sexta-feira, 8 de julho de 2011

Mais de 50% de analfabetos funcionais: Que futuro o Brasil está construindo para si?

Trago para cá parte do texto de Geraldo Galindo, publicado no Vermelho.org.br em 07/07/2011. O sítio informa que Galindo é dirigente estadual do PCdoB/BA. Talvez seja importante ressaltar que o fato de transcrever parte de seu artigo não significa que eu concorde com todas as opiniões de Galindo - a quem sequer conheço -, de seu partido ou mesmo do sítio onde foi originalmente publicado.

Meu objetivo é fomentar a reflexão, a discussão. Como brasileira, preocupa-me demasiado tanto o conservadorismo obscurantista demonstrado pela população de meu país quanto o nível de sua capacidade para a construção do pensamento crítico.


Habitamos um país de dimensões continentais, dotado de recursos estratégicos (minérios, água, clima, solo, biodiversidade, criatividade, inventividade, empreendedorismo).

Nos últimos anos, o Brasil vem conquistando ascensão econômica e política no concerto das nações, com propostas políticas democráticas, solidárias e cooperativas, por um lado - dando cumprimento aos princípios firmados em sua Constituição.

Por outro, esse mesmo país se vê corroído por dentro por setores predatórios, suicidas, que apenas veem o aspecto imediatista e individual de suas ânsias por acumulação de capitais e bens, descomprometidos com a coletividade, com o projeto de país constitucionalmente delineado, insensíveis com as consequências de suas ações até mesmo para a viabilidade de suas futuras gerações - seus filhos, netos, bisnetos.


Em meio a essas duas grandes forças, um contexto histórico marcado por relações autoritárias, clientelares, arbitrárias, manipuladoras, elitistas, atravessado por um ranço conservador - filho do autoritarismo, do pensamento único, dos baixos índices de aproveitamento escolar e formação cultural -, que resiste aos princípios democráticos e republicanos o quanto pode, retroalimentado pela força eficaz de sua naturalização invisibilizante, assimilatória e reprodutora.


Por força daquelas características de nossas elites políticas e econômicas acima descritas, associadas ao contexto global marcado pelo império do lucro e da espoliação, o grande lastro dessa grande Nação continental - a população -, se vê condenada à indigência intelectual, ostentando o infamante, imoral e criminoso índice de mais de 50% de analfabetos funcionais - pessoas que, embora tenham passado vários anos nos bancos escolares, sendo promovidas de série a série, saem das instituições de ensino incapazes de compreender o conteúdo de um texto de três linhas que seja.

Esse crime de lesa-humanidade vem sendo praticado contra nossa população já há algumas décadas. O marco inicial pode ser localizado no processo de destruição da qualidade do ensino público, desencadeado pelo regime militar com a supressão das disciplinas reflexivas e a instituição da "pedagogia das cruzinhas". Ali se condicionava o alunado a não exercitar a sua mente, mas apenas marcar uma das várias opções presentes nos testes de verificação de aprendizagem e provas de concursos de seleção (as múltiplas escolhas de tenebrosa memória).

O saldo do aprofundamento no processo de destruição do ensino público de qualidade (o grande indutor na formação da capacidade crítica no seio da população) que se verificou mesmo após a redemocratização, pode ser sentido através dos traços característicos das maiorias presentes em sucessivas legislaturas, parlamentos e executivos afora por esse imenso país, bem como dos interesses patrocinados.

A pergunta que essa realidade no impõe como urgente e inadiável é:


Em um país com as características do nosso, portador dessa chaga educacional, onde os salários e as condições de trabalho dos professores de nível fundamental e médio do sistema público são igualmente imorais, que futuro está construíndo para si e para o seu povo?


Por isso a luta pela aplicação de 10% do PIB (Produto Interno Bruto) na educação pública; por isso a luta pelo o acesso à banda larga enquanto direito fundamental são política e estrategicamente importantes.

Garantir que as gerações em formação disponham de um sistema educacional efetivamente capaz de formar-lhes humanística e criticamente e não simples mão de obra para o mercado; que sejam aptos a realizar as escolhas que lhes compete nos processos decisórios que participam e precisam participar, cumprindo seu dever-direito cívico é dever de todo cidadão consciente. Como deveria ser a obrigação número um de todo integrante do executivo e legislativo nacional.

Por igual, garantir que jovens das mais distantes e desasistidas partes do país tenham acesso à informação mundial, fora dos filtros dos interesses econômicos dos grandes grupos econômicos e fundamentalistas que controlam os serviços públicos concedidos de difusão de rádio e televisão, além das grandes redes jornais e revistas, em associação com setores dotados de poder político, é de fundamental importância para a construção do Brasil dentro dos princípios fixados na Constituição da República de 1988. É estratégico, política e socialmente, garantir a acessibilidade à informação e à cultura àqueles brasileiros e brasileiras que, embora desprovidos de capacidade de compra, querem furar o bloqueio que lhes dificultam ao impedimento a construção de sua capacidade crítica.


Nada importa mais a aqueles setores predatórios e controladores do que a garantia de que tudo continue como está.


Sobretudo mantendo o ensino público na indigência em que se encontra, asseguram para si a inviabilização do surgimento de cidadãos críticos, informados, conscientes, capazes de exigir, de fazer tornarem-se eficazes os seus direitos.

Mas vamos ao texto que anunciei, pois já me alonguei muito.

Preconceito linguístico e outros no país do conservadorismo


Vivemos num país assustadoramente conservador e preconceituoso, com opiniões majoritárias da população em favor de posições anacrônicas, muitas delas já superadas nos chamados países avançados.

Por Geraldo Galindo*, do Vermelho.org.br

No Brasil a maioria do povo é contra o aborto, é contra o casamento entre homossexuais, é contra o desarmamento, contra leis que asseguram o estado laico etc. Isso é decorrente, entre outros fatores, por conta de uma influência religiosa ainda muito marcante em nossa sociedade - o que tem travado a aprovação de propostas que fariam o país avançar para um ambiente mais civilizado - e também pela força das dezenas de partidos conservadores presentes na disputa política.

Aqui em Bruzundanga, quando falamos em respeitar os direitos humanos, os direitistas falam que estamos ao lado dos bandidos; quando defendemos cotas para negros e pobres, eles dizem que estamos premiando a ignorância; quando dizemos que o corpo da mulher pertence a ela e ela deve decidir sobre ele, os reacionários dizem que o corpo pertence a deus e que as regras do tal deus é que devem prevalecer e nos acusam ainda de estarmos propondo o assassinato de crianças indefesas; quando se pretende punir os país que surram os filhos, eles vem com o argumento de intromissão do governo em assuntos domésticos; quando propomos a união entre homossexuais e o combate contra a homofobia eles dizem que estamos fazendo campanha para o povo fazer opção pelo homossexualismo; quando defendemos o desarmamento, eles afirmam que queremos desarmar o povo e deixar os bandidos bem armados; quando combatemos o racismo, eles dizem que estamos pregando o ódio entre as raças; se somos contra o ensino de religião nas escolas, falam que somos ateus materialistas e que queremos proibir a bíblia.

Quando defendemos programas sociais para o povo pobre, eles falam em assistencialismo e estímulo à preguiça, quando defendemos pesquisas com células-tronco para a cura de doenças, eles falam que estamos ameaçando as leis divinas; quando bradamos contra o machismo eles dizem que essa é a tradição brasileira; quando queremos investigar os crimes da ditadura eles nos acusam de revanchistas. Como se vê, os preconceituosos e os obscurantistas dos vários tipos têm argumento contra tudo que signifique um mundo mais arejado, mais tolerante, mais civilizado. O pior de tudo é que vez por outras surgem pessoas tidas como de "esquerda", que em tese deveriam estar ao lado de causas libertárias - , assimilando esse tipo de discurso, como a presença de deputados do PT em manifestações públicas contra os homossexuais e contra o direito da mulher fazer aborto.

Recentemente, um livro didático para jovens e adultos distribuído pelo MEC a 4.236 escolas do país reacendeu a discussão sobre como registrar as diferenças entre o discurso oral e o escrito sem resvalar em preconceito, mas ensinando a norma culta da língua. Isso foi o estopim para uma saraivada de ataques os mais reacionários contra a iniciativa que visava entre outros objetivos, reduzir o preconceito existente contra as pessoas que "falam errado".

O já conhecido PIG (Partido da Imprensa Golpista) usou suas ferramentas de trabalho (Globo, Folha, Veja, Estadão) para atacar impiedosamente o projeto. No Congresso Nacional os reacionários do PSDB e DEM foram para o campo de batalha com artilharia pesada contra o ministro da educação. Seria bom que todas pessoas pudessem ler o livro "Preconceito Lingüístico" e outros do professor da UNB Margos Bagno (pode-se baixar na internet). Para os conservadores de plantão, a avançada idéia do MEC de se contrapor à ditadura da "gramática culta" seria estimular a ignorância entre os alunos, quando o objetivo vem a ser exatamente o contrário.


* Geraldo Galindo é dirigente estadual do PCdoB/BA

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