quinta-feira, 30 de junho de 2011

A trama urdida em torno da PEC 23/2007: o deliberado desejo de perseguir LGBTs

Já escrevi aqui a história da PEC 23/2007. Ela havia sido aprovada em 26/05/2011. Em 22/06/2011 retornou para a 2ª votação. Na 1ª votação, ela foi aprovada por 47 votos, contra 02. Nenhuma abstenção.

Depois, capitaneados pelo pastor Silas Malafaia, evangélicos e católicos fundamentalistas (que se apegam apenas a alguns trechos da Bíblia e omitem outros) desencadearam uma verdadeira batalha principalmente (mas não apenas) pela internet, para induzir os deputados que haviam, naquela primeira votação,  entendido perfeitamente a proposta e votado a favor,  voltar atrás e votar contra, com medo de perderem votos na próxima eleição.

Veja o que disse o irmão do pastor Silas Malafaia, diante da "grita" que esses setores fundamentalistas produziram. Primeiro, ele esclarece que, juntamente com toda a bancada, votou a favor porque não viu nada de mais; tratava-se apenas de : "Naquele momento, entendemos que a proposta de emenda apenas reforçava a não discriminação pura e simples da pessoa homossexual, e que tão pouco não visava privilegiá-los."

Diante da campanha deflagrada, inclusive com ameaças de que não estaria honrando os princípios evangélicos, e de perda de votos, ele recua e, com uma justificação completamente absurda, mentirosa, de pura má fé, diz que:
Aprofundamos nossa análise e entendemos que a PEC 23/2007 apresenta artimanhas que possibilitariam fundamentar legalmente condutas tão reprováveis em nossa sociedade, que visam destruir a família.
Dessa forma, estamos nos articulando para derrubar tal projeto na segunda votação. Portanto, lamentamos não ter percebido a sutileza das intenções do projeto na primeira votação, mas repudiamos as manifestações que queiram nos apresentar como contrários à causa do Evangelho.
 Pergunto:
 - Onde, senhores??? Onde a "artimanha"? Onde a tentativa de "destruir a família"? (qual família?) 

Ainda agora, na TV Brasil, no programa 3 a 1, o mesmo deputado Samuel Malafaia disse que a religião dele é contra o "homossexualismo" (sic), a corrupção e a mentira. Que a mentira, para os "cristãos", é tambem um pecado.

Como, então, ele e seus "irmãos em Cristo", tem coragem de levantar semelhante falsidade? Semelhante mentira?

 Não, definitivamente, esses "religiosos" não são pessoas sérias. Não são éticos. Não tem moral. Não tem decência! São, sim, uma raça de víboras!
Veja a íntegra do texto dele próprio. Os destaques em azul são originais. Os demais, meus.
Samuel Malafaia explica o voto favorável a PEC 23/2007
Publicado por Leiliane Roberta em 9 de junho de 2011 (18:47) arquivado em Notícias Brasil
O deputado estadual do Rio de Janeiro, Samuel Malafaia, irmão do pastor Silas Malafaia, divulgou nota esclarecendo os motivos que o levaram a aprovar a emenda constitucional, a PEC 23/2007 que inclui a opção [orientação] sexual nos direitos fundamentais previstos na Constituição Estadual.
De acordo com ele o texto não dá regalias especiais ao grupo LGBT, apenas reforça a não discriminação. A PEC 23/2007 incluiria a opção [orientação]  sexual no artigo 9º, §1º que diz: “ninguém será discriminado, prejudicado ou privilegiado em razão de nascimento, idade, etnia, raça, cor, sexo, estado civil, trabalho rural ou urbano, religião, convicções políticas ou filosóficas, deficiência física ou mental, por ter cumprido pena nem por qualquer particularidade ou condição.”

 Vejam o tamanho da má fé! 
O texto JÁ DIZ que NINGUEM SERÁ PREJUDICADO OU PRIVILEGIADO

Como, em sã consciencia, de boa fé, com espírito desarmado, fraterno, cristão, é possível alguem tirar deste texto a absurda "guerra santa" que promoveram?
Leia a nota de Samuel Malafaia na íntegra:
“Em virtude da recente polêmica da PEC 23/2007, em alguns sites, quero informar que em várias ocasiões na Alerj manifestei veementemente minha opinião em favor da família, constituída por pai, mãe, homem, macho e fêmea. Assim fui ensinado, assim tenho minha opinião como cristão, como pai, como homem, como cidadão e como parlamentar. Por vezes, fui até vaiado pela platéia presente no plenário por ser contra privilégios para homossexuais.
O que não posso é ser preconceituoso, principalmente como parlamentar, pois a Constituição do Estado do Rio de Janeiro estabelece em seu art. 9º, §1º que: “ninguém será discriminado, prejudicado ou privilegiado em razão de nascimento, idade, etnia, raça, cor, sexo, estado civil, trabalho rural ou urbano, religião, convicções políticas ou filosóficas, deficiência física ou mental, por ter cumprido pena nem por qualquer particularidade ou condição.” A partir daí, quero esclarecer que na votação do dia 25 de maio, em primeira votação, por orientação das bancadas dos Partidos, vários evangélicos, inclusive eu, votamos a favor da tal emenda.
Naquele momento, entendemos que a proposta de emenda apenas reforçava a não discriminação pura e simples da pessoa homossexual, e que tão pouco não visava privilegiá-los. Note-se que seria uma grande contradição que a bancada evangélica – em quase sua totalidade – votasse a favor de uma idéia que vai de encontro aos preceitos bíblicos e nossas crenças; e até mesmo às nossas plataformas políticas, se não fosse em decorrência de uma interpretação errônea no afã de uma calorosa discussão em plenário. Aprofundamos nossa análise e entendemos que a PEC 23/2007 apresenta artimanhas que possibilitariam fundamentar legalmente condutas tão reprováveis em nossa sociedade, que visam destruir a família.
Dessa forma, estamos nos articulando para derrubar tal projeto na segunda votação. Portanto, lamentamos não ter percebido a sutileza das intenções do projeto na primeira votação, mas repudiamos as manifestações que queiram nos apresentar como contrários à causa do Evangelho.
Samuel Malafaia – Deputado Estadual”
Fonte: Gospel Prime
Artigo retirado do notícias gospel prime - http://noticias.gospelprime.com.br
Endereço do artigo: http://noticias.gospelprime.com.br/samuel-malafaia-explica-o-voto-favoravel-a-pec-232007/
 O pior disso tudo, é que para a televisão, o discurso é de amor, fraternidade, tolerância, ecumenismo: Globo (2:02 minutos); Sbt (1:08 minuto); Band (1:27)

Veja, agora, a ameaça que faz o pastor Silas Malafaia:

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Deputada JANIRA ROCHA respondeu hoje à Myrian Rios

Na sessão de hoje, dia 29, na ALERJ, a deputada Janira Rocha (PSOL) usou da palavra para responder à deputada Myrian Rios. Os destaques são meus. O sítio da deputada, de onde retirei o texto, é este aqui.

A SRA. JANIRA ROCHA – Na verdade eu gostaria que o nosso tempo hoje tivesse mais do que dez minutos porque temos várias coisas para falar e não dá para falar de tudo ao mesmo tempo. Quero falar sobre um depoimento que eu vi na internet, da Deputada Myrian Rios. Esse depoimento da Deputada Myrian Rios de alguma forma me instigou a vir à tribuna para dialogar um pouco sobre as questões levantadas pela Deputada que, no seu pronunciamento, disse das suas preocupações com a PEC 23, declarando seu voto contrário. Segundo a Deputada, a PEC 23 garantiria a homossexuais, à comunidade LGBT, direitos que impediriam a Deputada, por exemplo, de demitir da sua casa uma empregada, ou empregado, caso fosse lésbica ou homossexual, dizendo que se sentiria tolhida.

Na mentalidade da Deputada homossexualidade e pedofilia são conceitos que andam juntos. Então, se ela contratasse um homossexual, que para ela seria um pedófilo, ela não poderia demitir essa pessoa caso viesse a abusar sexualmente dos seus filhos. Esse foi um depoimento dado aqui pela Deputada e que está circulando na internet.


Eu queria dialogar com esse entendimento apresentado aqui pela Deputada. Também já vi hoje que ela fez uma carta, que também já está na internet, fazendo uma autocrítica por ter feito essa vinculação do homossexualismo com a pedofilia. No entanto, nessa carta, ela também reafirma a questão da criminalização, inclusive na questão do mercado de trabalho dos homossexuais dada a sua condição. Eu acho importante falar sobre isso neste momento, porque por outro lado existe uma parcela de parlamentares e uma parcela da sociedade lá fora que está buscando trabalhar a não criminalização dos homossexuais por serem homossexuais.


A Organização Mundial de Saúde coloca a pedofilia como doença. E pedofilia é uma doença, uma doença que leva a comportamentos extremamente perigosos, danosos. A sociedade não aceita e não comunga com esse comportamento da pedofilia.


O homossexualismo há muito tempo foi separado pela Organização Mundial da Saúde do rol de doenças. Isso está colocado para toda comunidade científica e para toda pessoa que, minimamente esclarecida, queria ver.

Então, qual é o debate de fundo? A Deputada se coloca como católica e que, por ser católica, deveria defender então determinadas posições que seriam as posições da igreja com relação ao assunto. Primeiro, eu quero dizer que tive origens na Juventude Operária Católica e posso assegurar que dentro da Igreja Católica – como também dentro das comunidades evangélicas nem todo mundo comunga com esse tipo de pensamento expresso aqui pela Deputada Myrian Rios.


Mais do que isso: não podemos pegar determinadas questões e generalizá-las, dando-lhes poder como se verdade fossem, senão a gente se arrisca a criminalizar determinados comportamentos e a transformar esses comportamentos, como se eles fossem o comportamento de todo mundo. Vou dar um exemplo: foram feitas aí na imprensa, de forma farta nos últimos anos, denúncias da prática de pedofilia, dentro da Igreja Católica, por pelo menos três ou quatro gerações, o que gerou uma crise dentro da Igreja Católica. Vários padres foram afastados. E isso significa dizer que a Igreja Católica, a instituição, assina embaixo da prática da pedofilia? Que pratica e endossa esse tipo de comportamento? Não, isso não pode ser dito, porque não é verdade.


A Igreja Católica, obviamente, é uma instituição com a qual tenho lá minhas diferenças hoje em dia, mas é extremamente errado e equivocado dizer que ela promove a pedofilia, porque durante quatro décadas, vários padres, em vários países do mundo, praticaram pedofilia. Seria criminoso de nossa parte se nós quiséssemos utilizar esse fato histórico e inconteste para generalizar e enquadrar alguém em determinado comportamento.

Quero dizer que tenho um profundo respeito pela Igreja Católica, como tenho profundo respeito pelas várias denominações evangélicas. E acho que as igrejas, as religiões, não deveriam utilizar esse tipo de debate para entrar num debate que pertence à esfera política – um debate de uma esfera de outro comportamento.


A SRA. JANIRA ROCHA – Agradeço os apartes, eu estou de pleno acordo com o que foi dito aqui, tanto pelo Gilberto quanto pelo Deputado Márcio Pacheco. Quero dizer aqui que temos que ter bastante cuidado. Hoje, por exemplo, qualquer pesquisa científica que a pedofilia é uma prática heterossexual que acontece na família. Esse é um debate inclusive que deveria ser trazido ao Parlamento como de saúde pública. É importante trazê-lo aqui também. É importante para todos aqueles que estão preocupados em discutir a família, que a façamos esse debate e discutir, por exemplo, como essa prática se expressa hoje nos bairros mais pobres, nos rincões mais pobres da população.

Ainda hoje muitas crianças e adolescentes são abusados sexualmente dentro das suas próprias casas, muitas vezes por familiares. Então essa discussão tem que ser feita da forma como ela realmente acontece. Eu quero dizer bem claro: eu não tenho acordo com todas as práticas do movimento LGBT. Eu, por exemplo, não acho que a melhor forma de manifestação do programa político do movimento seja através de marchas carnavalescas. Eu não sou a favor, por exemplo, de usar santos da Igreja Católica, ou qualquer outro símbolo de qualquer outra igreja, com camisinhas, enfim, tentar fazer um carnaval disso. Eu acho que são práticas equivocadas, mas isso é o que eu penso.

Eu não acho que a emancipação LGBT que eu defendo seja para criar consumidores de produtos que estão aí disponíveis de um mercado que é crescente. A minha demanda, na defesa da comunidade LGBT, é a defesa sim da vida. Várias igrejas vêm aqui dizer que defendem a família e que defendem a vida. Então é necessário defender a vida também da comunidade LGBT. Está certo?

Eu fiquei, como uma mãe que tem um filho de 16 anos, completamente transtornada e angustiada no dia que eu abri o jornal e vi a foto do Alexandre Ivo, um jovem adolescente de 14 anos que foi barbaramente assassinado lá em São Gonçalo, e até hoje ninguém foi preso porque supostamente ele era um homossexual. Um jovem, que inclusive se parecia muito com o meu filho, foi assassinado. Então, se é para ter amor ao próximo, se é para defender a vida, vamos defender a vida de todo mundo. Quando eu venho aqui fazer esse debate eu quero defender a vida de todos, inclusive a de homossexuais que hoje são barbaramente assassinados.

Ontem à noite, no programa Eu repórter da Rede Globo, passou uma reportagem sobre uma manifestação LGBT em São Paulo onde a repórter foi agredida por pessoas de fora da mesma, porque ela foi confundida com uma lésbica. Bateram na repórter que foi confundida com uma lésbica. É esse tipo de coisa que não podemos permitir. Não adianta dizer que tem amor pelo próximo, que ama o homossexual, que tá tudo certo, mas ao mesmo tempo incentivar com as suas palavras esse tipo de prática. Se é para defender a família vamos defendê-las todas; se é para ter amor ao próximo, vamos ter a todos, inclusive aos homossexuais que são cassados como marginais, assassinados de forma bárbara, de forma brusca.

Acho que o pronunciamento da Deputada causou um desserviço, na medida em que, mais uma vez, tenta confundir quem o ouve. Esse tipo de discurso coloca o homossexual junto à pedofilia e o criminaliza no mercado de trabalho, na sua possibilidade de crescer profissionalmente. Assinalo essas diferenças e acho que a Casa tem que fazer este debate.

Seria muito bom marcarmos uma audiência pública nesta Casa a que estivessem presentes evangélicos, católicos, espíritas, ateus, para sentarmos e fazermos um debate de adultos, um debate honesto sobre isso. Acho que a nossa responsabilidade ultrapassa as religiões. Nós somos parlamentares do povo e precisamos ser sérios com demandas que são sérias na vida das pessoas.

Muito obrigada. Desculpe-me pelo tempo.

O SR. PRESIDENTE (José Luiz Nanci) – Obrigado, Deputada Janira.

Em nome de Deus, deputada Myrian Rios!

Em nome de Deus, deputada Myrian Rios,

A senhora acredita realmente que, se constar na lei antidiscriminação o termo "orientação sexual e identidade de gênero", as pessoas poderão ser presas se demitirem algum "homossexual" que por ventura tenha praticado algum delito? Ou que tenha procedido mal no seu ofício?

A proteção já existe, por exemplo, para negros, deficientes físicos.

A senhora, em sã consciencia, entende que essa proteção produziu intranquilidade e insegurança nas relações sociais no país?

A Constituição da República, deputada, diz textualmente que ninguem poderá ser alvo de discriminação SEJA POR QUAL MOTIVO FOR.

Os setores alvo de violência e discriminação vem sendo objeto de proteção: crianças, adolescentes, idosos, deficientes, negros, mulheres, religiosos (de QUALQUER CREDO, inclusive aqueles que NÃO TEM CREDO ALGUM).

Então, deputada, por que é que apenas os LGBTs, acaso uma lei venha a protegê-los da infâmia da violência, espancamentos, empalamentos, assassinatos, promoveriam uma situação social de insegurança jurídica?

A senhora consegue dormir com a consciência em paz sabendo que está dedicando a sua vida e o seu trabalho como parlamentar (que é remunerado tambem com o dinheiro dos tributos dos "homossexuais"), que deveria ser para propor e votar leis do interesse DA POPULAÇÃO e em observância AOS PRECEITOS CONTITUCIONAIS, para PERSEGUIR E IMPEDIR QUE UMA PARTE DA SOCIEDADE CONQUISTE A PLENA CIDADANIA?

A senhora sabe, deputada, quantos e como são assassinados os homossexuais?

A senhora sabe como foi assasinado o menino Alexandre Ivo Rajão Tomé, de 12 anos, há um anos atrás em São Gonçalo?

A senhora sabe, deputada?

Em nome de Deus, deputada, faça um exame de consciência! Consulte o seu coração! Consulte o seu travesseiro. Reflita, deputada.

Isso é atitude cristã? O Cristo ensinou isto, deputada? A senhora leu direitinho o texto do padre de Brasília que a senhora colocou na sua página?

Que Deus piedade da senhora e daqueles que agem como a senhora.

Veja o tamanho da má fé e da determinação em odiar!

Veja a insanidade deste Padre. 
E os fiéis católicos se limitam a reproduzir, sem parar pra pensar. 

Quem, em sã consciência acredita que as coisas ocorrem desse jeito? Acaso foi assim que aconteceu com a lei antirracismo? Com a lei que protege idosos? Com a lei que protege crianças? Deficientes físicos? 

 - É muita má fé junta! É muito ódio, muita intolerância, muita arrogância!
Como é que alguem pode ocupar um púlpito, um altar, e, a partir dele, disseminar tanto ódio? E, pior, usando para isso o nome de Deus e de Jesus Cristo?


Amigos,
Convido a todos a particiarem da Marcha pela Família, nesta
quarta-feira, em frente ao Congresso Nacional.
Relembrando que esse ”Projeto de Lei 122″ pode transformar em criminosa
qualquer pessoa ou instituição que tenha posição contrária ao incentivo
e prática homossexual.
Qualquer pai, mãe, sacerdote, adulto ou jovem que for acusado de
homofobia deverá ir prá cadeia. Não precisa agredir ninguém,
ofender ninguém, basta que alguém acuse vc de uma atitude homofóbica
e sua vida estará toda enrolada. Vcs já pensaram em quantas acusações
falsas podem surgir? Se vc contratar um funcionário que tenha
essa opção sexual e depois de um tempo de serviço ele se demonstrar
desleixado, irresponsável (será que só os héteros podem ser assim?) e
for mandado embora por justa causa, é só ele dizer que está sendo
perseguido por causa da opção sexual e essa lei infeliz criminaliza
imediatamente o empregador, que pode ir prá cadeia sem
direito a fiança. Acreditem, é assim mesmo..
Se vc não puder pagar mais sua empregada e se por uma situação

do destino essa pessoa for homossexual, será melhor vc se
endividar pois se houver demissão, ela pode enquadrar vc na lei.
Se vc for contratar alguém para trabalhar na sua casa ou empresa e
na primeira conversa sentir que o candidato(a) não tem
as qualificações devidas, se a pessoa tiver a tal opção, adivinha
o que acontece? Ou seja, ficaremos amarrados, amordaçados e
mesmo que vc chore ou grite dizendo que não é homofóbico, mas
que apenas pensa diferente e tinha esse direito antes, vai ser
chamado de mentiroso e vai ouvir que o seu direito de pensar
diferente acabou.
Mesmo que o Juiz ache injusto, a Lei mandará prender. E agora??
Por isso não podemos permitir que essa loucura vire lei.
Gente, o nosso silêncio e acomodação podem ser nossos

maiores inimigos!
Sendo assim, coragem! Essa caminhada vai fazer bem pra vc,
pra mim e pra todos os cidadãos com bom senso.
Pe. Paulo Sérgio Casteliano -
Vigário Episcopal da Arquidiocese de Brasília

SESSÃO DESAGRAVO LGBTs ALERJ

Muita gente assistiu aos vídeos da ALERJ no último dia 22, com as falas dos deputados durante a sessão de votação da PEC 23/2007.

Viram e ouviram a quantidade de injúria proferida pelos parlamentares fundamentalistas para impedir que os LGBTTs tenham assegurados os seus direitos.
Eu me senti muito incomodada com tanta mentira, ma fé, ignorância, manipulação. Não consigo admitir que parlamentares, eleitos para legislar em nome de todo o povo sob os mandamentos da Constituição da República, possam misturar suas ideias religiosas com o direito à vida e à dignidade alheios.

Não consigo admitir que parlamentares atuem em nosso nome e com o nosso direito com tamanha leviandade, ignorância, má fé.

Não tem o cuidado em saber do que se trata. O que é que significa orientação sexual; o que significa pedofilia; o que significa identidade de gênero; transexualidade; travestilidade.

Não. Vão a uma das esferas do Legislativo, uma das dimensões da República (laica!) democrática para, num medievalismo inaceitável, promover uma nova Inquisição.

Diante disso, não vejo outra alternativa a não ser clamar aos deputados da ALERJ, ao Presidente da ALERJ, a todos os cidadãos comprometidos com a democracia, a república, o estado laico, que, em nome de Deus, em nome de Jeová, de Tupã, de Oxalá, Maomé, Abraão, de todos os santos e arcanjos, de todos os orixás - porque o Brasil é miscigenado, fraterno e é assim que deve continuar a ser; é assim que está escrito na Constituição da República! -, mas, sobretudo, EM NOME DOS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DA IGUALDADE DE TODOS PERANTE A LEI; DO PRINCÍPIO NA NÃO DISCRIMINAÇÃO; DA AUTODETERMINAÇÃO; DA LAICIDADE; DA INCLUSÃO E DA FRATERNIDADE - todos fixados na Constituição da República -, EM NOME DE TODOS OS TRATADOS E ACORDOS INTERNACIONAIS FIRMADOS PELO BRASIL EM DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS E CONTRA QUALQUER PRÁTICA DISCRIMINATÓRIA E, MAIS RECENTEMENTE, PELA RESOLUÇÃO DA ONU DE QUE SEJAM REALIZADOS ESFORÇOS EM TODOS OS PAÍSES PARA QUE SE ELIMINE DE UMA VEZ POR TODAS A DISCRIMINAÇÃO E O PRECONCEITO CONTRA LGBTTs, promovam uma SESSÃO DE DESAGRAVO AOS LGBTTs na ALERJ.

Uma sessão pacífica, ordeira, fraterna, cívica. Para mostrar a essas pessoas que gays, lésbicas, travestis, transexuais, bissexuais não são nada mais nada menos do que seres humanos iguais em direitos e obrigações.

Se você concorda, se você tambem se sentiu e continua se sentindo indignado/a, por favor, envie mensagens aos deputados pedindo que eles façam esse requerimento.

Essa PEC 23/2007 que os fundamentalistas se mobilizaram para impedir fosse aprovada é um simples acréscimo da expressão "orientação sexual" no artigo da Constituição do estado do Rio de Janeiro que, seguindo a Constituição da República, proibe toda e qualquer espécie de atos e práticas de discriminação. Só e somente isto. Nada além. Não estabelece nenhuma penalidade. Não cerceia direito de ninguem. Não é absolutamente inconstitucional - pois ela segue o que dis a Constituição da República, que não é admitida nenhuma forma de discriminação. Leia, mais abaixo, a fundamentação do projeto. Se não assistiu ao vídeo com as falas dos deputados (não foi apenas a Myrian rios a fundamentalista), assista; está tambem a qui outra vez.
Art. 9º - (...)
§ 1º - Ninguém será discriminado, prejudicado ou privilegiado em razão de nascimento, idade, etnia, raça, cor, sexo, orientação sexual, estado civil, trabalho rural ou urbano, religião, convicções políticas ou filosóficas, deficiência física ou mental, por ter cumprido pena nem por qualquer particularidade ou condição.
Ou seja, apenas mais um exemplo de motivações de preconceito, dentre tantos que são diariamente praticados.

Pois bem. Aprovada em primeira votação em 26/05/2011, retornou para a 2ª votação. Nessa 1ª votação, ela foi aprovada por 47 votos, contra 02. Nenhuma abstenção.

Daí, os pastores funtamentalistas "cristãos" (que de cristãos não tem nada, pois não praticam o amor fraterno pregado pelo Cristo) passaram a disseminar na internet - e provavelmente nas igrejas - uma verdadeira batalha CONTRA a aprovação em 2ª votação.

Até aí nada demais, visto que estamos em um regime que - diferente do que os fundamentalistas querem - é democrático.

O problema é que, ao que parece, muitas pessoas pessoas embarcaram nessa onde medieval, sem se dar ao trabalho de refletir sobre efetivamente qual era o bem que se buscava proteger - o bem da vida digna, assegurado na Constituição da República a TODA PESSOA HUMANA, sem qualquer distinção.
Outras, de tão envenenadas pelo ódio e pelo preconceito (que afirmam e reafirmam que não possuem), convictas de que gays, lésbicas, travestis, transexuais, bissexuais estão possuidos pelo demônio, fazem "abominação", entendem que, por isso - por conta de SUAS ÍNTIMAS CONVICÇÕES RELIGIOSAS, eles, os LGBTTs, que nada tem a ver com essas crenças, NÃO DEVEM JAMAIS DESFRUTAR DE QUALQUER PROTEÇÃO CIDADÃ, NÃO DEVEM CONQUISTAR NENHUM DIREITO. Apenas pagar impostos.

E passaram a disseminar essa sinistra e nefasta e inacreditável campanha. Inacreditável porque é surpreendente que no século XXI, na cidade do Rio de Janeiro, a gente perceba o quanto existe gente inculta, teleguiada, arcaica, preconceituosa, violenta - sim, porque o nome disso é violência simbólica!, violência cultural, psíquica.

E, como o movimento LGBT no Rio de Janeiro não foi suficientemente eficaz em sua comunicação, não organizou uma campanha de esclarecimento, explicando, informando, o que se viu foi, durante a sessão, uma série de deputados e deputadas fazendo toda a sorte de injúria: associando homossexualidade à pedofilia, à imoralidade; que os LGBTs estão querendo dominar a nação e outras sandices incríveis de de supor pudesse ainda alguem praticar, acreditar.

Veja alguns links:
http://www.guiame.com.br/v4/126774-1692-Silas-Malafaia-quot-A-PEC-23-2007-uma-emenda-inconstitucional-quot-.html
http://olharcristao.blogspot.com/2011/06/pec-232007-alerta-sobre-o-pl-122-do-rio.html

Aqui você tem a relação dos emeios de TODOS os deputados, conforme publicação do Silas Malafaia, no olhar cristão, acima:
claisemariazito@alerj.rj.gov.br; gersonbergher@alerj.rj.gov.br; lucinha@alerj.rj.gov.br; mailto:gracamatos@alerj.rj.gov.br; paulomelo@alerj.rj.gov.br; pedroaugusto@alerj.rj.gov.br; pedrofernandes@alerj.rj.gov.br; rafaelpicciani@alerj.rj.gov.br; robertodinamite@alerj.rj.gov.br; gustavotutuca@alerj.rj.gov.br; marcelosimao@alerj.rj.gov.br; rafaeldogordo@alerj.rj.gov.br; rogeriocabral@alerj.rj.gov.br; gilbertopalmares@alerj.rj.gov.br; inespandelo@alerj.rj.gov.br; niltonsalomao@alerj.rj.gov.br; robsonleite@alerj.rj.gov.br; zaqueuteixeira@alerj.rj.gov.br; gracapereira@alerj.rj.gov.br; enfermeirarejane@alerj.rj.gov.br; aspasiacamargo@alerj.rj.gov.br; xandrinho@alerj.rj.gov.br; marcosabrahao@alerj.rj.gov.br; dionisiolins@alerj.rj.gov.br; flaviobolsonaro@alerj.rj.gov.br; andreiabusatto@alerj.rj.gov.br; bebeto@alerj.rj.gov.br; brunocorreia@alerj.rj.gov.br; cidinhacampos@alerj.rj.gov.br; janiomendes@alerj.rj.gov.br; luizmartins@alerj.rj.gov.br; marcossoares@alerj.rj.gov.br; myrianrios@alerj.rj.gov.br; pauloramos@alerj.rj.gov.br; ricardoabrao@alerj.rj.gov.br; wagnermontes@alerj.rj.gov.br; andrecorrea@alerj.rj.gov.br; comtebittencourt@alerj.rj.gov.br; drjoseluiznanci@alerj.rj.gov.br; geraldomoreira@alerj.rj.gov.br; coroneljairo@alerj.rj.gov.br; marciopacheco@alerj.rj.gov.br; sabino@alerj.rj.gov.br; atilanunes@alerj.rj.gov.br; altineucortes@alerj.rj.gov.br; clarissagarotinho@alerj.rj.gov.br; fabiosilva@alerj.rj.gov.br; iranildocampos@alerj.rj.gov.br; migueljeovani@alerj.rj.gov.br; robertohenriques@alerj.rj.gov.br; samuelmalafaia@alerj.rj.gov.br; samuquinha@alerj.rj.gov.br; alessandrocalazans@alerj.rj.gov.br; joaopeixoto@alerj.rj.gov.br; alexandrecorrea@alerj.rj.gov.br; rosangelagomes@alerj.rj.gov.br; janirarocha@alerj.rj.gov.br; marcelofreixo@alerj.rj.gov.br; marcusvinicius@alerj.rj.gov.br;
thiagopampolha@alerj.rj.gov.br; waguinho@alerj.rj.gov.br
 Fonte: Vitoria em Cristo


 PROPOSTA DE EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 23/2007

EMENTA:
MODIFICA A REDAÇÃO DO ART. 9º, §1º DA CONSTITUIÇÃO ESTADUAL.


Autor: Deputado GILBERTO PALMARES

A ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

RESOLVE:

Art. 1º - O Art. 9º, § 1º da Constituição Estadual passa a ter a seguinte redação:

Art. 9º - (...)

§ 1º - Ninguém será discriminado, prejudicado ou privilegiado em razão de nascimento, idade, etnia, raça, cor, sexo, orientação sexual, estado civil, trabalho rural ou urbano, religião, convicções políticas ou filosóficas, deficiência física ou mental, por ter cumprido pena nem por qualquer particularidade ou condição.

Art. 2º - Esta Emenda Constitucional entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Plenário Barbosa Lima Sobrinho, de novembro de 2007.

GILBERTO PALMARES
Deputado Estadual


JUSTIFICATIVA

Trata-se de Proposta de Emenda à Constituição que “MODIFICA A REDAÇÃO DO ART. 9º, §1º DA CONSTITUIÇÃO ESTADUAL.”, cujo objetivo é a inclusão da orientação sexual como direito individual e coletivo dos cidadãos fluminenses.

O Artigo 5º da CRFB preconiza que: “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (...)”

Neste artigo encontra-se esculpido o princípio da igualdade, os quais materializam poderes de titularidade coletiva atribuídos genericamente a todas as formações sociais, consagram a solidariedade principiológica e constituem um momento importante no processo de desenvolvimento, expansão e reconhecimento dos direitos humanos, que são reivindicações morais, e nascem quando podem, quando devem nascer, ou seja, depende do momento político vivido em cada sociedade, sendo estes valores fundamentais indisponíveis. Portanto, a discriminação que se baseia em atributo ou qualidade do indivíduo, como a raça, o sexo, a orientação sexual, etc., é inconstitucional.

A homosexualidade é a atração afetiva e sexual por uma pessoa do mesmo sexo; já orientação sexual é a atração afetiva ou sexual que uma pessoa sente por outra. É importante dizer que embora as pessoas tenham a possibilidade de escolher se vamos ou não demonstrar nossos sentimentos, os psicólogos não consideram que a opção sexual possa ser modificada por ato da vontade humana. Logo, é preciso que nossa sociedade exclua toda e qualquer forma de discriminação, para enfim tornarmo-nos um país mais justo e igualitário, ou seja, um país de todos, um Rio de Janeiro de todos os seus filhos.

De acordo com estudos realizados por diferentes entidades e, sobretudo, pela Secretaria dos Direitos Humanos da ONU, o Brasil é um dos países que mais apresenta atitudes homofóbicas, através de pressões psicológicas, ameaças e agressões físicas. Indubitavelmente este quadro constitui uma nódoa para a sociedade brasileira, que precisa o quanto antes fortalecer a democracia nas mais diversas dimensões de sua sociedade.

O dia 28 de junho marca o início do movimento organizado contra a discriminação por orientação sexual. Neste dia, no ano de 1969, na cidade de Nova York, os homossexuais, pela primeira vez, reagiram publicamente à discriminação que vinham sofrendo. Este dia passou a ser então internacionalmente reconhecido como o dia do combate à homofobia.

Vale mencionar que outros Estados-membros já efetuaram a inclusão da orientação sexual como direito individual e coletivo, dentre os quais podemos citar Mato Grosso, Pará e Sergipe.[1]

Pelo exposto, e por se tratar de matéria de extrema relevância para a sociedade Fluminense, por se referir a promoção da igualdade entre os cidadãos, conclamamos todos os parlamentares desta Casa de Leis a aprovarem a presente proposição.

Processo: 20070100023

Entrada:
27/11/2007
Protocolo:10531

Publicação no DO: 28/11/2007
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Juiz paulista fala sobre a cruzada religiosa contra os direitos civis LGBT

Hoje o texto é do juiz Marcelo Semer, de São Paulo. Foi publicado originalmente no sítio Terra Magazine. O destaque em vermelho é de minha autoria. Os links ali introduzidos, tambem.
Marcelo é ex-presidente da Associação Juízes para a Democracia, é autor de Crime Impossível e a proteção de bens jurídicos (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Coordenou a edição do livro Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho (LTr). É tambem o autor do Blog Sem Juízo, de quem extraí o texto integral da sentença do juiz Fernando Henrique Pinto, da comarca de Jacareí, SP, a primeira que, aplicando a decisão vinculante do STF, converteu a união estável homossexual em casamento. 
Boa leitura!

Cruzada religiosa combate direitos civis 

dos gays

Marcelo Semer
De São Paulo
O vereador Carlos Apolinário, ligado à Assembleia de Deus, apresentou proposta para criar em São Paulo, o dia do "orgulho hetero", levando o projeto para votação às vésperas da Parada Gay.

A Marcha para Jesus virou palco de repúdio à decisão judicial que garantiu a união estável homoafetiva, tendo como principal estandarte que "o verdadeiro Supremo é Deus". 

A deputada Myriam Rios, hoje missionária católica, fez pronunciamento na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro propagando a expressão "orientação sexual pedófila". Dizia ter medo da proximidade de uma babá lésbica a filhas pequenas ou do assédio de um motorista travesti sobre seus meninos. 

Porque a incorporação de direitos civis aos homossexuais está incomodando tanto assim aos ativistas da religião? 

Não são eles os primeiros que deveriam se destacar pela defesa do amor, da solidariedade e do abrigo aos mais vulneráveis? 

Onde estão as tradicionais preocupações com desigualdades sociais e manifestações de fraternidade? 

Há quem diga que os grupos religiosos se sentiram intimidados com a proposta de criminalizar a homofobia. 

Paradoxo dos paradoxos, pois a punição do preconceito é justamente o combustível para a liberdade de crença. 

Em algum lugar do mundo, membros das mais diversas religiões já sentiram na pele o terror do preconceito e da intolerância. Como reproduzi-lo, então? 

Depois da decisão do STF que autorizou a Marcha da Maconha, reconhecendo o legítimo direito à manifestação, muitos disseram em um misto de birra e revolta: se vale defender a maconha, vale falar qualquer coisa. Acabou-se a mística da homofobia. 

É uma ideia equivocada. 

Como bem explicou o ministro Celso de Mello, em voto primoroso, a liberdade deve ser garantida para expressar os mais diversos pensamentos. Mas nunca para ferir -o Pacto de San José da Costa Rica, que o país subscreveu, exclui do âmbito protetivo da liberdade de expressão todo estímulo ao ódio e ao preconceito. 

Propor a legalização da maconha é legal. Dizer que os homossexuais são promíscuos, não. 

Reverenciar o "orgulho hetero" também não é o mesmo que fazer uma parada gay -assim como prestigiar a consciência negra não se equipara em louvar o "orgulho branco", típico dos sites neonazistas. 

A diferença que existe entre eles reside na situação de poder e de vulnerabilidade. 

Os movimentos negros e gays se organizam pela igualdade e procuram combater a discriminação - o "poder branco", memória do arianismo, busca exatamente reavivá-la. Não quer igualdade, quer supremacia. 

Basta ver que a proposta do "orgulho hetero" se impõe como um resgate da "moral e dos bons costumes", tal como uma verdadeira cruzada. 

Por fim, mas não menos importante, a absurda vinculação entre homossexualidade e pedofilia. 

Não é grave apenas pelo que mostra -um profundo desconhecimento da vida. Mas, sobretudo, pelo que esconde. 

Jogar o defeito no outro, no diferente, naquilo que não nos pertence, é o primeiro passo para esconder o mal que nos cerca, e assim evitar sua punição. 


Não se trata de tara, perversão ou qualquer outro atributo de fundo moralista. É simplesmente violência. 

Misturar as estações não é ruim apenas por propagar um preconceito infundado. Mas por nos distanciar do problema e, em consequência, da solução. 

Quando um dogma supera as lições que a vida nos traz, quando o apego à filosofia é maior que o amparo a dor, quando até o sempre solidário cerra os punhos, um sinal de alerta se acende. 

É preciso relembrar que somos todos humanos.


Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Ontem horrores, hoje alegria: Das falas na ALERJ à 1ª sentença convolando união estável homossexual em casamento

Ainda estou horrorizada com tudo o que ouvi e assisti nas falas dos deputados na ALERJ, na votação da PEC 23/2007.

Eis a tônica dos parlamentares "cristãos" (em aspas porque o verdadeiro cristianismo é antes de mais nada, amor, compreensão, acolhimento, não essa turba de raça de víboras a instilar ódio, desinformação, preconceito, segregação): 

"Não concordo com o seu modo de vida, a "minha religião" acha errado, portanto, não lhes reconheço o direito de terem um emprego, constituírem família, construírem, enfim, relações sólidas, estruturadas sobre o compromisso do afeto e do cuidado mútuos; não lhes dou o direito de viverem em paz, a salvo das perseguições, das zombarias, dos espancamentos, dos assassinatos.
Só e somente por isso - pela minha forma de ver o mundo; pelo meu entendimento pessoal, privado, estruturado pela minha religião -, não lhes reconheço o direito de serem felizes, de viverem em paz." 

Esta é a mensagem que transmitem. Este o seu verdadeiro conteúdo. 
Assista o vídeo. Trago ele novamente aqui. Está no final da postagem. Tenha paciência, mas assista até o fim. 

Ouça com cuidado, preste atenção como se elaboram discursos oportunistas (como o do deputado Wagner Montes, que diz integrar a Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT, ser contra o preconceito, haver revisto sua posição quanto à pena de morte - que no passado defendia -, para ao final concluir ser contra a PEC), os de má-fé (como me parece ser  o do Flávio Bolsonaro e o do Edino Fonseca).

Ouça, sobretudo, aqueles que se mostram incoerentes, onde as premissas não levam à conclusão, como os da deputada Clarissa Garotinho, que, em essência, afirma o que destaquei acima, em vermelho. 

Preste atenção na má fé do deputado Bolsonaro que, por ser contra a conquista da isonomia jurídica dos LGBTs, por ser contra a sua cidadania plena, tambem é contra a que eles, os LGBTs, tenham amparo do Estado (via normas legais) contra as práticas discriminatórias, violentas.

Ou seja, 
"acho "homossexualismo" errado, uma falta de vergonha; por isso, em razão desse meu entendimento, na qualidade de parlamentar republicano, não lhes reconheço o direito à vida, à integridade; farei tudo o que estiver ao meu alcance para impedir que vocês sejam respeitados, tenham dignidade, sejam felizes, vivam em paz."
***
Mas, se por um lado somos submetidos a esse tipo de indigência mental, por outro temos pessoas equilibradas, informadas, humanistas, amantes dos Direitos Humanos - como o juiz Fernando Henrique Pinto, da comarca de Jacareí, em São Paulo, que, julgando pedido de conversão de união estável em casamento, nos termos da decisão vinculante do STF e do sistema constitucional, concedeu a conversão requerida.

A íntegra da sentença foi divulgada pelo tambem juiz Marcelo Semer, em seu blog "Sem Juízo".Os negritos, sublinhados e colorizações são meus.

Vistos.

LUIZ ANDRÉ DE REZENDE MORESI e JOSÉ SÉRGIO SANTOS DE SOUSA, ambos do sexo masculino, demais qualificações nos autos, protocolaram pedido de conversão de união estável em casamento. Instruíram o pedido com escritura pública lavrada em 17/05/2011, perante o 1º Tabelião de Notas e de Protestos de Letras e Títulos de Jacareí/SP (livro nº. 705, fls. 017), onde declararam viver em união estável há 8 (oito) anos.

Foi publicado edital e cumpridas todas as formalidades legas para habilitação a casamento, não havendo impugnações.

O pedido foi instruído com declaração de duas testemunhas, no sentido de que os requerentes “mantém convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família”.

O Ministério Público ofertou parecer favorável ao pedido.

É o relatório do necessário.

Fundamento e decido.

Preliminarmente, observa-se que, conforme pedido expresso dos autores, os mesmos pretendem a conversão de alegada união estável em casamento, como permite e prevê o art. 226, § 3º, parte final, da Constituição Federal, e o art. 1.726 do Código Civil. Regulamentando tais dispositivos constitucionais e legais, a Corregedoria Geral da Justiça de São Paulo, em suas Normas de Serviço (Tomo II, Capítulo XVII, Seção V, Subseção IV, art. 135), assim disciplinou o procedimento de conversão da união estável em casamento: “87. A conversão da união estável em casamento deverá ser requerida pelos conviventes perante o Oficial do Registro Civil das Pessoas Naturais de seu domicílio. (Nota 2: Prov. CGJ 25/2005). 87.1. Recebido o requerimento, será iniciado o processo de habilitação previsto nos itens 52 a 74 deste capítulo, devendo constar dos editais que se trata de conversão de união estável em casamento. (Nota 3: Prov. CGJ 25/2005). 87.2. Decorrido o prazo legal do edital, os autos serão encaminhados ao Juiz Corregedor Permanente, salvo se este houver editado portaria nos moldes previstos no item 66 supra. (Nota 4: Provs. CGJ 25/2005 e 14/2006). 87.3. Estando em termos o pedido, será lavrado o assento da conversão da união estável em casamento, independentemente de qualquer solenidade, prescindindo o ato da celebração do matrimônio. (Nota 5: Provs. CGJ 25/2005 e 14/2006). 87.4. O assento da conversão da união estável em casamento será lavrado no Livro "B", exarando-se o determinado no item 81 deste Capítulo, sem a indicação da data da celebração, do nome e assinatura do presidente do ato, dos conviventes e das testemunhas, cujos espaços próprios deverão ser inutilizados, anotando-se no respectivo termo que se trata de conversão de união estável em casamento. (Nota 5: Prov. CGJ 25/2005). BLOCO DE ATUALIZAÇÃO Nº 28 - CAP. XVII - 31 87.5. A conversão da união estável dependerá da superação dos impedimentos legais para o casamento, sujeitando-se à adoção do regime matrimonial de bens, na forma e segundo os preceitos da lei civil. (Nota 1: Prov. CGJ 25/2005). 87.6. Não constará do assento de casamento convertido a partir da união estável, em nenhuma hipótese, a data do início, período ou duração desta. (Nota 2: Prov. CGJ 25/2005)”. Resumindo-se, verifica-se que o casamento civil tradicional difere do casamento por conversão de união estável apenas pela substituição do ato solene da celebração, presidido pelo “juiz de paz”, pela homologação, realizada pelo Juiz de Direito responsável pela Corregedoria Permanente do Registro Civil das Pessoas Naturais da comarca. No mérito, cumpridas todas as formalidades legais, a questão que se coloca para análise é a possibilidade ou não de casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, o que se passa a apreciar.

O maior e mais repetido princípio da Constituição da República Federativa do Brasil é o da igualdade.

A mesma constituição elegeu a “dignidade da pessoa humana” como um de seus “fundamentos” (art. 1º, inciso III), e declarou que o Brasil tem como “objetivos fundamentais” a construção de “uma sociedade livre, justa e solidária”, bem como “promover o bem de todos, SEM PRECONCEITOS de origem, raça, SEXO, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (art. 3º, incisos I e IV).

Também determina a Constituição Federal que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza” e que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição” (art. 5º, inciso I).

Mais à frente, no Título “Da Ordem Social”, a Lei Maior afirma que “a família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado” (art. 226, caput).

Sobre o casamento, a Constituição Federal dispõe que o mesmo “é civil e gratuita a celebração” (art. 226, § 1º), acrescentando que “o casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei” (art. 226, § 1º), e que o casamento “pode ser dissolvido pelo divórcio” (art. 226, § 6º, com redação dada pela Emenda Constitucional nº 66, de 13/07/2010).

A Constituição Federal também declara que “para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável (...) como entidade familiar, DEVENDO A LEI FACILITAR SUA CONVERSÃO EM CASAMENTO”, e que “entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”(art. 226,§§ 3º e 4º).

Em harmonia com o princípio da igualdade, nossa Lei Maior enfatiza que “os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher” (art. 226, § 5º).

Aqui cabe abrir parêntesis para alertar que tal dispositivo não necessariamente declara que casamento existe apenas entre homem e mulher, até porque “sociedade conjugal” não é “casamento”, sendo certo que a primeira sempre pôde ser dissolvida pela “separação” (de fato, judicial e mais recentemente também extrajudicial), e o segundo somente é dissolvido pelo “divórcio”.

Contudo, aparentemente rompendo todo esse contexto de ênfase no princípio da igualdade, a Constituição da República Federativa do Brasil, ao mencionar a união estável em seu art. 226, § 3º, assim se pronunciou: “é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar” (art. 226, §§ 3º).

Mais de duas décadas passadas desde 05/10/1988, quando foi promulgada a Constituição da República Federativa do Brasil, e já se ingressando na segunda década do Século XXI, é público e notório que milhares de pessoas do mesmo sexo (homens e homens; mulheres e mulheres), compartilham a vida juntos como se casados fossem.

A ausência de respaldo jurídico a tal realidade social causou inúmeros prejuízos e injustiças, desde o não reconhecimento do direito à sucessão, passando pela ausência da presunção legal de esforço comum no patrimônio constituído, até a ausência de direitos sociais, como a pensão previdenciária por morte.

Nesse contexto, tramitava perante o Supremo Tribunal Federal a Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental - ADPF nº. 178 (conhecida como a Ação Direta de Inconstitucionalidade - ADI nº. 4277), ajuizada pela Procuradoria-Geral da República, objetivando a declaração de reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. Pedia-se, também, que os mesmos direitos e deveres dos companheiros nas uniões estáveis fossem estendidos aos companheiros nas uniões entre pessoas do mesmo sexo. Também estava em trâmite a ADPF nº. 132, onde o Estado do Rio de Janeiro alegava que o não reconhecimento da união homoafetiva contrariava preceitos fundamentais como igualdade, liberdade (da qual decorre a autonomia da vontade) e o princípio da dignidade da pessoa humana, todos da Constituição Federal, e pediu que o STF aplicasse o regime jurídico das uniões estáveis, previsto no artigo 1.723 do Código Civil, às uniões homoafetivas de funcionários públicos civis do Rio de Janeiro.

Foi nesse contexto que no dia 05 de maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal, no julgamento de tais ações, tendo como relator o Exmo. Ministro Ayres Britto, reconheceu a união estável para casais do mesmo sexo, dando interpretação conforme a Constituição Federal, para excluir qualquer significado do artigo 1.723 do Código Civil que impeça o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. Na ocasião, o Exmo. Ministro Ayres Britto foi seguido pelos Exmos. Ministros Luiz Fux, Ricardo Lewandowski, Joaquim Barbosa, Gilmar Mendes, Marco Aurélio, Celso de Mello e Cezar Peluso, bem como Exma. Ministras Cármen Lúcia Antunes Rocha e Ellen Gracie – decorrendo votação unânime dos presentes.
Tal julgamento, nos termos do art. 102, § 2º, da Constituição Federal, possui “eficácia contra todos e efeito vinculante, relativamente aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal”.

No caso concreto, aplica-se a conhecida fórmula jurídica romana, segundo a qual “onde há a mesma razão, aplica-se o mesmo direito” (“ubi eadem ratio, ibi eadem jus”). Desta forma, os fundamentos de tal julgamento, ainda que sem o dito efeito vinculante, certamente são aplicáveis ao instituto de direito civil denominado casamento, inclusive ao mencionado art. 226, § 5º, da Constituição Federal – o que apenas não foi declarado no mencionado precedente histórico do STF, provavelmente porque não era objeto dos pedidos das ações em análise.


Os prováveis entraves a tal entendimento podem advir de discriminação e/ou de convicções religiosas.

Mas o Estado Brasileiro, do qual o Judiciário é um dos Poderes, repudia constitucionalmente a discriminação e é laico, ou seja, não vinculado a qualquer religião ou organização religiosa.
É bom e necessário que assim seja, pois alguns dogmas ou orientações religiosas muitas vezes se chocam com princípios e garantias da Constituição da República Federativa do Brasil.

A discriminação (ou preconceito) contra homossexuais decorre normalmente de equívoco sobre a origem “psíquica” do homossexualismo, e de dogmas ou orientações religiosas.
O equívoco de origem “psíquica” é a crença que o homossexualismo e suas variantes (transexualismo etc.) ou a união homoafetiva constituem simples opção sexual.


Tal premissa parece equivocada, porque o fenômeno pelo qual um homem ou uma mulher se sente atraído(a) por pessoa do mesmo sexo, a ponto às vezes de repudiar contato íntimo com pessoa do sexo oposto, não se mostra como uma opção. Tudo indica tratar-se de uma característica individual de determinados seres humanos, tão independente da vontade quanto a cor do cabelo, da pele, o caráter, as aptidões etc.

De fato, se no mundo ainda vige forte preconceito contra tais pessoas, e se as mesmas têm de passar por sofrimentos internos, familiares e sociais para se reconhecerem para elas próprias e publicamente com homossexuais – às vezes pagando com a própria vida -, parece que, se pudessem escolher, optariam pela conduta socialmente mais aceita e tida como “normal”.


O dogma ou orientação religiosa que de forma mais marcante se opõe ao casamento entre pessoas do mesmo sexo é a colocação da relação sexual procriadora como principal elemento ou requisito essencial do casamento.

Ocorre que o motivo maior de uma união humana é – ou deveria ser - o Amor, até porque este é pregado pela maioria das religiões, principalmente as cristãs, como o valor e a virtude máxima e fundamental.

Fosse de outra forma, muitas religiões não poderiam aprovar casamentos entre pessoas de sexos opostos que não podem ter filhos. E se assim agem, parecem afrontar a Lei Cristã do Amor, e prejudicam a formação da entidade familiar ou família, que é a base da sociedade.

Por outro enfoque, muitos se preocupam com o potencial envolvimento de crianças ou adolescentes na entidade familiar formada por pessoas do mesmo sexo. Mas, se esquecem que a falta de planejamento familiar, da qual decorre a geração de crianças sem condições mínimas de sustento e educação, bem como atos abomináveis, como, por exemplo, a remessa de recém nascidos em latas de lixo ou o assassinato dos próprios filhos, são diariamente protagonizados por “casais” de sexos opostos ditos “normais” e/ou por pessoas heterossexuais.
O Brasil, entre outras conhecidas mazelas, é palco da falência da segurança pública, das fronteiras sem controle, da disseminação descontrolada das drogas, da endêmica corrupção, e possui a maior carga tributária, a pior distribuição dos tributos arrecadados e o trânsito que mais mata do planeta Terra.

Assim, pode-se afirmar que no Brasil há situações de fato e de direito muito mais graves para se preocupar, que com a vida de dois seres humanos desejosos de paz e felicidade ao seu modo, sem infringir direitos de ninguém.

Finalmente, cabe anotar que no último dia 17 de junho de 2011, o Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou uma resolução histórica destinada a promover a igualdade dos seres humanos, sem distinção de orientação sexual. A resolução, que teve aprovação do Brasil, embora sem ações afirmativas, dispõe que “todos os seres humanos nascem livres e iguais no que diz respeito a sua dignidade e cada um pode se beneficiar do conjunto de direitos e liberdades sem nenhuma distinção”.
Por todo o exposto, HOMOLOGO a disposição de vontades declarada pelos requerentes do presente procedimento, para CONVERTER em CASAMENTO, pelo regime escolhido da comunhão parcial de bens, a união estável dos mesmos - os quais, por força deste casamento, passam a se chamar respectivamente “LUIZ ANDRÉ REZENDE SOUSA MORESI” e “JOSÉ SÉRGIO SOUSA MORESI”.

Tratando-se esta sentença de ato judicial que substitui a celebração, a mesma tem efeitos imediatos. Assim, lavre-se o registro de casamento e providencie-se o necessário às averbações nos registros dos nascimentos das partes.

No mais, nada sendo requerido em 30 (trinta) dias, arquivem-se os autos. P.R.I. Ciência ao Ministério Público.

Jacareí/SP, 27 de junho de 2011.

Fernando Henrique Pinto, Juiz de Direito " 

***

Agora, as nefastas falas dos fundamentalistas e demais preconceituosos. Mas tambem as falas valorosas da deputada Cidinha Campos, do Deputado Marcelo Freixo, Janira Rocha e outros:

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Carta enviada a deputada myrianrios@alerj.rj.gov.br

Prezada Deputada Myrian Rios

Eu, como tantos brasileiros, nos acostumamos a ver artistas de televisao na sala de nossas casas, exercendo o seu trabalho, que e a comunicacao, o entretenimento.


Ligados as artes, a gente termina por fazer generalizacoes e acreditar que todos gostam de se informar, de estar atualizados, de consumir cultura, enfim - como aqueles nossos artistas vindos do teatro - Marilia Pera, Fernanda Montenegro, Antonio Abujamra, Paulo Autran, Italo Rossi etc.


E ai, deputada, a gente acaba na mesma posicao que a senhora - generalizando. Fazendo associacoes automaticas. Como se uma coisa necessariamente levasse a outra - o que nao e verdade.


Assistir o video de sua fala na ALERJ na secao da votacao da PEC 23 deixou isso bastante claro para mim.


O fato de uma pessoa interpretar papeis em novelas nao significa necessaria e automaticamente - embora eu assim preferisse - que essa pessoa tenha amor a cultura, a informacao, que goste de se esclarecer, se atualizar, ouvir posicoes contrarias, tirar as suas duvidas.


Houve um tempo tambem em que eu pensava que as pessoas, os parlamentares, gente que foi eleita para fazer ou vetar leis que interessam A TODOS, que essas pessoas procuravam, antes, SABER, CONHECER, a realidade daquilo que ia votar. 

Que nao confiavam automaticamente em suas crencas, naquilo que pensavam que conheciam - porque a responsabilidade de decidir coisas que afetam a vida de milhares de pessoas e muito grande. 

Entao, deputada, eu pensava que essas pessoas eram cautelosas e bastante rigorosas, procurando, antes de votar ou dar parecer, pesquisar, estudar - assim como alguns atores e atrizes fazem quando querem interpretar bem um personagem.

Vendo o video de sua fala, deputada Myrian Rios, eu percebi que, como a senhora, eu estava fazendo uma projecao e uma generalizacao.


Pois, deputada, em sua fala de justificativa para o seu posicionamento contra a PEC 23, a senhora fez uma associacao automatica entre PEDOFILIA e HOMOSSEXUALIDADE.


Deputada, pelos anos em que a senhora entrou na casa de minha mae e nos distraiu com as suas interpretacoes, pelo teste em que a senhora saiu vitoriosa no programa televisivo que lhe abriu as portas para o trabalho como artista de novelas, eu gostaria de lhe pedir um favor.


Gostaria de lhe pedir que procurasse se informar. Buscasse medicos, antropologos, sociologos, psiquiatras, psicologos, historiadores... Enfim, que procurasse SABER EXATAMENTE O QUE E PEDOFILIA e o que e HOMOSSEXUALIDADE.


Por favor, deputada.


Atenciosa e confiantemente,


Rita Colaco



A gente sabia que o nivel cultural no Brasil e pessimo - mais de 50% da populacao e de analfabetos funcionais, pessoas que ficaram anos na escolas mas que nao conseguem compreender um texto de tres linhas. O consumo de livros no pais e baixissimo. Programas educativos e informativos (de radio, teve, cinema etc) tem indice de audiencia muito pequeno. O vocabulario dos jovens a cada geracao e mais reduzido - hoje surgir um compositor com a capacidade poetica e vocabular de um Cartola e simplesmente impossivel, dada a regressao cultural verificada em nosso pais - embora se tenham elevado enormemente os numeros de matriculas nas escolas, aparelhos de televisao e radio nos lares...

Isso e muito triste. Triste e terrivel. Pois o nosso pais e continental. Possui recursos estrategicos importantissimos. Esta finalmente ocupando a posicao que lhe cabe no concerto das nacoes.

E triste e terrivel porque num cenario como este espera-se de um pais como o nosso que o seu povo esteja a altura do seu pais.

E somente um povo bem educado, bem informado, atualizado, consciente de seu compromisso com a coletividade podera fazer o pais trilhar os rumos de um futuro fraterno, sem discriminacoes, etico, justo, com salarios dignos e os servicos estrategicos, como saude, educacao e seguranca de otima qualidade e publicos.

Veja a nota que a deputada divulgou em seu sitio em 27/06/11 18:59:10 na categoria Nota Oficial



Nota Oficial



Rio de Janeiro, 27 de junho de 2011



Iniciei meu discurso de 21 de junho na tribuna da Alerj relatando a minha condição de católica, missionária consagrada da comunidade Canção Nova e, como tal, eu prego o respeito, o amor ao próximo, o perdão. Destaco que Deus ama a todas as pessoas, pois Ele não faz diferenciação. Em um dos trechos, afirmo: não sou preconceituosa e não descrimino.

Repudio veementemente o pedófilo e jamais tive a intenção de igualar esse criminoso com o homossexualismo. Se entenderam desta maneira, peço desculpas. Conto na minha família com parentes e amigos homossexuais e os amo, respeito como seres humanos e filhos de Deus. Da mesma forma repudio a agressão aos homossexuais, pois nada justifica tamanha violência.



Votei contra a PEC-23 por minhas convicções e não contra este ou aquele segmento de determinada orientação sexual.



MYRIAN RIOS

DEPUTADA ESTADUAL - PDT

Fonte: Assessoria de Comunicação - Myrian Rios
http://www.myrianrios.com.br/index.php?action=noticias&ver=126

ALERJ PEC 23-2007 - O Retrato do fundamentalismo que assola o pais

Para quem tiver interesse, abaixo o video da secao de votacao da PEC 23/2007, que visa incluir o termo orientacao sexual dentre o elenco de valores objeto de protecao contra a discriminacao na Constituicao Estadual, realizado no ultimo dia 22, quarta-feira, na ALERJ.

Talvez seja necessario advertir para o fato de que ha, no video, a possibilidade do surgimento de emocoes fortes por parte de quem o assiste.

E que os argumentos construidos para negar a sua provacao sao criativos, surrealistas. Sinceramente, ouvindo certas falas de nobres deputados e deputadas, a gente acaba se perguntando se verdadeiramente nao estamos na Idade Media.

O video da deputada Miriam Rios e o maior exemplo disso - porque o filho do Bolsonaro ja e conhecido. Um exemplo da aberracao mental, da mais completa ignorancia - porque nao creio que seja ma fe. Fico me perguntando ate onde pode chegar o preconceito. Ao ponto de fazer uma pessoa, residente numa das principais cidades do pais, que tem acesso a cultura, a informacao, a internet, aos livros, enfim a todas as formas de informacao, porque dispoe de recursos financeiros para tanto, possuir um nivel de desinformacao desse porte.

A pergunta que fica depois de de assistir a fala da deputada, e que trata-se de questao de seguranca nacional a aprovacao dos 10% do PIB para a Educacao. Educacao Publica, Gratuita e de qualidade, ja!
E que as areas de Educacao, Direitos Humanos e Assistencia Social da Presidencia da Republica invistam pesado em campanhas educativas via televisao - servicos publicos explorados por concessao.

Confesso que nao tinha conhecimento do nivel de indigencia mental que assola o meu pais! Claro que volta e meia a gente era golpeado com aquelas perolas que a juventude escrevia nas provas do vestibular... Mas a gente construiu uma imagem de que artistas globais seriam pessoas com um bom nivel de informacao... Afinal, sao pessoas que entram nas casas todos os dias... Trabalham com a ferramenta da comunicacao, ainda que sob a forma do entretenimento... Entao a gente acaba supondo que - como os nossos grandes atores e atrizes que vieram do teatro - tem amor ao saber, gostam de se informar...
A transcricao de parte da fala da deputada eu peguei do blog Sem Preconceitos
“Não sou preconceituosa e não discrimino. Só que eu tenho que ter o direito de não querer um homossexual como meu empregado, eventualmente”, disparou. “Por exemplo, digamos que eu tenha duas meninas em casa e a minha babá é lésbica. Se a minha orientação sexual for contrária e eu quiser demiti-la, eu não posso. O direito que a babá tem de querer ser lésbica, é o mesmo que eu tenho de não querer ela na minha casa. São os mesmos direitos. Eu vou ter que manter a babá em casa e sabe Deus até se ela não vai cometer pedofilia contra elas, e eu não vou poder fazer nada”, emendou.

“Se eu contrato um motorista homossexual, e ele tentar, de uma maneira ou outra, bolinar meu filho, eu não posso demiti-lo. Eu quero a lei para demitir sim, para mostrar que minha orientação sexual é outra”, comentou.
Aqui o outro video
Chamo atencao para a fala do deputado Marcelo Freixo, do PSOL, a partir dos 53`45 e, principalmente, o trecho em que ele chama a responsabilidade aqueles que ocupam cargos em comissao no governo na cota do movimento LGBT e, no entanto, deixaram de estar presentes a votacao. 54`35, para ser mais precisa!

Voce sabe quem sao as pessoas que ocupam cargos em comissao no governo estadual pelo movimento LGBT e que sequer se deram ao trabalho de comparecer a votacao? 

- E cade a base do governador Sergio Cabral, que nao votou favoravel? E porque a proposta foi apresentada pelo PT? Nao pode ser, pois sao aliados no governo federal... - Para pensar.

Chamo atencao tambem para a Dep Cidinha Campos, aos 1`10.

Ordem de falas Dep Atila Nunes, Dep. Luiz Paulo, PSDB, Flavio Bolsonaro, PP nos 22`, Dep Janira Rocha, PSOL, Dep Gilberto Palmares, PT, dep Wagner montes, PDT, Dep Marcelo Freixo, Dep. Marcio Pacheco, PSC, Dep Edino Fonseca, PR, Dep CIDINHA CAMPOS, PDT (aos 1`07, depois dos 58` recomeca a contagem), Dep INES PANDELO, PT.

Por ultimo foi a Dep Clarissa Garotinha, PR. Outra fala sui generis (A Biblia e Jesus sempre pregaram a tolerancia. Agora... entre a discriminacao e as opcoes, individuais, inclusive religiosas e cristas, existe uma diferenca muito grande... E a nossa opcao religiosa nos obriga a tomar uma posicao... Me sinto no dever de votar contra por uma questao de principio e por aquilo que eu escolhi como opcao de vida). Ou seja. Respeito, nao discrimino, nao incito ao espancamento, mas, por minha conviccao religiosa, NAO ADMITO QUE HOMOSSEXUAIS TENHAM DIREITO A CIDADANIA!

Em seguida, passou-se a votacao. E os parlamentares fundamentalistas cristaos votaram a partir de suas conviccoes religiosas, que os homossexuais nao devem merecer o direito a protecao contra violencia!

domingo, 26 de junho de 2011

A Organicidade dos fundamentalistas cristãos e os movimentos LGBTTs

Estamos às portas da comemoração dos 42 anos do Levante de Stonewall. 

Talvez seja um bom momento para reflexões. Para um bom e necessário balanço de avaliação desses 33 anos das lutas no Brasil do movimento homossexual ou movimento de libertação homossexual  - hoje conhecido como movimento LGBT.

Da ditadura militar aos fundamentalistas cristãos
Nos primeiros anos de luta do movimento homossexual brasileiro o grande adversário era o regime ditatorial. Não que as polícias estaduais antes e depois do regime de exceção tivessem se destacado por atuação nos estritos limites da legalidade. Toda a história de nosso país é marcada por práticas ilegais, onde a tortura sempre esteve presente, sobretudo dirigida às camadas mais pobres e discriminadas, como as putas, as bichas, os pobres sem carteira assinada e os pretos e "pardos".


Foi justamente essa truculência, em São Paulo estimulada pelas classes médias e proprietários de grandes veículos de imprensa, como os Mesquita - donos do jornal O Estado de São Paulo - e  operacionalizada pelo Delegado Richetti e suas caçadas denominadas Operação Rondão, prendendo e espancando travestis e putas, que, em 13 de junho de 1980, levou às ruas pela primeira vez no pais, as bichas "pão com ovo" - as "rasgadas que pouco tem a perder além da vida" -, as lésbicas do Grupo de Ação Lésbica Feminista, gays e demais entendidos, num memorável protesto contra a discriminação e a violência de estado.  



Esta data entrou para a história dos movimentos sociais brasileiros e era rememorada com muito orgulho por aqueles militantes pioneiros como o primeiro ato público do movimento de liberação homossexual do Brasil.


Depois, logo no ano seguinte (1981), tem início o grande desafio: a pandemia da Aids.

Cristãos, padres, arcebispo, papa, pastores, jornalistas irresponsáveis e inescrupulosos, por um lado; médicos e demais profissionais da saúde, por outro, todos portadores de igual preconceito forjado em torno das homossexualidades e transexualidade com a ascensão do catolicismo, promoveram o que ficou conhecido como A terceira epidemia (Herbert DANIEL e Richard PARKER. Aids: A terceira epidemia. Ensaios e Tentativas. Iglu, 1991) - a morte social do paciente, decorrente da estigmatização, do preconceito:
Um dos aspectos da pandemia da AIDS, que incontáveis pessoas não querem considerar com inteira seriedade e coerência, é a íntima relação existente entre a disseminação da doença e a crescente agressividade de homossexuais, enquanto formando grupos de pressão que agem dentro da sociedade e contra ela (do sítio Catolicismo, da TFP, parte de um texto de 1994).
O contexto cultural de "Peste" - a "Peste Gay" -, fomentado por tais personagens, reforçou e reatualizou os processos de estigmatização aos homossexuais, travestis, bi e transexuais, justamente no momento de maior fragilidade emocional e física desses indivíduos. Acometidos por doença então tida como terrível e mortal, ainda desconhecida em sua etiologia, formas de transmissão e remédios para o seu combate, foram submetidos a toda sorte de indignidade, abandono e negativa de assistência médica. 
CatolicismoEntão, na origem da AIDS poderá estar um pecado contra a natureza...
Dr. RiotortoÉ bem verdade. Não se pode descartar a hipótese de que tenha sido por um infamante pecado de bestialidade que o vírus se tenha transferido dos símios para os homens. Nesse caso, a conotação moral ficaria ainda mais clara, pois na causa do mal encontraríamos a bestialidade, e em sua propagação a homossexualidade. Duas gravíssimas desordens morais, dando origem a um terrível flagelo (trecho de texto de dezembro de 2001, do mesmo sítio).

Novamente, travestis, homossexuais, transexuais, lésbicas, juntamente com hemofílicos e outros ativistas, realizaram com determinação e tenacidade o enfrentamento. De início, espontaneamente, fazendo frente à urgência que se apresentava, cada um dava de si, mobilizando os recursos ao seu alcance da forma como podia.

E fez-se o reinvestimento no valor da solidariedade. Essa seria a grande "vacina" contra a morte social que estava sendo promovida aos portadores do vírus e pacientes que já haviam desenvolvido a doença. Esse foi o investimento cultural e político promovido sobretudo por Herbert Daniel, para contrapor as terríveis manifestações de preconceito que se verificaram durante aqueles primeiros anos da síndrome.
 
O outro grande investimento foi, sem dúvia, a construção do Programa Nacional de combate à Aids, com a quebra das patentes sobre os medicamentos e a criação do programa de distribuição de remédios - inovador, ousado e universal, premiado e adotado mundialmente, tendo como grande protagonista o médico infectologista Paulo Roberto Teixeira.

Nos dias que correm, são os fundamentalistas cristãos que despontam como os grandes adversários, determinados a impedir que pessoas lésbicas, travestis, transexuais, gays, bissexuais, conquistem os direitos da cidadania em igualdade de condições com qualquer outra pessoa, livres de toda e qualquer manifestação de discriminação ou preconceito, como reza a Constituição da República de 1988. E uma vez mais os segmentos LGBTs - em ongs ou fora delas -, conscientes, comprometidos, determinados, estão na luta pelo reconhecimento de seu direito à isonomia social e jurídica.
Inúmeras pessoas partilham do entendimento de qual seja o projeto político dessa vertente religiosa (seu projeto mediato):


- a Bíblia tomada de forma literal, infalível e ahistórica;

- explicação do mundo e suas espécies na perspectiva criacionista e não evolucionária;

- autopercepção de seus adeptos enquanto portadores de uma "missão" divina: promover a salvação humana, por meio da conversão massiva à sua visão religiosa;

- repúdio à coexistência pacífica com outras modalidades religiosas, bem como com as liberdades laicas;

- prática e disseminação da intolerância e do preconceito;

- interpretação seletiva  (não integrativa nem histórica) da Bíblia;

- oposição de forma totalitária ao direito ao aborto - que combatem como se o que estivesse sendo proposto fosse a institucionalização de uma obrigatoriedade e não o direito à opção pessoal, íntima, individual de cada mulher;

- oposição veemente e determinada à conquista da plena cidadania de homossexuais (gays e lésbicas), travestis, bi e transexuais, empenhando-se a que permaneçam como párias, portadores de estigma.

De forma semelhante, muita gente vem percebendo a cada vez maior ingerência dessas religiões nos negócios do Estado e da vida civil das pessoas no Brasil. Sabemos que nunca conquistamos de fato a laicidade em nosso regime republicano. No entanto, é visível o avanço da ótica religiosa sobre a sociedade civil (secular).

Das salas de audiência ostentando crucifixos, isenção tributária aos templos religiosos, passamos a ver instituições prisionais públicas propagandeando em seus muros trechos bíblicos; "pregadores" invadirem espaços de cultos tradicionalmente utilizados pelas religiões de origem africanas, tradicionalmente inclusivas e fraternas; afrontarem imagens e objetos de culto de outras religiões; destruírem e perseguirem templos outros, notadamente os afrobrasileiros; postarem-se em frente a campus universitários públicos e templos de igrejas inclusivas, ostentando cartazes com dizeres disseminadores de intolerância e discriminação aos "homossexuais" (LGBTs); parlamentares de suas denominações apresentarem propostas legislativas tendentes a tornar obrigatório o ensino religioso nas escolas públicas e moções de repúdio a religiosos não fundamentalistas que se posicionem de forma cristã (fraterna, não discriminatória, não julgadora); a institucionalização de sessões de cultos no interior de instituições públicas do estado - Assembleia Legislativa, Câmaras de Deputados, de Vereadores, Universidades, Tribunais de Justiça etc.

O avanço, nos anos 80
No quadro das concessões de canais de teve e emissoras de rádio, promovidas sobretudo na batalha pelos cinco anos de mandato para o então presidente José Sarney, adquiriram diversos canais e emissoras, ampliando enormemente a sua rede de influência, em muito facilitados pelo contexto econômico de crise inflacionária e elevado desemprego - grandes promotores da sensação de fragilidade, impotência, desamparo, numa nação marcada constitutivamente pela injustiça social, concentração de renda, inexistência de políticas públicas de proteção social e baixíssimos índices de escolarização (Mascarenhas, J.A.S. A Tríplice conexão; Vaz, Lúcio, A ética da malandragem - no submundo do Congresso Nacional).

Facilitadas por esse contexto de fragilização pessoal, por um lado, e fisiologismo político, por outro, essas correntes religiosas souberam se beneficiar amplamente, fincando os pontos estratégicos de seu projeto de tomada de poder. Alavancadas pelos recursos advindos da obrigatoriedade do pagamento dos dízimos e de doações realizadas em momentos de vulnerabilidade emocional e psíquica, não raro com o comprometimento da subsistência pessoal do doador, conforme diversos casos levados ao Judiciário e noticiados pelos veículos de informação, puderam arregimentar capitais suficientes para a exploração de espaços e canais televisivos, bem como de horários em diversas emissoras de rádio.

De forma concomitante, atuaram na ampliação nos seus quadros de pastores, multiplicando, igualmente, o número de templos, tanto nos espaços rurais quanto urbanos. Multiplicaram, assim, o número de adeptos, pessoas adestradas por uma crença dogmática, promotora da subordinação obediente e acrítica de seus fiéis às concepções políticas e visões de mundo disseminadas pelos seus Pastores - que passam a ser repetidas como verdades absolutas, aplicáveis inclusive e sobretudo àqueles que professem outras religiosidades e àqueles destituídos de qualquer crença.

Institucionalização na política nacional
Com a consolidação de sua representatividade política, organizaram-se em torno de uma frente parlamentar evangélica. Veja aqui a sua composição, por denominação religiosa, partido e estado da federação.

Ao contrário de atuar, de forma republicana e democrática, em prol da filosofia cristã (fraternidade, amor ao próximo, solidariedade), lutando por

# justiça social, distribuição de renda, reforma agrária,

# ensino e saúde públicos de qualidade e efetivamente universais;

# superação da violência familiar e contra a mulher;

# combate à violência e exploração sexual de crianças e adolescentes,

tais "cristãos" tem se empenhado vigorosamente em fazer com que a sua forma peculiar de ver o mundo se torne obrigatória a todos os demais integrantes da sociedade brasileira.

Determinados a impor seus pontos de vista baseados numa determinada e muito peculiar perspectiva religiosa e cristã - dogmática, intolerante, discriminatória, disseminadora de ódio e violência -, vem atropelando não apenas o princípio do estado secular (Estado autônomo e independente de toda e qualquer religião), como outros princípios igualmente fundamentais da República brasileira:

- o respeito às minorias sociais e políticas, bem como a todas religiões - inclusive àqueles que não professem nenhuma crença;

- o princípio da não discriminação:a proibição de discriminar e manifestar preconceito, seja por qual motivo for (inclusive aqueles decorrentes de determinadas visões religiosas);

- o da fraternidade;

- o da inclusividade;

- o da autodeterminação.

Características de sua organicidade
Pessoas progressistas, entre essas LGBTs comprometidas com a efetivação e observância dos princípios constitucionais, vem se perguntando o que faz com que semelhante visão de mundo (a um tempo religiosa e política) tenha adquirido essa forma orgânica que atualmente vem apresentando. Me parece interessante observar suas características.

Uma delas é sem dúvida o forte sentimento de identidade que conseguem construir para si. Seus fieis passam a se ver como pessoas especiais, dotadas de uma "missão divina": eleitas pelo seu Deus para promover a "salvação" da humanidade, por meio de sua conversão (impositiva, diga-se de passagem). Em pararelo a esse vem o sentido de que pertencem a uma comunidade especial e forte - porque escolhida pelo Senhor seu Deus para a realização daquela missão.

Porém, o que é que os torna tão comprometidos com os objetivos do grupo, capazes de abrir mão de suas individualidades, senso crítico e autodeterminação?

Autonomia e responsabilidade pessoal
Primeiro é preciso lembrarmos que a manutenção de uma vida autônoma e responsável por si próprio - assumindo pessoalmente a responsabilidade pelas próprias decisões e escolhas - é um projeto que demanda esforço contínuo, determinação e capacidade reflexiva - senso crítico para avaliar não somente os acontecimentos e os outros, mas, sobretudo, a si próprio. Implica não ter alguem a quem atribuir a culpa pelos nossos erros, fracassos e escolhas equivocadas. Tampouco pela nossa situação física, emocional ou material.

Como nos diz Tzvetan Todorov, jamais somos completamente determinados por forças exteriores. Por mais que estejamos contingenciados por forças sobre as quais não temos poder (a situação econômica nacional e mundial, níveis de salário e de empregabilidade, a qualidade da prestação dos serviços de saúde pública e privados ("planos de saúde") e da educação (tambem pública e privada), até mesmo sob regimes totalitários, como o nazista, o franquista, o fascista e o stalinista, sempre resta alguma margem para a ação pessoal; para a realização de nossa autonomia, nosso poder de decisão, de escolha (Todorov, Tzvetan. O homem desenraizado).

"Se quebro uma perna ao cair", diz ele, "a Providência e eu somos ambos responsáveis." 

- Isso é muito penoso para algumas pessoas, sobretudo aquelas acostumadas a ter alguem a quem outorgar o poder de decidir por elas - na terra ou no céu -, aliviando, assim, o fardo de erguerem-se sobre as próprias pernas e traçarem o seu próprio rumo. 

Aqui talvez seja necessário abrir-se um parêntesis para recordar nossa tradição autoritária e aristocrática, assujeitada a religiões e regimes políticos repressores e alienantes, totalmente na contramão de um projeto de nação que busque constituir seus cidadãos enquanto pessoas autônomas e responsáveis pelos seus destinos e ações, bem como pelo destino da própria nação à qual integram.

Alienação pessoal vinculando-se a um grupo
Uma das maneiras de se livrar da angústia e responsabilidade perante as próprias escolhas é se anular através da imersão a um grupo - qualquer grupo que exija adesão acrítica e incondicional.

É uma maneira muito fácil e aceita socialmente de renúncia ao dever pessoal de exercer o julgamento próprio (o livre arbítrio, segundo alguns). Não tenho que pensar, ponderar sobre as consequências de meus atos. Basta que apenas me deixe levar, que aja de maneira igual aos outros; àquilo que é esperado, ordenado, determinado. Depois, caso venha a ser cobrado, posso dizer com a tranquilidade dos santos, que não sou responsável, que todos faziam assim; que apenas cumpri ordens; só fiz obedecer aos meus superiores (Pastor, Padre, Patrão, Chefe).

Em grupo, as pessoas tendem a se sentir mais fortes, poderosas - tem com quem contar; alguem para vir em seu socorro; partilhar dos mesmos pontos de vista. Em troca, sentem-se aceitos, reconhecidos, amados. Desfrutam dos pequenos favores que o grupo pode lhes outorgar.

Reconfortante, acolhedor, o grupo é, também, potencialmente totalitário, na medida em que exige a renúncia a autonomia individual, em benefício da observância de seus preceitos e princípios. O medo de ser repudiado, segregado, privado do convívio, do reconhecimento, dos favores e agrados que o grupo pode conferir, tende a tornar mais palatável o preço cobrado - a capacidade crítica, a responsabilidade de um julgamento próprio.

Obtenção da organicidade grupal
Uma das formas para se conquistar a adesão e a permanência dos indivíduos em determinado grupo é torná-lo de tal modo integrado ao dia a dia de seus membros que ele sinta que pode recorrer à sua "comunidade", sempre que necessitar ou se sentir em apuros.

Saber que se tem alguem com quem contar e que partilha de nossos pontos de vista, cada vez mais torna-se importante, nesses tempos de neoliberalismo (transitoriedade, impermanência, individualismo, competitividade, mercantilização de tudo - água, órgãos, crianças, gestações, genoma, ar, as espécies vivas, afetos, energia vital, principalmente na versão Reiki etc) e supressão da alteridade, da diferença, do Outro, enfim, que me desafia, inquieta e instiga a refletir sobre os seus argumentos, pontos de vista, modos de ser e compreender as coisas e o mundo.

Preservando autonomias, construindo comunidades demmocráticas, participativas
Se todo grupo é potencialmente totalizante, a pergunta que se impõe é: em que medida seria possível a construção de grupos de ação política que a um tempo garanta o espaço da crítica e da autocrítica, mas tambem da unidade? Grupos que sejam efetivamente representativos daqueles em nome dos quais se diz atuar? Comprometidos com a mais ampla participação e horizontalidade? Estruturados sob preceitos éticos, não discriminatórios e transparentes? Que construa a cultura da escuta e fala respeitosa e universal a todos aqueles em nome dos quais se busca atuar?

Eu, pessoalmente, não possuo nenhuma fórmula mágica, capaz de materializar a receita para uma tal instituição, provida de pessoas portadoras de uma cultura radicalmente democrática, incapazes de se manterem reproduzindo a lógica externa de assimetria, autoritarismo, desqualificação, fisiologismo e personalismos pseudo heróicos. Nodatamente numa sociedade com as características das nossas - ausência de tradição participativa, de comprometimento com o coletivo, de processos socializadores baseados na autonomia e na responsabilidade.

Entretanto, tenho para mim que, fundamentalmente, é imperioso que se assegure o direito à ampla participação, à verticalidade e à impessoalidade.

Apenas se seus integrantes puderem se desvencilhar do sentimento de propriedade (os "donos do grupo") e de necessidade de distinção (visões heróicas que nutrem sobre as prestações de serviços públicos desincumbidas por meio de transferência da responsabilidade do Estado para entidades privadas, por via de convênios); de compreenderem que o trabalho que realizam ou realizaram - seja a prestação de serviços remunerada ou voluntária, ou a ação política estrito senso - resulta pura e simplesmente de uma decisão pessoal, cuja responsabilidade é exclusiva de seu agente, não cabendo o envio de nenhuma "fatura" à coletividade em nome da qual disseram agir, exigindo-lhes a "gratidão eterna".

Somente se os integrantes que se encontrem no controle desse coletivo imaginário superarem a necessidade de exigir gratidão dos destinatários - reais e supostos - de suas ações, poderão enfim perceberem-se fora da ótica distintiva, aristocrática, na qual tanto gostam de atuar e fazer perpetuar.

E, assim, por meio desse desapego e impessoalidade, conseguirão, enfim, ver os demais como um seu igual, permitindo-lhes sentirem-se incluídos, integrados, pertencentes, passíveis de contribuir com suas ações, críticas e sugestões. Não apenas como massa de manobra, contingente mobilizável ao bel prazer de "lideranças" autoconsagradas, notadamente em eventos festivos e adesistas.

As lições de Robert Kuttner
Como pode uma simples faxineira de hotel ter coragem para denunciar um político peso-pesado como Dominique Strauss-Kahn?

É que ela não estava só, diz-nos Robert Kuttner. Ela tinha por traz de si o seu sindicato, entidade bastante forte politicamente.

- E por que o seu sindicato é tão forte politicamente?


Em resumo, somente se for capaz de se tornar representativo, inclusivo, integrado à vida de seus integrantes, poderá o grupo, partido, agremiação, clube ou igreja tornar-se forte, provido do poder político necessário à condução de sua agenda política, preferencialmente construída conjuntamente com todos os indivíduos.