sábado, 17 de abril de 2010

ALGUMA COISA ACONTECE: A FORÇA DA JUVENTUDE LGBT

Passei a semana discutindo sobre o resultado efetivo da gestão da SuperDir.

Foram quatro anos de seminários, conferência estadual, preparação à conferência nacional, criação da Câmara Técnica para a implantação das diretrizes do Programa Brasil Sem Homofobia, seminários com a área da segurança pública, com vistas a promoção de uma cultura, entre os policiais, mais conforme com os Direitos Humanos (vale dizer, com o respeito e a promoção da dignidade da pessoa), criação do Conselho de Direitos (que apenas agora é que divulga o Regimento Interno do Conselho de Direitos da população LGBT fluminense)...

E nisso passaram-se quatro anos.

O que eu venho perguntando é:

- Foi feito o suficiente? Quero dizer, fez-se o possível, o exequível, diante da estrutura de governo disponibilizada pelo Governador?

Quais as políticas sociais efetivadas? Que mecanismos de validade e efetividade à legislação antidiscriminação LGBT existente foram instituídos? Qual a política de proteção, por exemplo, à velhice LGBT? Aliás, qual é a política em elaboração ao enfrentamento da inversão da estrutura demográfica, a ocorrer no exíguo prazo de vinte anos, em suas implicações para o segmento LGBT?

De meu ponto de vista o movimento LGBT fluminense perdeu a oportunidade histórica de fazer acontecer, ao desperdiçar a primeira experiência de ocupação de uma estrutura de governo no nível de uma superintendência de direitos, integrada na estrutura da Secretaria de Política Social de um Estado.

Ao confrontar as ações individuais do Governador do Estado com aquelas promovidas pela sua SuperDir, o que encontro é um descompasso, um fosso.

O ocupante designado, ao meu modo de ver, perdeu-se entre organizações de Paradas, Seminários, Conferências e que tais. Mas descuidou-se do tema tão caro e tão propalado pelo movimento - AS POLÍTICAS SOCIAIS.

Após ver declarada a inconstitucionalidade de sua iniciativa de reconhecer a isonomia entre servidores LGBTs e heterossexuais, o Governador do Rio de Janeiro entra com a Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) junto ao Supremo, a fim de que magna corte faça cessar a infração ao preceito constitucional que veda a discriminação (negativa de isonomia), garantindo aos cidadãos LGBTs a fruição dos mesmos direitos fixados a todo e qualquer cidadão, notadamente no que se refere à conjugalidade.

Enquanto isso, a sua Superintendência dos Direitos (integrante da estrutura de Assistência Social), realiza o que, em termos de impacto efetivo no caminho da superação da discriminação e violência contra o segmento?

Somente agora (divulgado no dia 09; publicado no DOERJ em 24/03) é que sai o Regimento Interno do Conselho Estadual de Direitos a População LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) do Estado do Rio de Janeiro.

Como disse antes, sequer placa na porta com a sigla "maldita". Nem no sítio oficial do governo do estado, da SEASDH-RJ aparece qualquer programa para o segmento, enquanto que para outros igualmente vulnerabilizados, sim (negros, idosos, portadores de deficiência), como disse em 2 postagens neste blog Comer de Matula (em janeiro e fevereiro).

- E aonde é mesmo que esteve o MOVIMENTO LGBT FLUMINENSE durante todo este tempo? Onde o Fórum Fluminense LGBT? Qual a sua incidência qualificada? A sua atuação crítica distanciada, independente, autônoma, cobrando e repassando informes ao segmento...?

- Qual foi a efetiva postura do movimento, dentro de seu sagrado dever de, com autonomia e independencia, cobrar resultados, na defesa do segmento que representa?

E, aliás, o que é mesmo que sabe das leis fluminenses e suas incompletudes (inefetividades, ineficácias) O MOVIMENTO LGBT DO RJ?

Mas parece que o Superintendente sente-se plenamente safisfeito com o seu desempenho frente ao órgão, pois convida à uma feijoada no melhor estilo pré-eleitoral do "di grátis", sob a epígrafe da comemoração aos seus "21 anos de atuação pela cidadania LGBT" - acaso estaria o senhor Superintendente a preparar uma sua eventual candidatura? Bem, isso explicaria o fato de os últimos meses terem sido marcados por ações tão postergadas - como o Regimento Interno de um Conselho de Direitos formalmente criado (em termos jurídicos) há tanto tempo.

Ao meu ver, estas são questões que precisariam ser colocadas em discussão, integrar verdadeiramente a pauta do Movimento LGBT nacional - tanto para o RJ quanto para os demais estados e Governo Federal: a efetividade do discurso em reconhecimento da necessária isonomia para o segmento LGBT brasileiro.

A partir daí, nos posicionarmos frente aos candidatos.

Mas, sempre, com autonomia, distanciamento crítico, independência. Jamais de rastros, com obsequiosa gratidão subserviente.

Para mim, Direitos são conquistados; jamais outorgados, concedidos.

Mas o título desta postagem é a juventude LGBT e a esperança de futuro, não é mesmo?

É que acabo de ler texto socializado pelo Diretor da Escola Jovem LGBT de Campinas, Deco Ribeiro, sobre o evento promovido pelo E-Jovem de Campinas no DIA DO SILÊNCIO, em lembrança às opressões vivenciadas na Escola pelos LGBTs.

Ver o nível de consciência crítica e política desses jovens, expresso no texto e nas imagens do evento, fizeram-me compreender que uma grande força transformadora (e agregadora) está a ser catalizada pelos integrantes desta nova geração.

Sim, alguma coisa acontece. E não apenas em Campinas. Já nos deu mostras o Rio Grande do Sul, por intermédio do Projeto Gurizada, do Nuances. Espraia-se também por Sorocaba e, certamente, há de se fazer presente e vibrante em outras tantas cidades por esse Brasil continental.

Os e as jovens estão aí. Cheios e cheias de garra, ousadia, inventividade e, muita, muita alegria. Sem esperar que lhes concedam - espaço, oportunidade, direitos. Sua capacidade ao protagonismo e o seu potencial transformador podem ser percebidos através das imagens apresentadas.


Fizeram-me recordar a canção ME GUSTAN LOS ESTUDIANTES, de Violeta Parra, imortalizada na voz de Mercedes Sosa. (Ainda que não deixe de perceber o aspecto de classe, nela presente, ao apenas destacar carreiras universitárias).

Me gustan los estudiantes

(Violeta Parra)

¡Que vivan los estudiantes,
jardín de las alegrías!


Son aves que no se asustan
de animal ni policía,
y no le asustan las balas
ni el ladrar de la jauría.
Caramba y zamba la cosa,
¡que viva la astronomía!

¡Que vivan los estudiantes
que rugen como los vientos
cuando les meten al oído
sotanas o regimientos.
Pajarillos libertarios,
igual que los elementos.
Caramba y zamba la cosa
¡vivan los experimentos!

Me gustan los estudiantes
porque son la levadura
del pan que saldrá del horno
con toda su sabrosura,
para la boca del pobre
que come con amargura.
Caramba y zamba la cosa
¡viva la literatura!


Me gustan los estudiantes

porque levantan el pecho
cuando le dicen harina
sabiéndose que es afrecho,
y no hacen el sordomudo
cuando se presenta el hecho.
Caramba y zamba la cosa
¡el código del derecho!

Me gustan los estudiantes
que marchan sobre la ruina.
Con las banderas en alto
va toda la estudiantina:
son químicos y doctores,
cirujanos y dentistas.
Caramba y zamba la cosa
¡vivan los especialistas!

Me gustan los estudiantes
que van al laboratorio,
descubren lo que se esconde
adentro del confesorio.
Ya tienen un gran carrito
que llegó hasta el Purgatorio
Caramba y zamba la cosa
¡los libros explicatorios!

Me gustan los estudiantes
que con muy clara elocuencia
a la bolsa negra sacra
le bajó las indulgencias.
Porque, ¿hasta cuándo nos dura
señores, la penitencia?
Caramba y zamba la cosa
¡Qué viva toda la ciencia!

(1960-1963)


Segue o texto citado :
E-JOVEM pára Campinas no Dia do Silêncio

Lohren Beauty e o E-CAMP, o Grupo E-jovem em Campinas, mobilizaram milhares de adolescentes e jovens nessa sexta, em pleno centro da cidade, par a marcar o Dia do Silêncio. Esta data, 16 de abril, é lembrada mundialmente como forma de protesto contra os xingamentos e agressões sofridas por alunos LGBT nas escolas e foi celebrada pela prim eira vez no Brasil.

"Gays, lésbicas, travestis, transexuais, drag queens! Essa é a diversidade sexual que existe dentro da escola. E as escolas têm de aceitar isso!", afirmou Chriss Bop, membro do E-CAMP e apresentador do evento. "Não podemos deixar que nos chamem de viadinho e abaixar a cabeça, temos que enfrentar," completou a presidente do E-JOVEM, Lohren Beauty. "Dizer 'Sou sim, e daí', arrasar no carão e sair, belíssima."

A manifestação organizada pelos próprios jovens do grupo reuniu na praça Bento Quirino, marco zero da criação de Campinas, cerca de dois mil jovens que acompanharam - muitos pela primeira vez - shows de 24 drags e 7 bailarinos . "A gente não tem idade pra entrar em boate, então ficamos só ouvindo os nomes das drags top, vendo os vídeos no Youtube e sonhando," contam os amigos Celso e Samuel, de 17 e 16 anos.

No meio do show, Lohren agradeceu a participação da galera do E-SOROCABA, que viajou até Campinas para prestigiar a festa, e pediu um minuto de silêncio em respeito a todos os alunos e alunas LGBT que, por homofobia, são diariamente silenciados nas escolas. "Até arrepia ver essa multidão toda quieta," comentou ela. "Acho digno!" O Dia do Silêncio surgiu em 1996, nos EUA, e é celebrado sempre em abril.

O trio que segurou as pontas do evento:










Pikeno, Lohren Beauty e Chriss Bop
(Lohren Beauty é presidente do Grupo E-jovem e Gerente da Escola Jovem LGBT)


Referências:
http://br.groups.yahoo.com/group/listagls/message
http://decoribeiro.blogspot.com/
http://www.cancioneros.com/nc/1045/0/me-gustan-los-estudiantes-violeta-parra
http://lohren-beauty.blogspot.com/
http://www.gloriagodiva.com/artigos_entrevista1.html

Todas as imagens postadas são oriundas do texto em referência e, portanto, de autoria dxs organizadorxs do Ato Político.

terça-feira, 13 de abril de 2010

"O Vaticano continua o mesmo"

O sumo sacerdote da igreja católica apostólica romana, pretendendo desviar o foco da verdadeira aberração que consiste o acobertamento de pedófilos no seio de uma congregação religiosa, proclama, do alto de sua iniquidade, que o "mal" é o "homossexualismo" (sic) e não o seu totalitarismo, a sua histórica perseguição aos discordantes; o seu passado de genocídios (de mulheres, índios, judeus, muçulmanos, sodomitas); a sua arrogância em legislar sobre a vida privada daqueles que não professam a sua crença, a sua contumácia em desrespeitar o princípio da laicidade.

A revista Carta Capital de 14 de abril, nas bancas, na página 12 traz o editorial de Mino Carta com o título: "O Vaticano continua o mesmo - Galoparam os séculos, mas a Igreja é, ainda e sempre, tragicamente anacrônica". Nele é transcrita a fala de Tullia Zevi, ex-presidente das comunidades judias da Itália, com 91 anos de muita lucidez: "Enfim, quem decide quem é santo?" "Por que o papa não cuida de perceber que o celibato é contra a natureza?"

E aduz o editorialista:
"De todo modo, o escândalo da pedofilia é antigo e deliberadamente ignorado, é brasa debaixo das cinzas a faiscar até menos do que tantos outros. Por exemplo, as ligações do banco vaticano com o crime organizado, a envolver lavagem de dinheiro e até assassínios. Ou as insuportáveis interferências na vida política de vários países, a começar por Itália e Espanha, onde o Estado se diz laico, mas os governos sofrem as pressões de batina e frequentemente se ajoelham, obedientes e compungidos."
Enquanto se dedica a considerar o nazismo um baluarte contra o comunismo (Pio XII), a excomungar o instrumento mais eficaz contra DSTs e inclusive o HIV e o Papiloma Vírus , que é a camisinha (Paulo VI), a silenciar o quanto pode a pedofilia de seus padres e a orquestrar uma perseguição mundial contra homossexuais (gays, lésbicas, travestis e transexuais inclusive), o Vaticano silencia sobre a fome, a miséria, a concentração das riquezas, a corrupção, a exploração do humano pelo humano.

Esqueceu, completamente esta Igreja, TODOS OS ENSINAMENTOS do Cristo que ousa dizer representar e deter, na Terra, a exclusividade da interpretação e exercício de Sua palavra. O Cristo Jesus que era exemplo vivo e cotidiano de fraternidade, coerência, Justiça, equidade, compreensão, acolhimento.

Para esta Igreja espúria, traidora e iníqua, assim como para esses políticos cínicos e irresponsáveis, dou-lhes o meu cântico indignado:

JULGA-ME, SENHOR


(Fundo Musical: Um Dia no Amazonas, de Naná Vasconcelos)


(A Defensoria Pública e ao Ministério Público)




Abre, Senhor, Tua boca, e julga!
E Faze a Justiça necessitada!


Se é verdade que seja eu o mais brutal,
o mais rude dentre todos,
então também é verdade que
não tenho entendimento,
nem sensibilidade, nem solidariedade,
nem compaixão.

Nem aprendi a lutar desesperada e veementemente
quando ao redor a ventania a tudo derrubava.

Nem aprendi a crer na honradez pelo trabalho próprio;
nem constituí minha caminhada uma estrada de fé
e esperança no humano,
transferindo o gozo do vinho, dos sorrisos,
das viagens, para depois de aberta a picada.

Se toda minha palavra é dura e escarnece a ferida,
também é verdade que, como águia no céu,
persegue o suave caminho pelo mar,
revelando os escolhos.

Se sustento a pisada
quando ao meu lado me batem o pé
é porque sustento o Teu nome – e o Meu –,
filho Teu que Sou, Centelha Tua,
a fluir e exigir-me digno de Tua Herança.


II

Se não aprendi a formosura das doces palavras,
é porque duas coisas me exigiste:

“Alonga de ti a arrogância
e a mentira”.

E assim, impondo-me observar-Te as leis,

procurei conduzir os meus e
fazer o meu caminho Teu espelho.

Se em mim não se faz ouvir
o equilíbrio da suavidade,
da meiguice codificada em signos de mercancia,
é que também, desde os tempos idos,
já não se ouve Justiça, Eqüidade, sossego.

Não, Senhor, não aprendi a sabedoria
da mesa e do vinho dos que estabeleceram
todos os contornos da aceitabilidade civilizada.

Não, Senhor, não aprendi tal sabedoria.
Mas tão só o conhecimento das
enchentes nas madrugadas,
que entra destruindo tudo, a castigar e a sucumbir
todos aqueles que não retiverem no espírito
a alma do soldado que dorme em constante vigília.

A cultura que me toca
é a legião de abandonados pelas ruas:
sem casa, sem emprego, sem escola e sem comida.

A produzir com suas mãos o bolo cozido
no fogo do abandono e da indiferença.

Lábios que zombam, bocas que segregam,
olhos que se fazem cegos...
Eis que de meus pés afloram
botas esculpidas em de barro.
O mesmo que – dizem – Tu nos fizestes.

O mesmo barro que ocultamos pressurosamente,
recobrindo-lhe onde passe,
com concreto, exclusão e betume, a sufocar
toda e qualquer semente.

III

Busquei sempre reter em mim e nos meus
o respeito às Tuas e às nossas Leis.

E amoldei os meus
- como meu pai a mim e a meus irmãos
e meu avô a meu pai e a meus tios.

E fiz erigir dentro de cada um dos meus
a altivez pelo trabalho próprio,
a dignidade pela observância das leis,
o respeito absoluto pelo que é do próximo.

Hoje me encontro a perguntar:
- Senhor, de que valeu?

De que valeu, Senhor, se no mundo
nem eu nem os meus
têm encontrado adequação?

Se seguir os ensinamentos Teus e dos antigos
é como falar numa língua esquecida e estrangeira?

Como manter os meus vivos e lúcidos,
se também aqueles que devem julgar
fazem-se insensíveis à sua responsabilidade?

Como, Senhor, convencer a esses jovens,
cujo sangue por Justiça ferve nas veias,
de que deverão permanecer a esperar
indefinidamente,
sem nunca verem-se saciados?

A fome e o frio não sabem esperar, Senhor.

Mas a miséria alheia só incomoda como opróbrio da
opulência (desavergonhada e ignóbil,
que apropria-se sem remorso do dinheiro de todos.)

Então, para silenciar a denúncia
palpável e ambulante que é,
queimemo-la.

Já que de nada vale, de nada serve, que nada é.

...De que vale a vida?! - Queimemo-la, pois.


Queimemo-la, para que depois,
uma Toga venha a branir com sua espada
estrábica e manchada que
não havia maldade; não havia intenção;
não havia malefício.

No entanto, disseste:

“Eis aqui o meu servo a quem sustenho.
Pus sobre ele o meu Espírito e ele promulgará
o Direito para os gentios. Não desanimará
nem se quebrará até que ponha na terra o Direito.”

IV

Por muito tempo estive calado, Senhor.
Permaneci em silêncio e me contive,
acreditando que não me cabia julgar as leis
e menos ainda os Homens da Lei.

E, assim, obediente,
cuidei de cumprir a minha parte.

Agora já não posso mais.
Não posso mais, Senhor.

E por isso eu grito:

Enaltecemos a Lei e fizemo-la grandiosa
pela sua observância cotidiana,
em agrado à própria Justiça.

E o que temos, Senhor?

- Um povo roubado, saqueado,
aninhado em cavernas à beira das estradas,
por sob os viadutos...

Que caminha em procissão de um lado para outro
em busca de chão, mas são tocados como presa.

E ninguém há que os livre.

No entanto reza a Tua Lei:

“O proveito da terra é para todos.”

“Boa e bela coisa é comer e beber
e gozar cada um do bem de todo o seu
trabalho, com que se fatigou debaixo do sol.”


“Ó vós, todos os que tendes sede,
vinde às águas. E os que não tendes dinheiro,
vinde. Comprai e comei. Sim, vinde, pois.
Comprai sem dinheiro e sem preço
vinho e leite.”

Onde o trabalho, Senhor?!

Onde o salário digno?,
contrapartida eqüânime do suor de nossas mãos
ou da fadiga de nossa mente?,
remuneração mantenedora da dignidade
dos meus e de todos?

Como é, pois, Senhor, possível
permanecer obediente e confiante,
vendo ao lado tanta morte,
tanta fome, tanto desamparo?

Como crer e obedecer as Leis e a Justiça,
se a mesma Lei e Justiça voltam-se contra nós,
em desagrado às Tuas palavras?
em desagrado a mais elementar de Tuas Leis?


________________

Referências:

Eclesiastes, 5:9.
Eclesiastes, 5: 18.
Isaías, 55: 1.
Provérbios: 31:8, 9. 30: 2, 7, 8.
Eclesiastes, 5: 19.
Tiago, 2: 1 a 3; 5 e 6. 4:11 e 12. 5.
Isaás, 1:6; 2:16 e 17; 42:22.

Poema oriundo de Samdhyâ - A Primavera do gerúndio e outras estações, ed. da autora, 2004.

terça-feira, 6 de abril de 2010

HOMOFOBIA: LEITURAS DE FALABELLA

À pergunta, formulada por Regina Britto, do jornal O Dia, se faria como o cantor Ricky Martin (ou seja, se assumiria a sua homossexualidade), Miguel Falabella respondeu:

“Não faria isso, porque o Brasil é muito despreparado. Somos aborígenes, ainda mais porque esse tipo de imprensa é de quinta categoria. E se você assume, passa a ser gay e deixa de ser tudo o que você realmente é”.

Sobre o que achou dessa atitude do cantor, disse Falabella:

“Achei maravilhoso. Mas acho tão fora de moda esse negócio de questionar a sexualidade dos outros. O mundo está acabando... Não tenho a menor intenção de saber a opção sexual das pessoas, só das que quero comer. Se ele teve esse tipo de necessidade é um fato. Os preconceitos sempre vão existir, porque o ser humano é mesmo intolerante!”.


À parte o terrível preconceito expresso por Falabella com relação aos nossos aborígenes (povos em geral infinitamente mais solidários, democráticos e respeitosos, inclusive com relação à diversidade sexual, do que nós) e a imprecisão histórica de atribuir o mérito pela informática a seu comerciante, ao invés de ao seu inventor - o gay ALAN TURING, autor dos trabalhos teóricos que estabeleceram os alicerces para o desenvolvimento de tudo o que temos na atualidade em termos de informática e inteligência artificial -, é, sem dúvida, desagradabilíssimo ser interpelado por um jornalista ou por qualquer outra pessoa (exceto eventuais candidatxs) a respeito de nossos interesses eróticoafetivos.

Mas, por outro lado, esse seu modo de perceber desconsidera o processo histórico: nenhuma nação "nasceu" civilizada (aqui como sinônimo de respeito aos direitos humanos).

Para hoje serem apontados como modelo de liberdade e dignidade humana, esses povos primeiro tomaram consciência da necessidade de participação, de comprometimento social e político; primeiro se deram conta de que individual e coletivamente tinham um papel transformador a exercer; de que atitudes individualistas no melhor estilo do "cada um por si" é suicida e burra.

Tambem deixa de enxergar as nuances do preconceito:

Uma coisa é não ter que se ver compelido a confessar o seu desejo (menos por respeito à própria intimidade do que por receio de passar a ser rotulado, estigmatizado, reduzido em todas as suas capacidades ao aspecto eróticoafetivo).

Outra, completamente diferente, é não poder falar com naturalidade sobre a pessoa que amamos, com a qual dividimos a vida e a cama há anos, não podendo ir com ela às confraternizações na escola ou no trabalho, tendo que declarar-nos solteiros em documentos "oficiais", impedidos de receber informações médicas, caso nosso amor adoeça ... (e outros mais de 78 direitos civis negados).

Por isso creio que essa sua fala nos traz excelente oportunidade para reflexão e gostaria mesmo que o próprio Falabella também se dedicasse a se indagar:

- Por que, em nosso país, permanece resistente a visão preconceituosa a respeito da diversidade de orientação do desejo sexual, que leva à violência, à estigmatização, impedindo que muitas pessoas, inclusive profissionais de carreiras tradicionalmente marcadas pelo respeito à diversidade humana, se vejam obrigadas a manter a sua orientação sexual na sombra, vivida em sigilo, e com receio, sem poderem desfrutar de uma expressão tão tranquila e singela quanto a da heterossexualidade?

- O que faz com que o Brasil, que vem num movimento ascendente de reconhecimento e projeção internacional, na questão do respeito à liberdade de orientação sexual, ao contrário das demais nações civilizadas permaneça com a visão preconceituosa, estigmatizante, produtora de violências, levando as pessoas - sejam anônimas, sejam públicas, a se verem obrigadas a manter a esfera de sua afetividade homoerótica à margem, nas sombras, por receio de um rótulo desqualificante?



Referências:

Agradeço a Osmar Rezende, da Libertos Comunicação (http://www.libertos.com.br/) o haver socializado esta entrevista do Falabella ao O Dia na listagls.

http://odia.terra.com.br/portal/diversaoetv/html/2010/4/miguel_falabella_esta_fora_de_moda_questionar_a_sexualidade_dos_outros_73051.html

http://comerdematula.blogspot.com/2009/09/tenho-orgulho-de-pedir-desculpas-um.html

http://carlosalexlima.blogspot.com/2010/01/cidadania-de-segunda-categoria.html