segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Cidada da Homofobia? - Rio Registra 48 Crimes por Mês Contra Homossexuais

Relatório Rio sem Homofobia mostra raio-x do preconceito

Em 1 ano e 5 meses, Leblon teve quase quatro vezes mais casos registrados que a Penha

Rio - Eleito em 2009 melhor destino gay do mundo pelo site TripOutTravel e pelo canal americano Logo, da MTV, o Rio tem estatísticas que em nada combinam com a imagem descolada e liberal que ganhou o mundo: estudo inédito feito entre julho de 2009 e novembro de 2010 contabiliza 48 registros por mês de crime presumidamente motivado por homofobia no estado todo.
Foto: Uanderson Fernandes / Agência O DiaDouglas foi baleado em novembro por militar do Exército depois da passeata do Orgulho Gay, em Ipanema | Foto: Uanderson Fernandes / Agência O Dia
Ao todo, são 776 registros. A capital lidera, com 485 casos (62,5%), e justo a Zona Sul, onde estão concentradas boates voltadas ao público LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) e onde é promovida anualmente a Parada LGBT de Copa, está no topo do ranking.

O levantamento, feito pelo Programa Rio Sem Homofobia, o governo do estado do Rio de Janeiro e secretarias de Segurança Pública e de Assistência Social e Direitos Humanos, mostrou que a delegacia recordista de boletins de agressão contra LGBT é a 14ª DP (Leblon). Lá estão concentrados 7% dos casos da cidade do Rio. A delegacia da Penha teve menos de um terço desse número e a de Bonsucesso, por exemplo, também não chegou à metade.

A 35ª DP (Campo Grande) e as Delegacias de Atendimento à Mulher estão na segunda posição, com 6,8% dos registros cada, seguidas pela 9ª DP (Catete), que engloba o bairro da Glória — onde há conhecido calçadão de prostituição — com 6,4% das ocorrências.

“A Zona Sul é onde há mais lugares com diversão para o público gay. O que preocupa é que, se há grande procura nas delegacias de lá, a vítima pode estar se sentindo inibida de fazer o registro no seu bairro de origem”, disse o superintendente estadual de Direitos Individuais, Coletivos e Difuso, Claudio Nascimento.
O mapa da homofobia no estado aponta que, dos 92 municípios, 42% tiveram alguma ocorrência de violência contra homossexuais notificada. Depois da capital, a Baixada Fluminense, com 15,1% dos casos, é onde há maior número de registros. Nessa região, Comendador Soares está no alto da lista, com 21,3% das situações levantadas.

“Esses dados mostram que a homofobia está presente em todo o estado. Esses números poderiam ser ainda maiores, se não fosse o medo. Queremos transformar um ciclo vicioso de impunidade num círculo virtuoso de cidadania”, explicou Nascimento.

Segundo o estudo, homens entre 30 e 39 anos são os que mais sofrem preconceito. Entre as lésbicas, as estudantes, donas de casas e comerciantes são os principais alvos. A maioria das ocorrências ocorre por injúria, ameaça e furto.

Alvo e autor de agressões são, na maioria, homens

Os homens não são só as principais vítimas de homofobia, eles também são os principais agressores. O estudo mostra que pelo menos 50,6% dos autores de delito são do sexo masculino — só 16% são mulheres e 33,4% não tiveram sexo identificado — e a maioria tem entre 30 e 39 anos.

A travesti Rafaela Muniz, 25 anos, reconhece, nas estatísticas, o retrato de seus algozes no dia a dia. No final do ano passado, ela foi barrada na porta de uma casa noturna na Lapa. Primeiro, informaram a ela que não poderia entrar por causa da roupa curta. Ao voltar de calça jeans e camiseta, dois seguranças informaram que o lugar não aceitava travestis.

“Passei por um constrangimento horrível. As pessoas olhando e os funcionários falando que não poderia entrar por causa da minha orientação sexual. Me senti pior que um animal”.
Estudantes e cabeleireiros são principais vítimas

Foi justamente na recordista de registros de homofobia, a Zona Sul do Rio, que o estudante Douglas Igor Marques, de 19 anos, viveu momentos de terror, em novembro. Com um grupo de amigos homossexuais no Arpoador, em Ipanema, ele foi baleado por um militar do Exército e quase morreu.

O que Douglas não sabia é que estudante são algumas das principais vítimas deste tipo de crime. Pelo menos 13,5% dos agredidos têm a mesma ocupação do jovem agredido do Arpoador, segundo a pesquisa do Rio Sem Homofobia. Os cabeleireiros, com 6,5%, aparecem em segundo lugar como vítimas que mais procuram as delegacias para registrar boletim. Em seguida, vêm os aposentados, com 6%, funcionários públicos, com 4%, e militares, com 3,5%.

“Assumi minha homossexualidade aos 12 anos e nunca pensei que o preconceito levaria uma pessoa a atirar na outra. Achei que iria morrer. Enquanto a lei que criminaliza a homofobia não for aprovada, nós, homossexuais, nunca teremos paz”, diz o jovem, que foi atingido ao sair da passeata do Orgulho Gay.
Jovem morto estava com gays

Nesta quinta-feira, a assistente administrativa Angélica Vidal Ivo, 40 anos, vai à terceira audiência do que ela chama de “causa da sua vida”. No processo, estão os últimos passos do filho, o estudante Alexandre Ivo Rajão, 14, morto, em São Gonçalo, por ser considerado homossexual.

A luta da mãe é para provar que o filho foi uma vítima porque estava com gays. “Estive com o investigador no Instituto Médico Legal (IML) e ele não me disse que se tratava de um crime de ódio. A Justiça, na minha condição social, não existe. Só acontece para quem pode bancar um advogado”, diz Angélica Vidal Ivo.
Apesar das dificuldades enfrentadas, o caso de Alexandre é uma exceção. Dos 776 registros de homofobia, apenas 8,5% estão em andamento. A maioria, 33%, encontra-se no Juizado Especial Criminal, por ser considerada crime de menor potencial ofensivo.


http://odia.terra.com.br/portal/rio/html/2011/1/relatorio_rio_sem_homofobia_mostra_raio_x_do_preconceito_140883.html

sábado, 29 de janeiro de 2011

NA PAULISTA, OUTRA VEZ - TAMBEM LÁ: OMISSÃO, BOICOTE, SABOTAGEM

Mais um caso de agressão física contra homossexuais na Avenida Paulista, no Centro de São Paulo.  Foi na madrugada de terça-feira, durante as comemorações pelo aniversário de fundação da cidade.

Sangrando, após receber uma garrafada no olho, o jovem busca ajuda em um posto de gasolina. Queria água e um pano para limpar a ferida. Atônito, vê que nenhum dos empregados no iterior do posto se dispõe a ajudá-lo. 

O amigo que o acompanhava liga para a Polícia. Lá como cá, a Polícia não aparece. Recorrem à Base Móvel da PM na Paulista. Esta não solicita reforços pelo rádio, para localizar os agressores - cuja descrição física (padrão tipo skinheads) não tornaria  vã a tentativa, decerto, caso houvesse interesse em cumprir com a função que lhes cabe.

Triste ver reiteradamente que as Polícias estaduais atuam de forma seletiva: quem, o que, quando, como, são discricionariedades praticadas cotidianamente nas ruas pelos agentes da autoridade policial. São eles que escolhem qual ocorrência atender e como.

E as Corregedorias, como atuam diante de tais notícias? Os Comandantes Gerais? Os Secretários de  Segurança Pública? De Direitos Humanos (seja qual seja o nome específico em cada organograma estadual) 

E os Governadores?

Ficamos assim, semelhantemente à questão carcerária? 

- É esta a resposta dos Estados? E Estados, diga-se de passagem, com maior peso relativo dos ativistas de ongs LGBTs.

São estas as Polícias cidadãs, aptas para os mega eventos internacionais que sediaremos em 2014 e 2016?
 
 A omissão policial parte da certeza de que sua visão de mundo de menosprezo à diversidade é partilhada pela maioria da sociedade - os níveis hierárquicos da corporação incluídos.

Assim, nesse quadro de pensamento, uma ocorrência vitimizando homossexuais e transexuais não "mereceria" intervenção de um dos braços do aparelho de Estado encarregados da função distributiva da Justiça (em sentido lato). 

Frustrada a fase persecutória, frustra-se todo o resto. Permanece, assim,  intocado o sentimento geral de impunidade, de injustiça, mormente para determinados usuários - pretos, pardos, pobres, travestis, gays, lésbicas.

Na medida em que as notícias de omissão policial se avolumam, sem merecerem a pronta contrapartida em apuração e punição por parte dos canais competentes (acima citados), sinalizando a vontade política determinada na correção de rumos, mesmo em unidade da federação governada por político dito "frendly", constata-se, como na síntese poética de Chico Buarque, que "há distância entre intenção e gesto".

Espera-se das diversas instâncias do Estado coerência, universalidade e ação sistêmica. Não apenas ações e discursos pontuais, tipo "vitrines".



Referência:
http://br.noticias.yahoo.com/s/29012011/25/manchetes-gays-sao-agredidos-novo-caso.html

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

N"O ESTADO QUE MAIS FAZ PELOS LGBTs" OUTRA VEZ A POLÍCIA SE OMITE E A SUPERDIR, NÃO ATENDE

Acabo de ler o blog do advogado Carlos Alexandre (Direitos Fundamentais LGBT). Outra vez a mesma notícia: um homossexual é agredido, nenhuma das instituições encarregadas de assegurar a efetividade da segurança pública atua.

Dessa vez foram quatro pessoas alvo de ataques verbais por parte de uma mulher, pasmem!, acompanhada por uma criança, no interior do CCBB, no Rio de Janeiro.

O grupo ficou sofrendo as desqualificações proferidas aos gritos, na fila de uma exposição no Centro Cultural, ao tempo em que os seguranças da instituição - que não são poucos! - se limitavam apenas a mostrar solidariedade e sugerir que ligasse para o 190. 

- Nenhuma atitude eficiente no sentido de deter a mulher até que a Polícia chegasse. Eles, melhor do que os agredidos, possuíam condições de dar voz de prisão àquela mulher!

André Fischer, um dos agredidos, buscou os serviços de segurança do "Estado que mais faz pelos LGBTs" e nada! A Polícia procurou demorar o suficiente (mais de uma hora), de modo que, quando chegasse na cena do crime (sim, injúriar alguem é crime), tudo já tivesse sido resolvido, de um modo ou de outro, poupando-lhes o azedume de ter que exercer o trabalho para o qual são (mal) pagos - apenas uma das várias modalidades empregadas por policiais e fiscais para sabotar o exercício da função na qual estão investidos.

O telefone da SuperDir (aquele Disque-Denúncia prometido, mas apenas instalado no apagar das luzes da primeira gestão do governador), como é 0800, não aceita ligações originadas de celular. Mas, ao que parece, nenhum daqueles que participaram bravamente no oba-oba da comemoração de serviços de fachada, unicamente anunciados com o fito de alavancar a campanha à reeleição e, via de consequência, garantir a continuidade dos cargos em comissão, se lembrou de informar ao seu "público-alvo" esse insignificante detalhe. Afinal, bobagem: temos em nosso Estado-maravilha uma quantidade infinita de telefones públicos instalados e funcionando! Para que alguem iria querer fazer ligação de seu celular? (No stress, imagino, ninguem que estava com o André se lembrou que no CCBB há telefones públicos e funcionando!)

Quando a valorosa equipe da Polícia Militar chegou, a agressora já havia conseguido fugir.

O blog do André Fischer solicita ajuda para localizar a suposta agressora e publica-lhe a foto. No blog do Carlos Alexandre, há inclusive a sua identificação, feita com a ajuda de várias pessoas.

Pergunto-me se ele, André Fischer, por acaso cuidou de, posteriormente, escrever à Direção do CCBB, narrando o fato e indagando sobre as diretrizes transmitidas ao corpo de seguranças. Indagando se, ao invés de injuriar homossexuais a mulher tivesse praticado o crime de racismo, eles teriam agido da mesma forma. - Fosse contra judeus? Negros?

Tambem me pergunto se por acaso ele cuidou de relatar o retardo no atendimento da Polícia Militar à sua Corregedoria.  No blog, André apenas dá o número do protocolo do atendimento no 190.


A luta é nos mínimos gestos diários

É de suma importância que cada qual lute contra todos os mecanismos que nos fazem desistir de mover o aparato estatal em busca da reparação de crimes, de violações de direitos.

Rodrigo Reduzino foi agredido com socos e palavras injuriosas na calçada em frente ao Bar das Quengas, na Lapa. A viatura da PM veio passando, assistiu o homem dizer - na cara dos policiais - que bateu e batia de novo nessas bichas nojentas e simplesmente fez nada. Mas Rodrigo fez. Atraves da assistência jurídica da SuperDir buscou a reparação devida.

O mesmo contudo não fez o Felipe, quando foi vítima de Guardas Municipais. Enquanto era agredido com cassetetes nas pernas por estar urinando nos Arcos da Lapa, ouvia palavras agressivas por ser viado. - Mas Felipe nada fez. Apenas redigiu o seu relato, contando de sua dor moral, e o distribuiu à sua rede de e-mails. Nenhuma denúncia formal.

Não sei em que fase se encontra o caso do Rodrigo. Espero que andando como deve ser. Tanto a denúncia na Corregedoria de Polícia Militar, quanto a ação no juizado especial criminal.

Mas o que sei é que, se por um lado os mecanismos que nos estimulam a desistir de lutar são muitos, diversificados e eficazes, por outro nós precisamos mais do que nunca resistir e fazer as máquinas restaurativas do Estado entrar em funcionamento. Principalmente pessoas públicas como André e Felipe. Pois são formadoras de opinião. E, além do mais, são dotadas de rede de contatos que lhes colocam em melhores condições para fazer com que as leis sejam cumpridas.

Se as pessoas nessas posições, quando agredidas, não reagem de forma exemplar, registrando a ocorrência, instaurando a competente ação penal, como imaginar conseguiremos a transformação dessa realidade tão violenta e discriminatória? Ferver nas paradas somente não nos fará sermos respeitados!

Como conseguir que as Polícias promovam o correto atendimento às populações mais vulneráveis, em localidades desprovidas dos holofotes (Baixada, Zona Oeste, por exemplo), se nas áreas dotadas de maior visibilidade (mais policiamento, recursos econômicos, turistas etc) integrantes do segmento com melhores condições pessoais para fazer o enfrentamento das estratégias de boicote praticadas pelos policiais não o fazem?

O advogado Carlos Alexandre, em seu blog, tambem chama atenção para a importância estratégica e política de que cada um faça a sua parte - única forma de se conseguir verdadeiramente promover as transformações que tanto necessitamos em nosso país. Ele traz à lembrança uma frase de Albert Einstein, sobre os efeitos perversos da omissão.

Eu faço coro. E trago a frase de Simone de Beauvoir:
"O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices [tambem por omissão] entre os próprios oprimidos."

Romper com a cumplicidade por omissão 
(A Servidão Voluntária)

Lutar para realizar, cotidiana e tenazmente, a ruptura com a cumplicidade por omissão, com a incorporação  (e reprodução) silenciosa dessa cultura intolerante, discriminatória, autoritária, arbitrária (o mais das vezes de forma inconsciente aos seus mecanismos, o que, na realidade, não passa de mais um de seus mecanismos!), torna efetiva a tese formulada e defendida por Etienne de la Boétie ainda em 1577.

La Boétie mostrava sua incompreensão diante das reiteradas práticas de obediência e tolerância à tirania e à injustiça – para ele um fato extraordinário. Embora possuísse a visão da mulher como ser inferior - com o que se mostrava pertencente ao seu tempo -, propunha contra a submissão e a docilidade (servidão) a não obediência, a não adesão, posta em prática por Gandhi quatro séculos depois (a Satyagraha Ashram, o seu método de desobediência civil, influenciado por De Thoreau, Ruskin e Tolstoy, além de sua própria religiosidade indiana).

Em fins do século XX, o sociólogo Pierre Bourdieu tambem exteriorizava o seu perene estranhamento diante da contumácia das práticas de submissão:

“Jamais deixei de me espantar diante do ... fato de que a ordem do mundo, tal como está ... seja grosso modo respeitada, que não haja um maior número de transgressões ou subversões, delitos e ‘loucuras’ ...; ou, o que é mais surpreendente, que a ordem estabelecida, com suas relações de dominação, ... seus privilégios e suas injustiças, salvo uns poucos acidentes históricos, perpetue-se apesar de tudo tão facilmente...”

Em suma: é preciso ter bastante clareza com a responsabilidade que nos cabe diante de nossas omissões diárias. É através desses pequenos gestos (de não agir; deixar pra lá) que nós alimentamos, fortalecemos e reproduzimos essa cultura de desrespeito, estigmatização, violência, impunidade. Que fazemos existir um país onde há "leis que pegam" e "leis que não pegam"!

- Nós tambem somos responsáveis pela realidade à nossa volta.


Referências:
http://carlosalexlima.blogspot.com/2011/01/andre-fischer-denuncia-agressao.html
http://mixbrasil.uol.com.br/blogs/andre-fischer/2011/01

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

300 BOLSAS DE SANGUE POR DIA: VAMOS AJUDAR O HEMO RIO A AJUDAR AS VÍTIMAS DAS CHUVAS!


O Hemo Rio necessita de uma média de 300 bolsas de sangue por dia para atender sua demanda.

Janeiro, devido as férias, é mês no qual se verifica grande baixa no número de doadores, período em que tradicionalmente fazem campanha, para garantir o atendimento da rede hospitalar.

Agora, com a calamidade pública nos municípios da região serrana, o Hemo Rio necessita urgentemente que mais uma vez a população carioca e fluminense  demonstre a força de seu espírito de solidariedade e compareça em massa ao instituto, a fim de garantir o atendimento das vítimas das chuvas.

O Hemo Rio fica no Centro da cidade, na Rua Frei Caneca, nº 8 (prolongamento da Rua da Carioca).

Há o Disque Sangue, para maiores informações: 0800-2820708.

Não precisa estar em jejum; basta levar um documento de identidade com foto e ter se alimentado normalmente, sem exageros em gorduras.

Veja maiores informações aqui.

Podem ser entregues na Cruz Vermelha, Pça da Cruz Vermelha, Centro, RJ (Próxima ao Bairro de Fátima, em frente ao Instituto Nacional do Câncer) ou em qualquer batalhão da Polícia Militar.

Preferencialmente: água mineral, leite, produtos de higiene e limpeza.

Vamos fazer parte dessa corrente!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Laicidade - O princípio e as práticas

A separação entre Estado e Igreja (no caso, a Católica) se deu com a instauração do regime republicano. Deu-se de direito, porque de fato até o presente é algo que ainda está por ser conquistado.

Funcionando como se fora um dos poderes do Estado Imperial, o clero católico não abriria mão, de forma cordata, sem resistir, de sua enorme influência sobre os assuntos de Estado e da Sociedade, exercida há séculos no mundo ocidental. 

O fato é que, embora com mais de cento e vinte anos de existência, a República Brasileira não conseguiu dar efetividade ao princípio da separação entre a esfera religiosa e a civil.

Por toda a parte se vê o quanto a religião ainda impregna a vida do Estado: em diversas repartições públicas encontram-se crucifixos; hospitais públicos ostentam capelas católicas ao invés de espaços ecumênicos; a Constituição da República traz em seu preâmbulo que os congressistas  se reuniram para elaborá-la e a promulgaram "sob a proteção de Deus"; as cédulas de dinheiro ostentam a expressão "Deus seja louvado"... Ritos cívicos e políticos são precedidos por rituais religiosos, como se daqueles fossem parte integrante.

O exemplo mais recente e eloquente foi a posse da Presidenta Dilma Roussef que, antes da cerimônia no Congresso, compareceu ao Templo Católico. Na cerimônia da Posse, no Congresso, podia-se ver  na parede ao alto da Mesa do Plenário, pender um crucifixo, enquanto que ao brasão da República restava um lugar embaixo da mesa. Por diversas vezes a Presidenta Eleita, em seu discurso, empregou o nome da divindade.

E o  que dizer da disputa bizarra, verificada nessas últimas eleições, onde se assistiu ao deprimente espetáculo protagonizado pelos candidatos à presidência com maiores chances de vitória - a atual Presidenta e o Senhor José Serra - conduzindo o pleito como uma grande cruzada para se mostrar mais religioso  do que o outro/a e, assim, conquistar mais votos da parcela crente da população?

Tais gestos não foram práticas isoladas de Dilma ou Serra. Já vem de antes. Tambem o ex-Presidente Lula foi pródigo no emprego do nome do Deus. Na anterior eleição para o Senado, a marca da campanha do senador Dornelles foi uma guerra santa contra a candidata Jandira Feghali.

Esse grave comprometimento da autonomia cívica  pela crescente dominância da religiosidade  não se dá apenas através das forças católicas mais reacionárias e conservadoras. As chamadas religiões neopetencostais vem obtendo a cada dia mais espaço e poder em todas as áreas da sociedade.

Seu avanço se dá a partir de fins dos anos 80 do século passado, em um contexto marcado por agudos índices de desemprego e inflação. Desacreditadas da capacidade do Estado e da sociedade civil organizada em dar solução às suas angústias e incertezas, resta à parcela mais vulnerável socioeconomicamente investir toda incerteza, insegurança e desamparo na esfera religiosa, certas de que, somente dessa forma, serão salvas.

Fragilizadas,  sem políticas públicas de proteção social com que contar para fazer frente aos efeitos das sucessivas crises econômicas  decorrentes não apenas dos equivocados  modelos de gestão praticados por diversos governantes e das pressões de nossa elite predatória e individualista, mas igualmente da hegemonização das doutrinas neoliberais, não foi difícil o campo religioso avançar sobre as grandes massas da sociedade e delas obter os recursos necessários aos seus projetos políticos.

O projeto de poder que permeia tais disputas é claramente visível. Dele fazem parte tanto a realização de eventos de massa em contraponto a eventos do mundo laico - carnaval, espetáculos de rock, parada gay etc. - quanto a ocupação de territórios tradicionalmente mundanos

Obedecendo a uma lógica de conquista, passamos a ver proliferarem com assustadora velocidade o número de templos religiosos,  preferencialmente instalados em espaços  tidos como ícones da vida carnal - boates, cinemas, bares etc. Mas o projeto político de tais grupos não para por aí.

Não basta a conquista do rebanho. É preciso sobretudo conquistar o Estado!

O contexto que no plano econômico desagrega, vulnerabiliza, no cultural encontra-se marcado por grandes transformações tanto tecnológicas quanto institucionais. Valores, modelos e paradigmas passam por fortes modificações. Cada vez é maior a sensação de insegurança e incerteza que  gerações inteiras têm que aprender a lidar, formadas que foram na ilusão de que podiam controlar e conduzir com relativa tranquilidade sua trajetória de vida. 

Os espíritos desamparados, atomizados, coisificados, afundam em depressões e compulsões. O Soma assume múltiplas formas - drogas lícitas e ilícitas, consumismo, corpolatria, violência, fanatismo religioso.

Desiludidos da vida civil, vastos contingentes voltam-se para o transcedental. Nesse ambiente, o discurso religioso caracteriza-se por forte apelo ao ideário conservador e reacionário. Encontra terras vastas e férteis. As religiões passam a apresentar cada vez maior número de candidatos aos cargos de representação política. A  cada pleito, amplia-se o tamanho das chamadas bancadas evangélicas.

Os assuntos da esfera civil da sociedade, anteriormente debatidos no âmbito dos campos intelectuais/científicos/artísticos (medicina, direito, psicologia, ciência política, antropoligia, teatro, música, composição, literatura etc), passam a ser pautados pela visão religiosa.
Não é mais o ideário iluminista que governa nossa sociedade. No debate dos grandes temas nacionais, retornamos aos marcos medievais. Ao invés de cientistas sociais, juristas, agora são os pastores os convocados a proferir o discurso de verdade.

Enquanto isso, o ensino público é sucateado; a remuneração do professor, aviltada.

A formação que se busca não é de cidadãos críticos, cônscios, capazes de conduzir os destinos de um país continental vasto em recursos estratégicos. Não. O objetivo é tão somente a constituição de mão de obra para o mercado. Os betas e ípsilons necessários à manutenção do status quo - a ignominiosa concentração de renda, a imoral taxa de exploração -, como no Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.

Os movimentos sociais, anteriormente indutores da transformação coletiva, hoje são constituídos por associações empresariais que, em busca de poder, prestígio e recursos, tudo o que não deseja é a constituição de uma base social ampla, autônoma, crítica, independente. A sua lógica é estruturada numa prestação de serviços livre a um tempo das obrigações do servidor público e da exigibilidade de um direito por parte do cidadão transformado em cliente/público-alvo.

Em meio a um tal cenário, com que tintas e cerdas compor uma nova paisagem, no sentido da concretização dos objetivos fundamentais de nossa República Federativa, fixados em nossa Constituição de 1988?:
"Construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação"

Como atuar, desde o trivial cotidiano, no esforço da efetivação das diretrizes nacionais reunidas no preâmbulo de nossa Carta Magna?:
 
"Um Estado democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias."

De meu ponto de vista, ademais de buscar em cada gesto cotidiano a expressão da convicção nos valores republicanos, democráticos, fraternos, cooperativos, pluralista, a grande batalha deve ser mesmo pela educação - no sentido da formação de cidadãos conscientes, críticos, capazes de realizar e se responsabilizar pelas suas escolhas; comprometidos com o projeto de país afirmado em nossa Constituição.

- Faça deste um ano realmente Novo!



Referências:
As imagens utilizadas foram extraídas respectivamente, de
coisasdeacreditar.blogspot.com
andreafreitas.wordpress.com