENADORES SÃO CÚMPLICES PELA MATANÇA DE TRANSEXUAIS, TRAVESTIS, GAYS E LÉSBICAS NO BRASIL

Segue a macabra contabilidade de espancamentos, mutilações, humilhações, mortes.

Camilly, a trans militante da cidade de Campinas, SP, atacada a pauladas na madrugada de domingo, tendo o rosto desfigurado pelos golpes, teve declarada a sua morte cerebral, ontem, pelos médicos do Hospital Mário Gatti.

O criminoso, Roberto Rubens de Macedo, como sempre, alegou que ela tentara lhe forçar à prática de sexo - como se fosse possível!

Toda a militância de Campinas e São Paulo está indignada e pesarosa por mais este crime, praticado com a conivência por omissão dos senhores parlamentares federais, principalmente aqueles que professam a religião da intolerância, discriminação e segregação de quem é diferente deles.

No blog do Deco Ribeiro há um vídeo de Camilly, falando sobre a experiência de ser travesti.

Segundo os dados levantados pelo antropólogo Luís Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB), e complementados pelo jornalista Deco Ribeiro, este ano de 2010, este é o

11º homicídio LGBT em São Paulo
a 38ª trans assassinada (33% de 112 mortes catalogadas)

São Paulo fica, assim, empatado com o Rio de Janeiro, com 11 mortes, ocupando ambos o 2º lugar nacional, atrás somente da Bahia, com 12.

Até o presente momento (desgraçadamente).
É preciso sempre destacar que tais números são subnotificados, dado que muitos não chegam até o conhecimento da imprensa, outros chegam, mas de forma a que não seja possível identificar o traço homofóbico. Outros, ainda, não chegam à contabilização que vem sendo realizada pelo antropólogo bahiano.
Graças à omissão e incúria criminosa de deputados federais e senadores, que insistem em misturar questões de crença religiosa e assuntos da vida civil, republicana, democrática.

Senhoras e senhores representantes do povo: vossas excelências ocupam um cargo de representação democrática, republicana; não estão a serviço de suas igrejas, para reimplantar um estado religioso.

Assuntos de crença religiosa devem ser circunscritos ao âmbito de suas igrejas, não em um parlamento republicano e democrático.

Misturar religião com a vida civil de uma nação tradicionalmente múltipla, diversa, formada por integrantes de todos os credos, etnias e culturas não é expressão democrática, mas tentativa de enfraquecer a laicidade do Estado republicano, conquistado a duras penas e ainda não inteiramente observado.

O nome do vosso Deus, que é amor, fraternidade, compreensão, não pode continuar a ser aviltado como vem fazendo vossas excelências.

Essas mortes, humilhações, dores, sofrimentos, haverão de lhes ser cobradas no Juízo Final!

***
Eis a carta de Loren Beauty, do E-Jovem e da Escola Jovem LGBT, de Campinas, em memória de Camilly:

Camily, Camily...

Ainda estávamos nos acostumando com seu novo nome, quando a vida nos prega esta peça... Sim, porque todo mundo a conhecia simplesmente como Cotonete, lembra? De quando você começou a se montar, magriiinha, parecia um cotonete mesmo (rsrs). Mas o sorrisão já te deixava linda como Cotonete, e mais ainda quando você se descobriu travesti e adotou Camily.

Bicha, acho que você era a única travesti de Campinas que era unanimidade. TODO MUNDO gostava de você. E tinha como não gostar de uma pessoa tão boa, que não fazia mal a um mosquito..?

Estou indignada e muito puta com o que aconteceu. E mais puta ainda com as injustiças que você sofreu mesmo depois de atacada. Injustiça dos policias que liberaram o assassino, mesmo ele tendo sido pego em flagrante tentando jogar você, desacordada, numa valeta.

Injustiça daquele projeto de jornal que escreveu uma matéria absurda sobre você, te chamando de homem o tempo todo e não questionando a versão mentirosa do assassino.

Injustiça dessa sociedade homofóbica que te empurrou para a marginalidade como faz diariamente com tantos meninos e meninas trans e depois os criticam quando são mortos, como borboletas, em situações de extrema vulnerabilidade e degradação. Você foi a 38ª trans assassinada este ano no Brasil. A 112ª LGBT. A 9ª LGBT assassinada este ano no Estado de São Paulo, que ocupa a 3ª colocação em números de mortes (só perde para a Bahia e pro Rio de Janeiro).

E o pior, Camily, é ficar aqui, com este sentimento de que não podemos fazer nada.

Ainda bem que podemos, sim. Podemos resgatar um pouco da justiça que você não teve. É o mínimo que acho digno. Eu como militante, drag queen e presidente de uma instituição, prometo que vou atrás disso com nossos colegas militantes e não vou sossegar até esse criminoso estar atrás das grades.

E não vou sossegar até que aquela área degrada do entorno da velha rodoviária seja revitalizada, para que a violência não nos ameace a todos que circulam na região. Como você, naquela noite fatídica.

Pode deixar que vamos olhar pela sua mãe. E o que a sua família precisar, estarei aqui.

Adeus, minha amiga Camily. Descanse em paz porque aqui nós vamos lutar para que esse crime não fique impune.

Lohren Beuty

***

Ainda ontem foi divulgada uma Nota Oficial da Subsecretaria de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos da Secretaria Direitos Humanos da Presidência da República sobre a contumácia da violência praticada no Brasil contra travestis, transexuais, gays, lésbicas. O Blog do Deco Ribeiro publicou. Reproduzo aqui:

PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

Secretaria de Direitos Humanos
Subsecretaria Nacional de Promoção de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos

NOTA PÚBLICA
Sobre a violência contra as travestis e transexuais no Brasil


A Subsecretaria de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos da Secretaria Direitos Humanos da Presidência da República vem publicamente reafirmar seu compromisso no combate à violência e discriminação contra a população de travestis e transexuais do Brasil. Esses atos são conhecidos como transfobia.

Vítima desse tipo de violência, a jovem Camille Gerin, de 25 anos, foi agredida brutalmente a pauladas e morreu na tarde nesta terça-feira, em Campinas (SP). No estado de Mato Grosso, somente nos últimos trinta dias, oito travestis sofreram agressões físicas, entre elas a militante LGBT Lilith Prado.

Os crimes de ódio motivados pelo preconceito e discriminação com base na identidade de gênero são freqüentes e representam grave violação aos Direitos Humanos. Tal violência não tem justificativa nem é compatível com a democracia e a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

Esta Subsecretaria comprometida em acompanhar a apuração destes casos para que haja, nos termos e nos limites da lei, a efetiva responsabilização criminal de todos os envolvidos.


Brasília, 27 de julho de 2010


Lena Peres
Subsecretária Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos


(3798)

terça-feira, 27 de julho de 2010

OS ESPANCAMENTOS E ASSASSINATOS CONTINUAM

Amanhece o dia e já vem notícia ruim outra vez: A trans Camille foi agredida com pauladas na cabeça. Encontra-se desfigurada, em coma, no Hospital Mário Gatti, em Campinas, São Paulo.

A informação foi passada ontem à noite (26/07), por Janaína Lima. Segundo seu relato, o agressor foi preso em flagrante no momento em que tentava ocultar o corpo de Camille, pensando que ela já estivesse morta.

À polícia, teria apresentado a alegação de sempre: a vítima tentou obrigá-lo a fazer um programa e ele, "em legítima defesa" (???) lhe retirou as roupas, já que Camille foi encontrada apenas de calcinha.

No mesmo dia, mas pela manhã, o antropólogo e pesquisador Luís Mott denunciava que no domingo, em Alagoas, por volta das 23 horas uma travesti, de nome Monalisa, com 23 anos, foi alvo de cinco projéteis de arma de fogo, após discussão com o agressor, José Cláudio da Silva, de 37 anos.

O acusado foi preso em flagrande portando um revólver calibre 38 e autuado como incurso nos crimes de tentativa de homicídio e porte ilegal de arma. A vítima foi socorrida, sendo levada para o Hospital Geral do Estado.

Também no domingo foi publicado no jornal "Correio Popular", de Campinas, matéria denunciando práticas de homofobia nas relações de trabalho. A matéria é assinada por Fábio Gallacci, da agência Anhanguera, e foi socializada pelo advogado Paulo Mariante.

Conforme o texto veiculado no jornal, é cada vez maior o número de ações trabalhistas no Tribunal Regional do Trabalho, TRT, da 15ª Região - Campinas - denunciando práticas de discriminação motivadas por orientação homossexual, real ou suposta, e exigindo a competente indenização por assédio moral.

O Ministério Público do Trabalho em Campinas também já registrou, este ano, dois casos do mesmo tipo de discriminação.

Tais denúncias são importantes, na medida em que rompem com o silêncio cúmplice que fortalece o agressor, por conta do receio da vítima.

Sem dúvida que isso apenas vem sendo possível em razão da visibilidade que a questão dos direitos sexuais - aí incluídos os direitos à orientação sexual e à identidade de gênero - vem alcançando, decorrente das ações das militâncias nos movimentos LGBT.

No entanto, aparentemente na mesma proporção em que conquistam visibilidade e se mobilizam exigindo o respeito à sua dignidade pessoal e a efetiva isonomia de direitos frente aos heterossexuais, vê-se aumentando o número de denúncias de crimes praticados contra travestis, transexuais, gays, lésbicas em nosso país.

Dando seguimento ao "balanço" da semana, no domingo 25, o mesmo Mott socializa a notícia de assassinato de um homossexual de 43 anos em Goiás, desaparecido desde o dia 10 de julho. A última vez que fora visto com vida, foi na Parada Gay de Caldas Novas, nesse dia 10. No dia 12, a polícia encontrara o seu corpo sem vida, vítima de estrangulamento. Trata-se do Guia de Turismo César Augusto Hormande. Ele e seu agressor se conheceram e combinaram um programa na Parada. Saíram do evento, compraram algumas pedras de crack e seguiram para um matagal, onde houve o crime. O agressor fugiu com o carro da vítima e cerca de R$ 500,00 que estava em sua carteira. A fonte da notícia foi o sítio da Polícia Militar de Goiás.

Sobre o caso da lésbica de Teresópolis, RJ, que foi assassinada com golpes de taco de sinuca em um bar próximo à sua residência, sem que ninguém esboçasse qualquer reação impeditiva, até o dia 23/07, data da última informação veiculada, não se dispunha de informações da SuperDir (governo do estado do RJ) sobre a apuração do caso. Segundo divulgado, o senhor Superintendente, Cláudio Nascimento, se encontrava em viagem. Nenhuma outra autoridade da mesma Superintendência divulgara nenhuma nota sobre o encaminhamento das investigações.

Em 23/07, o professor Mott divulgava a relação de assassinatos - somente assassinatos - praticados em 2010, depois de, uma vez mais, esclarecer que tal quantificação é de obrigação do Estado e que os dados de que dispõe são apenas aqueles veiculados na imprensa:

Segue a lista do GGB, 111 assassinatos em 2010. Faltam Acre, Amapá e Roraima, favor grupos destes estados enviar informação. E os demais estados, favor conferir se estão de acordo com tais números. Se não, divulgar a lista atualizada. Fora os que estão no purgatório, esperando confirmação.

Assassinato de LGBT no Brasil, até 23/7/2010

  1. BA

12

  1. RJ

11

  1. AL

11

  1. SP

8

  1. PR

8

  1. PE

7

  1. PB

6

  1. MG

6

  1. ES

5

  1. PA

5

  1. RO

4

  1. MA

4

  1. GO

3

  1. PI

3

  1. SE

3

  1. RS

3

  1. TO

2

  1. MS

2

  1. DF

2

  1. AM

2

  1. CE

1

  1. MT

1

  1. SC

1

  1. RN

1

TOTAL

111

GAYS 67 60%

TRANS 37 33%

LESBICAS 7 0,6%


Até quando seguiremos nessa contabilidade mórbida? Até quando seguiremos enterrando pessoas que apenas buscavam viver, ser respeitadas em sua singularidade?

Até quando a cumplicidade do Estado, em suas múltiplas instituições - Câmara de Deputados e Senado; Executivo Federal...?

OMISSÃO TAMBEM É CRIME!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

A BALELA DA VULGARIZAÇÃO DOS PLEBISCITOS PARA QUESTÕES CONTROVERSAS

Assisti ao 3 a 1 da TV Brasil (a antiga TV E, do RJ) com a candidata Marina Silva. A rádio Nacional AM retransmitiu.

Me impressionou o fato de Marina propor plebiscito para todos os temas que lhe parecem "espinhosos" - onde se vê confrontada por um lado pelas suas convicções religiosas, por outro, pelos princípios que regem o estado republicano e democrático: a laicidade (separação absoluta entre as convicções religiosas e os assuntos da vida civil), o respeito aos direitos das parcelas minoritárias da sociedade, o direito à liberdade pessoal (que jamais significa obrigatoriedade geral).

A sua alternativa às perguntas sobre a sua opinião a respeito do direito ao aborto e à descriminalização da maconha foi a de realização do plebiscito.

Não ouvi nenhuma pergunta a respeito do direito de homossexuais, transexuais, intersexuais, travestis ao reconhecimento de suas famílias. - Pode ter acontecido de ter sido formulada e eu não ter escutado. Caso tenha sido, não duvido de que sua resposta possa tambem ter sido a de um plebiscito.

Não é de hoje vemos esse tipo de estratégia por parte de políticos religiosos. Na tentativa de fazer valer os seus entendimentos (construídos a partir de sua crença religiosa) a respeito de algum tema da vida civil, lançam a ideia de que se realize um plebiscito, certos de que por meio da consulta popular - certamente objeto de manipulação da informação, como vimos no caso do projeto de desarmamento - conseguirão impedir os reclamos dos setores mais progressistas pela efetiva observância da laicidade e do respeito à livre determinação individual e dos direitos das minorias.

Outro estratagema corriqueiro é o uso de "pesquisas de opinião". A torto e à direito somos invadidos com tais estratégias, aliadas aos mecanismos de participação de leitores e telespectadores.

Vez por vez recebemos notícia de alguma nova "pesquisa" ou "consulta" - praticada inclusive pelo Congresso Nacional, por meio de sua página virtual.

A partir daí inicia-se uma verdadeira guerra, com setores pró e contra o tema em questão se mobilizando, acionando suas redes virtuais, com o fim de que se contabilize a sua opinião como sendo a opinião majoritária.

Partem do pressuposto de que toda e qualquer opinião, pelo simples fato de ser majoritária, deve ser observada. Tomam esse "majoritário" como algo da ordem inexorável, imutável.

Isso é uma balela.

Para dar um exemplo bem recente. O projeto de lei do Executivo Federal que proibe castigos físicos (tapas, beliscões , surras etc) em crianças foi enviado ao Congresso Nacional para aprovação, apesar de ter mais do que 50% da população brasileira contrária à mesma, segundo o Datafolha.

"Ao todo, 72% dos brasileiros sofreram algum tipo de castigo físico - 16% deles disseram que costumavam apanhar sempre. A pesquisa mostra, ainda, que as mães costumam bater mais nos filhos do que os país: 69% contra 44%. O levantamento ouviu 10.905 pessoas entre os dias 20 e 22 de julho", diz a revista Veja.


O projeto visa alterar o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), em seu artigo 18, definindo o que seja "castigo corporal": "ação de natureza disciplinar ou punitiva com o uso da força física que resulte em dor ou lesão à criança ou adolescente".

Segundo o Presidente Lula:
"Vão dizer, ‘estão querendo impedir que a mãe pegue uma chinelinha havaiana e dê um tapinha na criança’, ninguém quer proibir a mãe de ser mãe, queremos apenas dizer: é possível fazer as coisas de forma diferenciada”.


Os especialistas e demais progressistas que o defendem, afirmam que é preciso superar a cultura da violência, incrustada em nosso país desde o advento da colonização.

Segundo o ministro Vannuchi, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República - SDH/PR, "a criança quando apanha passa a entender que bater é um ato normal e reproduz o ato na escola e, mais tarde, na vida adulta."

Ainda segundo Vannuchi, “O Projeto atende a uma demanda da sociedade civil vinculada à defesa dos direitos humanos, vinculada a defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes. E atende às recomendações das Nações Unidas e às recomendações da Organização dos Estados Americanos”.


A Suécia foi a primeira a adotar semelhante proibição, em 1979, seguida da "Áustria, Dinamarca, Noruega e Alemanha. Atualmente, 25 países já têm legislação para coibir essa prática.

Na América do Sul, apenas o Uruguai e a Venezuela adotaram lei semelhante.(www.obscriancaeadolescente.org.br)."


O UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância -
parabeniza a iniciativa do governo federal em enviar para debate no Congresso Nacional o projeto de lei sobre castigos corporais e "tratamento cruel ou degradante" contra crianças e adolescentes, assinado [em 14 de julho]


O UNICEF deseja que "a percepção de que castigos corporais contra crianças e adolescentes sejam educativos desapareça das famílias brasileiras e dê lugar à cultura do diálogo, do carinho, dos bons exemplos e do direito de cada criança a crescer sem violência. Bater em uma criança é agressão e um atentado ao desenvolvimento físico e psicológico pleno e saudável."

Segundo ainda o Fundo, "se aprovada, o Brasil será o 26º país a adotar uma lei contra o castigo corporal de crianças."


Ou seja, há uma flagrante divergência entre o entendimento das Nações Unidas e o dos países mais democráticos e os pontos de vista da maioria da população brasileira.


Outra balela comumente verificada nos temas controversos diz respeito à confusão entre faculdade e obrigatoriedade.

Por exemplo: A discussão sobre o aborto é toda travada a partir do pressuposto implícito de que a faculdade (autorização legal) de proceder ao abortamento implicaria necessariamente em uma obrigação para todas as mulheres, inclusive àquelas cujas convicções religiosas são contrárias a essa prática.

No mesmo caminho seguem as discussões sobre o reconhecimento das famílias homossexuais, travestis, transexuais e intersexual.

As pessoas que professam religiões que apenas reconhecem o caráter familiar às uniões entre homem e mulher (mesmo aquelas fundadas em interesses financeiros e hereditários e aquelas contumazes em práticas de violências física, psicológica e sexual) entendem legítimo estender esse seu entendimento - peculiar, específico de certas religiosidades - a toda a população brasileira, tradicionalmente composta por elementos de todos os credos religiosos.


Semelhantes práticas tem por objetivo promover a confusão e não o esclarecimento. Buscam, por meio da manipulação da informação, promover a opinião desejada à categoria de "opinião majoritária" ou autorizada.

Manipulando as informações, induzem os leitores/ouvintes ao entendimento de que apenas devem ser observados os direitos "da maioria".

"Esquecem" que os direitos das minorias devem ser respeitados em todas as democracias.

"Esquecem", igualmente, que os projetos tendentes à descriminalização do aborto e aqueles objetivando o reconhecimento das famílias não heterossexuais não afetam a religiosidade daqueles que detem entendimento contrário, na medida em que não são obrigatórios:

@s adept@s das religiosidades que censuram a prática do aborto e recusam o reconhecimento das famílias não heterossexuais (reconhecendo, todavia, aquelas fundadas no interesse econômico, na dependência, no parasitismo, na subserviência, no abuso sexual e na violência física e psíquica) continuarão tendo o direito de não praticarem o abortamento e de não darem vasão aos seus desejos homo, trans e intexuais.

O que não pode é a convicção religiosa de alguns - ainda que a "maioria" - sobrepujar o direito inalienável à autodeterminação de outr@s.


No entanto, essas são verdades que não interessam sejam divulgadas por certos setores da sociedade brasileira - comprometidos com a permanência da cultura autoritária - .

(3723)

Referências:
http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/brasileiros-sao-contra-lei-que-proibe-palmadas

http://www.douradosagora.com.br/noticias/brasil/projeto-de-lei-contra-castigos-corporais-marca-aniversario-do-estatuto

http://www.unicef.org/brazil/pt/media_18377.htm

domingo, 18 de julho de 2010

Não Chore por Nós, Argentina!

A semana acabou e, com ela, a autoestima de setores da militância LGBT nacional. Se por um lado pareceu generalizada a alegria e o entusiasmo para com a população LGBT argentina e sua recente vitória, conquistando o direito ao reconhecimento jurídico para as suas famílias e o direito à adoção, por outro não foram poucas as manifestações de descontentamento com a política brasileira.

Em meio a alegria com a conquista de nossos hermanos, o desalento com a própria realidade: o Brasil, país da "maior parada gay do mundo"; do "primeiro presidente a convocar uma conferência nacional para discutir políticas públicas pala LGBTs"; o primeiro país a propor na ONU uma resolução contra a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero e cuja cidade mais conhecida internacionalmente fora distinguida com uma votação internacional que lhe concedeu o título de "Melhor Destino Gay Mundial", não possui legislação que assegure a isonomia entre as famílias homoafetivas (& transexuais) e as heterossexuais, além de exibir números vergonhosos de práticas homofóbicas (embora totalmente subnotificados), inclusive por parte de agentes do Estado - notadamente por integrantes das forças policiais.

Dentre os motivos apresentados para tão pífio status em termos de cidadania que homossexuais, travestis, lésbicas e transexuais usufruem no Brasil, houve até quem o atribuísse à decisão da militância hegemônica em defender o PL 122.

Eu tambem me alio àquel@s que manifestaram seus cumprimentos a@s militantes argentinos. Mas não vejo como o esforço realizado pela militância hegemônica brasileira em prol do projeto de lei antidiscriminação (que apenas visa regulamentar dispositivo constitucional que expressamente proibe práticas discriminatórias - seja por qual motivo for: credo religioso, raça/etnia, origem, posição, sexo, sexualidade, gênero e seus estilos, orientação sexual, geração etc.) possa ter de algum modo influenciado o nosso parlamento federal em persistir na recusa de proceder ao reconhecimento do caráter familiar das conjugalidades que não seguem o modelo heterossexual (homoafetivas e transafetivas).

De meu ponto de vista, os motivos pelos quais @s cidad@s LGBTs brasileiros até os dias de hoje não terem conseguido conquistar a isonomia jurídica frente @s cidad@s heterossexuais tem mais relação com as características de nossa sociedade, tradicionalmente pobre em práticas cívicas (participação política, comprometimento social) e tênue quanto a observância efetiva dos princípios republicanos.

Visões de mundo herdadas de nosso passado aristocrático ainda são muito presentes em nossas práticas sociais, trabalhistas e políticas, enquanto que a efetiva separação entre religião e Estado não chegamos a conquistar plenamente. Esse nosso modelo cultural tem se mostrado de parca produção do chamado capital social (participação e comprometimento cívico, coletivo).

Aliam-se à nossa historicamente baixa consciência e participação política, o acirramento da individualização verificado no processo de globalização econômica e o avanço metastático das religiões neopentecostais, muito favorecido pelas sucessivas crises econômicas vivenciadas no Brasil (anos 70, 80 e 90), quando o número de postos de trabalho se reduziu de forma drástica, levando legiões às ruas, à miséria, à depressão, ao desespero e desesperança.

Tais fatores influenciaram no fato de que, no processo de redemocratização política, ao invés de produzirmos um sustentável avanço no sentido da consolidação das conquistas fixadas na Constituição Federal de 1988, as sucessivas legislaturas tem se caracterizado por apresentarem número excessivo de candidatos eleitos e reeleitos, cujas práticas são norteadas pelo fisiologismo, nepotismo, uso privado da coisa pública, confusão entre Estado e Religião, relações clientelísticas, defesa de princípios obscurantistas, reacionários (Ver, por exemplo, João Antonio Mascarenhas, A Tríplice Conexão - Machismo, Conservadorismo Político e Falso Moralismo e Lúcio Vaz, A Ética da Malandragem - No Submundo do Congresso Nacional).

Embora isso, as lideranças hegemônicas dos movimentos LGBTs não se prepararam adequadamente para conduzir a disputa simbólica nos campos social e normativo (parlamentos), permitindo que seus principais opositores - os parlamentares fundamentalistas - pautassem a discussão, conseguindo que as lideranças LGBTs ficassem reféns de seus argumentos religiosos, quando o que se discute é da exclusiva esfera civil.

Tendo se deixado levar e permanecer no interior da arena da religiosidade, perderam tempo, energia e potencial de convencimento discutindo argumentos atinentes à esfera dos credos religiosos, mas totalmente inadmissíveis em um Estado Laico e num sistema republicano.

Incapazes de operar com eficiência os meandros da disputa pelos sentidos discursivos; de elaborar uma estratégia ampla e inclusiva, e submetê-la a distintos testes, procedendo sistematicamente à sua correção; de engendrar substancial ampliação de sua base orgânica, deixaram-se mover ao sabor dos acontecimentos, reagindo no momento a momento, não raro de forma divisionista, vertical, elitista, pouco gregária e nãoacessível.


Esses são, em linhas muito superficiais, os fatores que, em minha opinião, tem gerado o garroteamento das ações políticas empreendidas pelas lideranças hegemônicas LGBTs junto ao parlamento federal - e não o investimento de esforços no sentido da aprovação da lei antidiscriminação (PL 122).

Tomar a consequência como causa - a derrota no PL 122 -, continuar investindo em visões de agendas antagonistas e monotemáticas (ou lei antidiscriminação ou reconhecimento do caráter familiar das conjugalidades homo e transafetivas), recusar-se a promover uma radical ampliação das bases de apoiamento e de meios informacionais, para mim, significa persistir no equívoco.

E, pior de tudo, significa apostar na fratura interna (entre aquel@s que estão mais comprometid@s com a luta em prol da legislação antidiscriminação e aquel@s que se mobilizam no sentido do reconhecimento das famílias homo e transafetivas).

Talvez essa recente conquista (completa e totalmente merecida) d@s LGBTs argentin@s contribua para uma avaliação em profundidade a respeito dos interesses e posições da agenda dos movimentos LGBTs nacionais, bem como de suas ações e métodos. De preferência, de forma bastante ampliada.

A história agradecerá.

Enquanto isso, resta àquel@s que sabem fazer a hora, seguir investindo na ampliação dos casos de reconhecimento, pela via do Judiciário, ainda que de forma casuística e à mercê do entendimento pessoal do juízo ou da corte cujo caso concreto foi submetido, até que o STF venha a julgar a ADPF 132.




(3633)