sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Estado Laico? Senador Lindberg, senadores religiosos e Teresa Cruvinel desrespeitam o Conselho Curador da EBC e querem que emissora pública continue a transmitir programas religiosos, para agradar a base de apoio da Presidenta Dilma

Tenho postado aqui diversas investidas de grupos religiosos, em busca da implantação de um estado religioso no Brasil. 


Hoje, entretanto, a TV Brasil noticiou no jornal Repórter Brasil, que o Senado, em sessão hoje realizada, entendeu que a decisão do Conselho Curador era equivocada e determinou que a TV Brasil retornasse com as transmissões - dia 27 o Observatório da Imprensa noticiara que um juiz federal de Brasília concedeu liminar em ação movida pela cúria metropolitana, determinando a continuidade da transmissão, até o julgamento do mérito.

A notícia transmitida pelo Repórter Brasil dizia que o Senado inclusive ameaçou a TV Brasil com a edição de um Decreto Legislativo, caso se recuse a cumprir sua determinação.

Poucos minutos antes, a mesma TV Brasil transmitira o programa O Público na TV, onde debatera a questão. Ali, informara a posição de Orani Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro e a do professor Luiz Antonio da Cunha, Coordenador do Observatório da Laicidade do Estado, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. No entendimento do Professor, "esta não é uma disputa no campo da mídia, mas da política, onde diversas religiões lutam pela conquista de fiéis."  

Regina Lima, a apresentadora do programa, informou que semana passada a EBC recebera 100 mensagens de pessoas pedindo que os programas fossem mantidos na grade da programação da emissora.

É de se estranhar, contudo, o fato de esses mesmos cem "telespectadores" não terem comparecido na Audiência Pública para democraticamente debater a questão da laicidade e da finalidade das emissoras públicas.
Veja o release do programa aqui.

No Senado, pela política e contra a República
Lia de Paula, Agência Senado
No Senado, a reunião se deu no âmbito da Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT).

Ali, a posição defendida pela President(a?) da EBC, Teresa Cruvinel, e pelo Senador pelo Rio de Janeiro, Lindberg Farias foi no sentido de não "magoar" setores da base de apoio do governo da Presidenta Dilma. 

E, numa atitude de clara estratégia política - e não  de respeito e defesa do preceito constitucional da laicidade - os dois optaram por censurar publicamente a soberana decisão do Conselho Curador - tomada após as reclamações apresentadas pelos ouvintes, no âmbito da Audiência Pública realizada no Auditório da Rádio Nacional, no Rio de Janeiro, no ano passado.

Lindberg foi mais além em sua posição em defesa dos interesses de parte da base de apoio da Presidenta Dilma. Ele afirmou que a decisão do Conselho Curador não seria legítima porque os seus integrantes não foram eleitos pelo público, constituindo-se, assim, num "Conselho de Iluminados".
No debate, Lindbergh Farias afirmou que a decisão do conselho põe em discussão a legitimidade do órgão.
- Se tivesse alguém eleito nesse conselho curador, não tomaria uma decisão como essa. Esse parece ser um conselho de iluminados, que não reflete a vontade popular - disse, ao afirmar que a resolução foi percebida pela população como uma agressão não apenas da EBC, mas na própria presidente da República Dilma Rousseff.
Dilma, qual Dilma?
Sabemos todos que a base partidária que deu sustentação à eleição da Presidenta Dilma é formada por partidos conservadores, dotados de bancada parlamentar composta por religiosos - católicos e, sobretudo, evangélicos. 

Essa não foi a primeira vez que seu governo, na escolha entre a democracia, a república, prefere defender os interesses dos setores religiosos reacionários e obscurantistas, de modo a supostamente assegurar a governabilidade de sua gestão, por meio dos votos dessa parte de sua base de sustentação parlamentar. 

Foi assim na decisão açodada da Presidenta em suspender o material paradidático do programa Escola Sem Homofobia. Está sendo assim na atitude adotada pelo Senador Lindberg e pela ex-ministra do governo Lula e atual presidenta da EBC, Teresa Cruvinel.

Com essas atitudes, constata-se que o governo da presidenta Dilma, internamente, não ostentará a mesma performance que ostentou em seu discurso na abertura da reunião da ONU.

Aqui, cumprirá um mandato sequestrada pelas forças mais conservadoras e obscurantistas. Não foi à toa que, durante sua campanha eleitoral, se prestou ao papel de peregrinar por templos, assistir cultos, orar de terço à mão, num apelo patético ao eleitorado mais conservador. 

Foi eleita com o auxílio dessa parcela do eleitorado. Compôs com os partidos detentores de parlamentares cuja forma de atuação conhecemos. Ao que vem demonstrando, governará para esses. Para vergonha de seu passado de resistência democrática.

 Eis a matéria divulgada no sítio do Senado:
A Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT) enviará ofício à Empresa Brasil de Comunicação (EBC) condenando decisão do Conselho Curador do órgão de suspender a veiculação de programas religiosos em suas emissoras de rádio e TV. A decisão da CCT foi tomada na manhã desta quinta-feira (29), ao final de audiência pública com a diretora-presidente da EBC, Tereza Cruvinel, e com o conselheiro Daniel Aarão Reis Filho.
Na presidência do debate, o senador Edison Lobão Filho (PMDB-MA) também anunciou que apresentará à Mesa do Senado, em conjunto com o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), projeto de decreto legislativo nos moldes de proposição da deputada Lilian Sá (PR-RJ) que tramita da Câmara (PDC 406/2011), sustando os efeitos da Resolução 02/2011 do Conselho Curador da EBC. 
A resolução determina que sejam retirados do ar os programas "A Santa Missa" e "Palavras de Vida", produzidos pela Igreja Católica, e o evangélico "Reencontro", todos exibidos aos finais de semana. A medida está em disputa judicial e ainda não foi cumprida devido a liminar pela manutenção dos programas.
Além de Lobão e Crivella, Anibal Diniz (PT-AC) e Lindbergh Farias (PT-RJ) também criticaram a decisão do conselho EBC. Os senadores refutam argumento apresentado pelos conselheiros, de que os programas privilegiam as duas religiões, em detrimento das demais, e que a grade das emissoras públicas deve prever a "pluralidade máxima das vivências religiosas existentes no país".
- Tirando os programas do ar, não estamos mais perto da diversidade religiosa. Ao contrário, precisamos buscar essa diversidade, sem truculência - disse Crivella.
Essa também é a opinião de Anibal Diniz, para quem a decisão do conselho se configura em "repressão e intolerância, que se confronta com o espírito da TV pública".
No debate, Lindbergh Farias afirmou que a decisão do conselho põe em discussão a legitimidade do órgão.

Em audiência pública com representantes da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) questionou a exclusão de programas religiosos das grades de programação das emissoras de rádio e TV do governo federal. Ele também fez um apelo para que se chegue a um entendimento sobre o assunto. Foram afetados programas católicos e evangélicos.
Tereza Cruvinel, presidente da EBC, e Daniel Aarão Reis Filho, integrante do Conselho Curador da empresa, disseram que os programas foram excluídos por ferir, no entendimento do Conselho, a diversidade religiosa do país. Segundo Aarão Reis, a transmissão dos programas católicos e evangélicos seria "ilegal, ilegítima e injusta". Ele disse, no entanto, que há o objetivo de transmitir programas que abordem as religiões de forma a respeitar a diversidade da população brasileira.
O senador Marcelo Crivella disse ser favorável a que todas as vertentes religiosas, mesmo as de menor representatividade, possam ter programas nas emissoras do governo federal.
- Será que não conseguimos encontrar um caminho e aumentar essa diversidade que queremos sem essa truculência, sem privar o telespectador? Você acha que tirando o programa do ar estamos mais próximo da diversidade? - questionou Crivella, dirigindo-se a Daniel Aarão Reis.
O senador Edison Lobão Filho (PMDB-MA), que preside a audiência promovida pela Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT), disse que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 90% da população brasileira é composta por católicos e evangélicos.
- Do ponto de vista prático, se 90% estão representado em duas religiões, acho que um programa de 30 anos não deveria ser tirado do ar - opinou.
Mais informações a seguir
Da Redação / Agência Senado
(Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Direção e conselho da EBC têm propostas diferentes para limitar conteúdo religioso
Lia de Paula, Ag. Senado
A direção da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) defende a divisão de tempo na grade de seus canais de TV para manifestação das diferentes religiões, enquanto o Conselho Curador da empresa quer que sejam veiculados programas produzidos pela EBC, com conteúdo que reflita a pluralidade de manifestações religiosas. As posições divergentes foram apresentadas em debate nesta quinta-feira (29) na Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT).
A diretora-presidente da EBC, Tereza Cruvinel, e o conselheiro Daniel Aarão Reis Filho foram convidados a discutir com os senadores a Resolução 02/2011, do Conselho Curador da EBC, que determina que sejam retirados do ar os programas católicos A Santa Missa e Palavras de Vida e o evangélico Reencontro, veiculados pela TV Brasil, além da missa dominical, transmitida pela Rádio Nacional de Brasília.
Tereza Cruvinel explicou aos senadores que, ao ser criada, a EBC "herdou" diversos programas das emissoras que compõem a rede, entre os quais os quatro programas religiosos. Frente à natureza laica do governo e ao princípio de respeito à pluralidade religiosa, ela concorda com a necessidade de modificar a atual programação, para dar oportunidade a outras crenças.
A empresa propõe dividir o tempo da programação semanal da seguinte forma: 26 minutos para programas católicos; 26 minutos para programas evangélicos; 26 minutos para programas afrobrasileiros; e 13 minutos para outros grupos. A divisão teve por base dados do Censo de 2010, segundo os quais católicos e evangélicos representam 90% da população, e a "importância da matriz africana na formação cultural brasileira".
Novos formatos
No entanto, para o Conselho Curador da EBC, os programas não deveriam ser feitos pelas diferentes igrejas, mas pela própria empresa. Ao explicar a proposta, Daniel Aarão Reis afirmou que, ao defender novos formatos, o conselho não está se posicionando contra a manutenção de programas religiosos.
- A decisão não é para eliminar programas religiosos, mas para conferir a eles um novo formato. Não é restrição ou censura religiosa, e quem vê assim revela falta de informação ou má-fé - argumentou.
O conselheiro considera ilegítimo privilegiar católicos e evangélicos, lembrando que essas igrejas já têm concessões de rádio e televisão para operar seus programas e difundir seu credo e seus valores.
- Isso se configura em injustiça. O pluralismo religioso deve ser assegurado na comunicação pública - defendeu Aarão Reis.
Para o conselheiro, a alternativa de lotear o tempo disponível entre as religiões é de difícil implementação, pela falta de critérios para definir "quem irá ocupar os lotes", uma vez que apenas a Igreja Católica tem organização centralizada. Ele também considerou inviável abrir espaço para a veiculação das celebrações de todas as religiões.
Tereza Cruvinel enfatizou que o espaço na grade das emissoras da EBC deve ser para manifestação das diferentes crenças e não para programas jornalísticos sobre as religiões. Para a jornalista, as dificuldades para resolver o assunto de devem, em grande parte, pela falta de definição clara das atribuições do conselho e da direção da EBC.
No debate na CCT, diversos senadores consideraram que o Conselho Curador, ao baixar a resolução, foi além de suas atribuições. A comissão aprovou o envio de ofício à EBC condenando a decisão do conselho, e o senador Edison Lobão Filho (PMDB-MA), que presidiu o debate, espera que o órgão reveja a posição de suspender a veiculação dos programas religiosos.
Quanto à possibilidade de a CCT propor mudanças na lei que criou a EBC, em especial para alterar atribuições do conselho, Lobão Filho disse que isso deverá ser analisado com calma.
- Neste momento, vamos atacar apenas a decisão que tirou os programas do ar ­- disse.

Iara Guimarães Altafin / Agência Senado
(Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado) [Destaques - negritos e sublinhados - da responsável pelo blog]
Assuntos Relacionados: Governo 
A seguir, a íntegra do texto da sessão, conforme divulgado no sítio do Senado Federal, que simplesmente omite todo o debate havido:

Reunião de comissão - Textos

 Reunião: 42ª Reunijão Extraordinária
Data: 29/09/2011
Horário de Início: 09:48
O SR. PRESIDENTE (Lobão Filho. Bloco/PMDB - MA) - Bom dia, Exmºs Srs. Senadores e Senadoras presentes ao plenário.
Declaro aberta a 41ª Reunião da Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática do Senado Federal.
A presente reunião desta Comissão tem por finalidade a realização de audiência pública para debater a Resolução nº 02/2011, do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação - EBC, que determinou a suspensão de programas religiosos nos veículos públicos que a integram, em atendimento ao Requerimento nº 46, de 2011, de iniciativa do Senador Marcelo Crivella.
Temos a honra de contar com a presença, como expositores, da Srª Tereza Cruvinel, Diretora-Presidente da Empresa Brasil de Comunicação - EBC, e do Sr. Daniel Aarão Reis Filho, Conselheiro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação - EBC.
De acordo com o art. 94, §§2º e 3º do Regimento Interno do Senado Federal, a Presidência adotará as seguintes normas e procedimentos, de forma a melhor conduzirmos a audiência.
Os convidados farão suas exposições contando com 15 minutos cada, e, em seguida, abriremos a fase de interpelação pelos Senadores e Senadoras presentes.
A palavra aos Senadores e Senadoras será concedida na ordem de inscrição, com prioridade para o autor do requerimento, o Exmº Sr. Senador Marcelo Crivella.
Neste momento, peço à secretária desta Comissão que conduza a Srª Tereza Cruvinel a esta Mesa. (Pausa.)
Passo, neste momento então, a palavra para a Srª Tereza Cruvinel, Diretora-Presidente da Empresa Brasil de Comunicação - EBC.
A SRª TEREZA CRUVINEL - Exmº Sr. Senador Lobão Filho, que preside esta sessão da Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática; Exmªs Srªs e Srs. Senadores presentes, senhoras e senhores, colegas da imprensa, é sempre com muita emoção que eu volto ao Senado nesta condição, que até hoje me estranha, de não estar ao fundo da Comissão, cobrindo os acontecimentos como jornalista, mas sentada a esta Mesa. Esta é uma condição com a qual tenho dificuldade de me acostumar, e sempre me emociona o fato de voltar aqui, onde passei 25 anos da minha vida profissional, em períodos tão importantes para a construção da democracia brasileira.
E a esta Comissão, particularmente, retorno sempre com particular emoção, porque aqui travamos bons debates sobre a criação da Empresa Brasil de Comunicação no final de 2007.
Cumprimento o Exmº Sr. Senador Marcelo Crivella.
Dizia eu, Senador Crivella, do sempre emocionante retorno a esta Casa, por todos os vínculos que tenho com ela, a esta Comissão em particular, na qual travamos debates tão importantes sobre a criação da EBC no final de 2007, em dezembro de 2007.
A ela retornamos depois para debater o financiamento do sistema público de comunicação e radiodifusão, em debate aqui promovido sobre a regulamentação da contribuição à comunicação pública, contribuição com a qual até hoje a EBC não pode contar em seu orçamento, por razões judiciais decorrentes da reação das empresas de telecomunicações.
Depois retornamos aqui, em mais duas oportunidades, uma delas para avaliar o primeiro ano de implantação da EBC. E agora, sem dúvida, retorno no final deste quadriênio, em que aqui já foram discutidos os quatro anos de construção da EBC, dos canais públicos, desta nova instituição da democracia brasileira que é a comunicação pública.
Portanto, acho bastante natural que esta Comissão, que sempre acompanhou a criação e o desenvolvimento da EBC e de seus canais, tenha se interessado pela questão dos programas religiosos, a qual ganhou algum espaço no noticiário político...


O texto ainda não foi revisado.

Fonte:

domingo, 25 de setembro de 2011

Algozes dos Direitos Humanos - EUA ignoram indícios de inocência e matam Troy Davis

No dia 21 de setembro, pela manhã a Presidenta Dilma Rousseff afirmava, no discurso que proferiu na abertura da sessão da ONU, que
O autoritarismo, a xenofobia, a miséria, a pena capital, a discriminação - todos são algozes dos direitos humanos. Há violações em todos os nossos países, sem exceção.

 Essa foi apenas uma das passagens de diversas críticas contundentes e elegantemente formuladas no discurso que apresentou às nações do mundo a primeira mulher chefe de estado e de governo, representante de um país que até recentemente era tratado como quintal - lugar de extração e exploração.

À noite, porém, o país que historicamente tem se pautado em dar lições aos demais, mostrando-se como se fora modelo e mentor do que possa haver de mais democrático, republicano, digno e justo, decidiu executar a pena de morte impingida ao negro Troy Anthony Davis, embora 7 das 9 testemunhas tivesse mudado os seus testemunhos, declarando que o primeiro havia sido feito sob o efeito de intimidações da polícia.

Troy, de 42 anos, fazia 20 anos estava preso, condenado pelo sulista estado da Georgia em 1991 pela morte de um policial branco em 1989, apenas com base em testemunhos. Brancos também eram o Juri e o magistrado.

Depois de haver conseguido adiar a execução por três vezes, o último  recurso apresentado ao Supremo Tribunal dos EUA foi indeferido. Em 2007, a decisão que suspendeu a execução motivou-se por insuficiência de provas.

A arma do crime jamais foi encontrada. Troy Davis passou os 20 anos em que esteve preso alegando inocência.

Pediram pela sua vida o ex-presidente estadunidense Jimmy Carter, ex-governador da Geórgia; o Papa; e até mesmo o ex-diretor do FBI, William Sessions. Além de cerca de 650.000 pessoas por todo o planeta. Em vão.

O presidente dos EUA, Barack Obama, negro, tem sido alvo de sérias acusações e campanhas desquafilicatórias pelas forças conservadoras de seu país (vocalizadas sobretudo pelo canal de televisão Fox), toda vez que apresenta medidas no sentido de promover alguma justiça social. No momento presente, Obama encontra-se às voltas com enormes problemas, decorrentes da ideologia que crê ser possível as forças capitalistas existirem em equilíbrio, prescindindo de regulamentações estatais. Imerso a esse contexto,  decidiu não interferir, negando-se a conceder ao condenado clemência.

É bastante curioso que uma nação que tem a estátua da liberdade por símbolo e a fantasia de ser a guia e mentora da humanidade, prefira, na dúvida, assassinar uma pessoa, depois de submetê-la a 20 anos de cárcere, ao invés de aplicar o princípio básico do direito penal,  que precisamente postula dever-se preservar o réu em caso de dúvida.

O brocardo latino in dubio pro reo, determina que, dividido entre a possibilidade de penalizar um inocente ou deixar livre um criminoso, diante da dúvida quanto a culpabilidade, deve-se optar pela absolvição do acusado, em razão do entendimento de que a primeira alternativa é infame, não condiz com uma sociedade que se pensa civilizada, isto é, pautada pelo respeito absoluto à dignidade humana.

O representante da seção portuguesa da Anistia Internacional, Vitor Nogueira, afirmou, no dia seguinte à execução de Davis - dia 22/09/11 - que, nesse caso, houve grave violação, precisamente pela não observância desse princípio elementar.

Troy Davis abriu mão do direito legal de pedir a última refeição, bem como do, também legal direito a fazer uso de tranquilizante para minorar as dores do processo de assassinato legalmente instituído. Afirma-se que fez uso do direito de proferir suas últimas palavras. Essas teriam sido as mesmas dos últimos 20 anos em que viveu encarcerado: "Não fui eu. Eu não tinha nenhuma arma. Sou inocente."


No blog Bule Voador, no post dedicado ao assunto, consta a afirmação de que Troy Davis assim teria proferido as suas últimas palavras, amarrado à cama onde receberia a injeção letal e diante das testemunhas da execução:

Jimmy Carter, após a execução de Troy Davis declarou: “Espero que esta tragédia nos empurre, como nação, para uma rejeição total da pena de morte”. 

Após vinte e quatro horas passadas do assassinato legal promovido pelo estado da Georgia, em Nova York gente de todas as idades e cores foram para as ruas em protesto contra o que consideram Dia do Ultraje. Pessoas com crianças nos ombros e Crust-punks marcharam pelas ruas, com camisetas estampando sua indignação, também expressa através de palavras-de-ordem como "O Sistema é racista. Ele matou Troy Davis".

Consta, ainda, que seria de Troy Davis o seguinte texto:
Quero agradecer a todos vocês por seus esforços e dedicação aos Direitos Humanos e à Gentileza Humana, no ano passado eu experimentei tanta emoção, alegria, tristeza e fé sem fim. É por esforço de todos vocês que estou vivo hoje, quando olho para minha irmã Martina maravilho-me com o amor que ela tem por mim e, é claro, me preocupo com ela e com sua saúde, mas como ela me diz ela é a mais velha e não vai recuar desta luta para salvar a minha vida e provar ao mundo que eu sou inocente deste crime terrível.
Quando vejo minha correspondência vindo de todo o globo, [vem] de lugares sobre os quais nunca jamais sonhei que saberia alguma coisa a respeito, e pessoas falando línguas e expressando culturas e religiões que eu apenas poderia ter a esperança de um dia ver em primeira mão. Sinto-me humilde na emoção que enche meu coração com uma Alegria irresistível e abundante. Não consigo nem explicar o brotamento da emoção que sinto quando tento expressar a força que ganho de todos vocês, ela compõe minha fé e me mostra uma vez mais que este não é um caso sobre a pena de morte, este não é um caso sobre Troy Davis, este é um caso sobre Justiça e o Espírito Humano de ver a Justiça prevalecer.
Sem dinheiro para o sepultamento
Pelo Twitter, afirma-se que o custo da execução, para o Estado da Georgia, teria sido de US $ 18.000. Esse mesmo estado, entretanto, se recusou a custear as despesas de seu funeral.

Há quem afirme, através de blogs, que foi organizada uma campanha de doações para auxiliar a família de Troy Davis nas despesas com o seu sepultamento.

Se você quiser contribuir, veja aqui como fazê-lo.


Como disse a Presidenta Dilma em seu discurso na ONU:
O autoritarismo, a xenofobia, a miséria, a pena capital, a discriminação - todos são algozes dos direitos humanos.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Dilma na Abertura da ONU: Muito bom estar viva!!!

É muito bom estar viva e poder ouvir o conteúdo do discurso da Presidente Dilma na abertura da ONU. Ademais do fato dee ser mulher - o que não é pouco -, é a mulher que foi torturada pelos abjetos integrantes do regime ditatorial.

Como ela mesma disse em seu discurso de abertura da ONU: "é a voz da democracia".

Não poderia haver melhor vitória histórica para todas as pessoas que lutaram contra a ditadura civil-militar: vencer a barbaridade, a iniquidade do regime totalitário;; vencer as torturas e, pelas mãos do regime democrático, chegar à Presidência da República.

E chegar à Presidência da República para afirmar e defender os mais elevados valores da humanidade: dignidade, fraternidade, paz e justiça social.

E defender não apenas no interior das fronteiras nacionais. Defendê-los igualmente para todo o mundo; para todos os povos da terra.

Não foi à toa toda a campanha de desqualificação promovida durante a campanha eleitoral pelas forças comprometidas com o que há de mais obscurantista, mais autoritário, mais predatório e suicida - porque apenas pensa no lucro pessoal e imediato, sem pensar na sustentabilidade da vida humana.

Como no passado, estavam comprometidas e aliadas a essas mesmas forças, dominantes no cenário internacional. Por meio delas, através do apoio e do financiamento que elas concederam, promoveram o golpe no Brasil, como foram promovidos diversos, por toda a América Latina, deitando por terra governos legítimos e democráticos, comprometidos com o povo, com a justiça social - como foi o caso da derrubada do governo Allende, no Chile, em 11 de setembro de 1973.


As que sobreviveram, conseguiram se manter fortes, firmes na luta pela promoção dos mesmos valores - democracia, justiça social, dignidade absoluta da pessoa humana.

Dilma foi uma delas. E graças à profunda inteligência política e social do ex-Presidente Lula - o operário migrante nordestino que as elites não conseguiam admitir vê-lo na Presidência da República -, ser indicada como candidata do Partido dos Trabalhadores.
E graças à luta de brasileiras e brasileiros comprometidos com esses mesmos valores, sobretudo realizada através da internet, foi possível fazer frente à campanha de desmoralização de sua personalidade pessoal e política. 

Nesse enfrentamento, o bordão que os movimentos sociais haviam criado para combater a tentativa de impeachemnt a Lula foi atualizado para a Presidenta Dilma: 

 Eu não votei em Dilma no primeiro turno. Não aprovei o seu beija-mão aos religiosos obscurantistas (nada contra religiosos comprometidos com o regime republicano e que reconhecem os limites entre crença e vida cívica). Tambem não aprovo certas práticas e alianças que tenho visto o PT utilizar. Mas não posso desmerecer a sua luta histórica. Os seus quadros valorosos. Embora tenha votado no PSOL (aliás, todos os seus mais expressivos quadros são ex-integrantes do PT que dele se despediram, por não concordar com isso que chamos de desvio de princípios), no segundo turno votei em Dilma. Torci pela sua vitória. Sabia que, naquele contexto, era o que tínhamos de melhor.

Fui e sou absolutamente contra a atitude que ela tomou, sobretudo ao modo como tomou a decisão de suspender a distribuição do material paradidático do Programa Escola sem Homofobia. Isso, porém, não me faz cega às suas qualidades e aos valores que possui e que tem o compromisso de implantar, enquanto representante de um conjunto de forças nacionais comprometidas com a criação do Brasil cujo conteúdo programático - que são verdadeiras normas obrigatórias, válidas e legítimas - consta de nossa Constituição da República.

Por tudo isso e pelo conteúdo de seu discurso - que não é mero amontoado de palavras bonitas, mas retrato e balanço de nosso momento presente no Brasil e do exemplo positivo que nossos melhores compromissos e iniciativas políticos podem representar para o mundo -, é que posso, hoje, me sentir orgulhosa do Brasil que estamos, na luta, a construir.

É, sim, muito bom estar viva para assistir este momento!

 
 Confira a íntegra do texto, junto com o vídeo (o texto tomei-o do blog da Maria Frô)

“Senhor presidente da Assembleia Geral, Nassir Abdulaziz Al-Nasser,
Senhor secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon,
Senhoras e senhores chefes de Estado e de Governo,
Senhoras e senhores,
Pela primeira vez, na história das Nações Unidas, uma voz feminina inaugura o Debate Geral. É a voz da democracia e da igualdade se ampliando nesta tribuna que tem o compromisso de ser a mais representativa do mundo.
É com humildade pessoal, mas com justificado orgulho de mulher, que vivo este momento histórico.
Divido esta emoção com mais da metade dos seres humanos deste Planeta, que, como eu, nasceram mulher, e que, com tenacidade, estão ocupando o lugar que merecem no mundo. Tenho certeza, senhoras e senhores, de que este será o século das mulheres.
Na língua portuguesa, palavras como vida, alma e esperança pertencem ao gênero feminino. E são também femininas duas outras palavras muito especiais para mim: coragem e sinceridade. Pois é com coragem e sinceridade que quero lhes falar no dia de hoje.
Senhor Presidente,
O mundo vive um momento extremamente delicado e, ao mesmo tempo, uma grande oportunidade histórica. Enfrentamos uma crise econômica que, se não debelada, pode se transformar em uma grave ruptura política e social. Uma ruptura sem precedentes, capaz de provocar sérios desequilíbrios na convivência entre as pessoas e as nações.
Mais que nunca, o destino do mundo está nas mãos de todos os seus governantes, sem exceção. Ou nos unimos todos e saímos, juntos, vencedores ou sairemos todos derrotados.
Agora, menos importante é saber quais foram os causadores da situação que enfrentamos, até porque isto já está suficientemente claro. Importa, sim, encontrarmos soluções coletivas, rápidas e verdadeiras.
Essa crise é séria demais para que seja administrada apenas por uns poucos países. Seus governos e bancos centrais continuam com a responsabilidade maior na condução do processo, mas como todos os países sofrem as conseqüências da crise, todos têm o direito de participar das soluções.
Não é por falta de recursos financeiros que os líderes dos países desenvolvidos ainda não encontraram uma solução para a crise. É, permitam-me dizer, por falta de recursos políticos e algumas vezes, de clareza de ideias.
Uma parte do mundo não encontrou ainda o equilíbrio entre ajustes fiscais apropriados e estímulos fiscais corretos e precisos para a demanda e o crescimento. Ficam presos na armadilha que não separa interesses partidários daqueles interesses legítimos da sociedade.
O desafio colocado pela crise é substituir teorias defasadas, de um mundo velho, por novas formulações para um mundo novo. Enquanto muitos governos se encolhem, a face mais amarga da crise – a do desemprego – se amplia. Já temos 205 milhões de desempregados no mundo. 44 milhões na Europa. 14 milhões nos Estados Unidos. É vital combater essa praga e impedir que se alastre para outras regiões do Planeta.
Nós, mulheres, sabemos, mais que ninguém, que o desemprego não é apenas uma estatística. Golpeia as famílias, nossos filhos e nossos maridos. Tira a esperança e deixa a violência e a dor.
Senhor Presidente,
É significativo que seja a presidenta de um país emergente, um país que vive praticamente um ambiente de pleno emprego, que venha falar, aqui, hoje, com cores tão vívidas, dessa tragédia que assola, em especial, os países desenvolvidos.
Como outros países emergentes, o Brasil tem sido, até agora, menos afetado pela crise mundial. Mas sabemos que nossa capacidade de resistência não é ilimitada. Queremos – e podemos – ajudar, enquanto há tempo, os países onde a crise já é aguda.
Um novo tipo de cooperação, entre países emergentes e países desenvolvidos, é a oportunidade histórica para redefinir, de forma solidária e responsável, os compromissos que regem as relações internacionais.
O mundo se defronta com uma crise que é ao mesmo tempo econômica, de governança e de coordenação política.
Não haverá a retomada da confiança e do crescimento enquanto não se intensificarem os esforços de coordenação entre os países integrantes da ONU e as demais instituições multilaterais, como o G-20, o Fundo Monetário, o Banco Mundial e outros organismos. A ONU e essas organizações precisam emitir, com a máxima urgência, sinais claros de coesão política e de coordenação macroeconômica.
As políticas fiscais e monetárias, por exemplo, devem ser objeto de avaliação mútua, de forma a impedir efeitos indesejáveis sobre os outros países, evitando reações defensivas que, por sua vez, levam a um círculo vicioso.
Já a solução do problema da dívida deve ser combinada com o crescimento econômico. Há sinais evidentes de que várias economias avançadas se encontram no limiar da recessão, o que dificultará, sobremaneira, a resolução dos problemas fiscais.
Está claro que a prioridade da economia mundial, neste momento, deve ser solucionar o problema dos países em crise de dívida soberana e reverter o presente quadro recessivo. Os países mais desenvolvidos precisam praticar políticas coordenadas de estímulo às economias extremamente debilitadas pela crise. Os países emergentes podem ajudar.
Países altamente superavitários devem estimular seus mercados internos e, quando for o caso, flexibilizar suas políticas cambiais, de maneira a cooperar para o reequilíbrio da demanda global.
Urge aprofundar a regulamentação do sistema financeiro e controlar essa fonte inesgotável de instabilidade. É preciso impor controles à guerra cambial, com a adoção de regimes de câmbio flutuante. Trata-se, senhoras e senhores, de impedir a manipulação do câmbio tanto por políticas monetárias excessivamente expansionistas como pelo artifício do câmbio fixo.
A reforma das instituições financeiras multilaterais deve, sem sombra de dúvida, prosseguir, aumentando a participação dos países emergentes, principais responsáveis pelo crescimento da economia mundial.
O protecionismo e todas as formas de manipulação comercial devem ser combatidos, pois conferem maior competitividade de maneira espúria e fraudulenta.
Senhor Presidente,
O Brasil está fazendo a sua parte. Com sacrifício, mas com discernimento, mantemos os gastos do governo sob rigoroso controle, a ponto de gerar vultoso superávit nas contas públicas, sem que isso comprometa o êxito das políticas sociais, nem nosso ritmo de investimento e de crescimento.
Estamos tomando precauções adicionais para reforçar nossa capacidade de resistência à crise, fortalecendo nosso mercado interno com políticas de distribuição de renda e inovação tecnológica.
Há pelo menos três anos, senhor Presidente, o Brasil repete, nesta mesma tribuna, que é preciso combater as causas, e não só as consequências da instabilidade global.
Temos insistido na interrelação entre desenvolvimento, paz e segurança; e que as políticas de desenvolvimento sejam, cada vez mais, associadas às estratégias do Conselho de Segurança na busca por uma paz sustentável.
É assim que agimos em nosso compromisso com o Haiti e com a Guiné-Bissau. Na liderança da Minustah, temos promovido, desde 2004, no Haiti, projetos humanitários, que integram segurança e desenvolvimento. Com profundo respeito à soberania haitiana, o Brasil tem o orgulho de cooperar para a consolidação da democracia naquele país.
Estamos aptos a prestar também uma contribuição solidária, aos países irmãos do mundo em desenvolvimento, em matéria de segurança alimentar, tecnologia agrícola, geração de energia limpa e renovável e no combate à pobreza e à fome.
Senhor Presidente,
Desde o final de 2010, assistimos a uma sucessão de manifestações populares que se convencionou denominar “Primavera Árabe”. O Brasil é pátria de adoção de muitos imigrantes daquela parte do mundo. Os brasileiros se solidarizam com a busca de um ideal que não pertence a nenhuma cultura, porque é universal: a liberdade.
É preciso que as nações aqui reunidas encontrem uma forma legítima e eficaz de ajudar as sociedades que clamam por reforma, sem retirar de seus cidadãos a condução do processo.
Repudiamos com veemência as repressões brutais que vitimam populações civis. Estamos convencidos de que, para a comunidade internacional, o recurso à força deve ser sempre a última alternativa. A busca da paz e da segurança no mundo não pode limitar-se a intervenções em situações extremas.
Apoiamos o Secretário-Geral no seu esforço de engajar as Nações Unidas na prevenção de conflitos, por meio do exercício incansável da democracia e da promoção do desenvolvimento.
O mundo sofre, hoje, as dolorosas consequências de intervenções que agravaram os conflitos, possibilitando a infiltração do terrorismo onde ele não existia, inaugurando novos ciclos de violência, multiplicando os números de vítimas civis.
Muito se fala sobre a responsabilidade de proteger; pouco se fala sobre a responsabilidade ao proteger. São conceitos que precisamos amadurecer juntos. Para isso, a atuação do Conselho de Segurança é essencial, e ela será tão mais acertada quanto mais legítimas forem suas decisões. E a legitimidade do próprio Conselho depende, cada dia mais, de sua reforma.
Senhor Presidente,
A cada ano que passa, mais urgente se faz uma solução para a falta de representatividade do Conselho de Segurança, o que corrói sua eficácia. O ex-presidente Joseph Deiss recordou-me um fato impressionante: o debate em torno da reforma do Conselho já entra em seu 18º ano. Não é possível, senhor Presidente, protelar mais.
O mundo precisa de um Conselho de Segurança que venha a refletir a realidade contemporânea; um Conselho que incorpore novos membros permanentes e não-permanentes, em especial representantes dos países em desenvolvimento.
O Brasil está pronto a assumir suas responsabilidades como membro permanente do Conselho. Vivemos em paz com nossos vizinhos há mais de 140 anos. Temos promovido com eles bem-sucedidos processos de integração e de cooperação. Abdicamos, por compromisso constitucional, do uso da energia nuclear para fins que não sejam pacíficos. Tenho orgulho de dizer que o Brasil é um vetor de paz, estabilidade e prosperidade em sua região, e até mesmo fora dela.
No Conselho de Direitos Humanos, atuamos inspirados por nossa própria história de superação. Queremos para os outros países o que queremos para nós mesmos.
O autoritarismo, a xenofobia, a miséria, a pena capital, a discriminação, todos são algozes dos direitos humanos. Há violações em todos os países, sem exceção. Reconheçamos esta realidade e aceitemos, todos, as críticas. Devemos nos beneficiar delas e criticar, sem meias-palavras, os casos flagrantes de violação, onde quer que ocorram.
Senhor Presidente,
Quero estender ao Sudão do Sul as boas vindas à nossa família de nações. O Brasil está pronto a cooperar com o mais jovem membro das Nações Unidas e contribuir para seu desenvolvimento soberano.
Mas lamento ainda não poder saudar, desta tribuna, o ingresso pleno da Palestina na Organização das Nações Unidas. O Brasil já reconhece o Estado palestino como tal, nas fronteiras de 1967, de forma consistente com as resoluções das Nações Unidas. Assim como a maioria dos países nesta Assembléia, acreditamos que é chegado o momento de termos a Palestina aqui representada a pleno título.
O reconhecimento ao direito legítimo do povo palestino à soberania e à autodeterminação amplia as possibilidades de uma paz duradoura no Oriente Médio. Apenas uma Palestina livre e soberana poderá atender aos legítimos anseios de Israel por paz com seus vizinhos, segurança em suas fronteiras e estabilidade política em seu entorno regional.
Venho de um país onde descendentes de árabes e judeus são compatriotas e convivem em harmonia – como deve ser.
Senhor Presidente,
O Brasil defende um acordo global, abrangente e ambicioso para combater a mudança do clima no marco das Nações Unidas. Para tanto, é preciso que os países assumam as responsabilidades que lhes cabem.
Apresentamos uma proposta concreta, voluntária e significativa de redução [de emissões], durante a Cúpula de Copenhague, em 2009. Esperamos poder avançar já na reunião de Durban, apoiando os países em desenvolvimento nos seus esforços de redução de emissões e garantindo que os países desenvolvidos cumprirão suas obrigações, com novas metas no Protocolo de Quioto, para além de 2012.
Teremos a honra de sediar a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, em junho do ano que vem. Juntamente com o Secretário-Geral Ban Ki-moon, reitero aqui o convite para que todos os Chefes de Estado e de Governo compareçam.
Senhor Presidente e minhas companheiras mulheres de todo mundo,
O Brasil descobriu que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza. E que uma verdadeira política de direitos humanos tem por base a diminuição da desigualdade e da discriminação entre as pessoas, entre as regiões e entre os gêneros.
O Brasil avançou política, econômica e socialmente sem comprometer sequer uma das liberdades democráticas. Cumprimos quase todos os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, antes 2015. Saíram da pobreza e ascenderam para a classe média no meu país quase 40 milhões de brasileiras e brasileiros. Tenho plena convicção de que cumpriremos nossa meta de, até o final do meu governo, erradicar a pobreza extrema no Brasil.
No meu país, a mulher tem sido fundamental na superação das desigualdades sociais. Nossos programas de distribuição de renda têm nas mães a figura central. São elas que cuidam dos recursos que permitem às famílias investir na saúde e na educação de seus filhos.
Mas o meu país, como todos os países do mundo, ainda precisa fazer muito mais pela valorização e afirmação da mulher. Ao falar disso, cumprimento o secretário-geral Ban Ki-moon pela prioridade que tem conferido às mulheres em sua gestão à frente das Nações Unidas.
Saúdo, em especial, a criação da ONU Mulher e sua diretora-executiva, Michelle Bachelet.
Senhor Presidente,
Além do meu querido Brasil, sinto-me, aqui, representando todas as mulheres do mundo. As mulheres anônimas, aquelas que passam fome e não podem dar de comer aos seus filhos; aquelas que padecem de doenças e não podem se tratar; aquelas que sofrem violência e são discriminadas no emprego, na sociedade e na vida familiar; aquelas cujo trabalho no lar cria as gerações futuras.
Junto minha voz às vozes das mulheres que ousaram lutar, que ousaram participar da vida política e da vida profissional, e conquistaram o espaço de poder que me permite estar aqui hoje.
Como mulher que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da democracia, da justiça, dos direitos humanos e da liberdade.
E é com a esperança de que estes valores continuem inspirando o trabalho desta Casa das Nações que tenho a honra de iniciar o Debate Geral da 66ª Assembleia Geral da ONU.
Muito obrigada.”

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Laicidade estatal e liberdade religiosa

Laicidade estatal e liberdade religiosa.

Decisões políticas influenciadas pelo fundamentalismo homofóbico


Elaborado em 08/2010. (Do Jus Navigandi)

A intervenção de movimentos religiosos fundamentalistas provoca reflexos na expressão político-social dos direitos humanos sexuais e reprodutivos.

Resumo
No presente trabalho de pesquisa, utilizou-se de metodologia analítica e interpretativa, com o fim de traçar um liame entre a intervenção de movimentos religiosos fundamentalistas no Estado Republicano atual e os reflexos desta intervenção na expressão político-social dos direitos humanos sexuais e reprodutivos, bem como sua influência na valoração do princípio da dignidade humana daqueles que possuem orientação sexual diferente do heterossexualismo. Demonstra-se, criticamente, a existência de uma sociedade heterossexista e das lutas dos grupos minoritários contra a opressão de grupos dominantes, objetivando construir uma democracia social que respeite legal e socialmente as orientações sexuais não heterônomas.
Palavras-chave: Direitos humanos sexuais; Laicidade estatal; Fundamentalismo religioso; Heterossexismo.
Sumário:1. Considerações Iniciais; 2. Direitos Sexuais e Reprodutivos, 2.1. Descrição e Narrativa Histórica, 3. Democracia social e heterossexismo, 3.1. Homofobia; 4. Liberdade religiosa e secularização do Estado. 4.1. Laicidade estatal no mundo moderno; 5. Fundamentalismo Religioso: subversão do direito à liberdade religiosa, 5.1. Fundamentalismo religioso homofóbico; 6. Considerações Finais; 7. Referências Bibliográficas.

1. Considerações Iniciais.

O direito à liberdade se assenta, na Modernidade, como direito de índole negativa - isto é, como direito de proteção do indivíduo contra eventuais abusos de poder por parte do Estado-, fundado na consideração de que o Estado existe senão para assegurar aos cidadãos seu bem-estar e o respeito à sua condição de homem tout court. Ainda não podemos olvidar que este mesmo Estado, além de respeitar ideologias contrárias a si mesmo, deve atender as necessidades dos membros da sociedade que lhe dá vida, constituindo-se, pois, em instrumento para o alcance de um desiderato maior, a saber, a proteção da vida e da dignidade humanas.
Enquanto característica que distingue o homem de todos os outros seres, a liberdade se apresenta, a priori, como condição sine qua non para a proteção de outros valores supremos na ordem sócio-jurídica, representando um importante vetor do processo político democrático e é indispensável para a plena afirmação da dignidade humana e, com base nela, para a construção e consolidação de uma sociedade onde os direitos fundamentais emergentes da natureza humana sejam garantidos a todos os cidadãos sem exceção.
Poder-se-ia fazer uma subdivisão genérica do direito à liberdade em cinco categorias principais, reconhecidas, inclusive, pelo Direito Internacional, conforme se obtém de leitura da Declaração Universal de Direitos Humanos (DUDH): liberdade de pensamento (art.18, DUDH), liberdade de expressão (art.19, DUDH) liberdade religiosa (art.18, DUDH), liberdade de ir e vir (art. 13, DUDH) e liberdade laboral (art.23, DUDH). Conforme a temática escolhida para este trabalho, iremos nos concentrar na liberdade religiosa.
O direito à liberdade religiosa nasceu com o advento do constitucionalismo liberal que, por sua vez, desenvolveu-se de mãos dadas com a Modernidade. A dicotomia histórica e secular, na Idade Moderna, entre a liberdade do indivíduo e o absolutismo do monarca, fez nascer a primeira noção de Estado de Direito, que evolui e se completa com a filosofia liberal, a qual encara a liberdade como requisito essencial para se alcançar a "igualdade proporcional", isto é, para materializar o princípio de nivelamento das oportunidades e da igual satisfação das necessidades fundamentais.
Nas sociedades de países ocidentais, não se consegue separar os valores morais, construídos pelo "homem comum", dos valores impostos pela religião predominante naquele meio. Desse modo, alguém que vive em uma sociedade cuja religião predominante prega o cristianismo não pode ser obrigado a se converter a qualquer religião cristã, mas está obrigado a aderir à sua moralidade, que é aquela defendida socialmente em seu meio.
Muitas pessoas consideram a religião como freio para os impulsos criminosos de grande parte da humanidade ou para os desvios de conduta, especialmente no campo da sexualidade, que continua sendo pensada em termos morais e não na perspectiva da liberdade individual. Ao criar balizas para o comportamento e a moral dos indivíduos, as grandes religiões monoteístas concebem, muito facilmente, dogmas solidificados na intolerância.
Reconhecida na Declaração Universal de Direitos Humanos, em seu art.18, bem como em tantas outras Constituições nacionais [01], a liberdade individual para o livre exercício de uma religião não pode sobrepor-se ao interesse coletivo e a direitos de categoria mais essencial, tais como devem ser considerados os direitos à vida e à dignidade da pessoa humana.
O desafio de compreensão das relações entre religião e diversidade sexual vem sendo enfrentado no campo dos estudos antropológicos há algumas décadas. Muitas religiões incorporam diferentes aspectos dos valores modernos, tornando menos nítidas as fronteiras entre a lógica de uma liberdade laica e a lógica de uma religiosidade repressiva.
Como já dizia J.S Mill, "atualmente,a tirania da maioria é normalmente incluída nos males contra os quais a sociedade precisa ser protegida(...)a maioria pode ser uma parte que deseja oprimir outra parte".(MILL, 1974, p.138)
É desejável que cada indivíduo tenha sua convicção e queira convencer outras pessoas a partir de argumentos racionais, em espaços de discussão em que as convicções possam vir à baila e se enfrentarem umas as outras argumentativamente, afinal, a liberdade de pensamento é um princípio universal do direito, verdadeiro direito natural de cada ser humano que, antes mesmo de estar prescrito em Códigos e Leis, já faz parte do indivíduo desde que nasce; contudo, a Igreja subverte-o e ao princípio do Estado laico quando, por exemplo, tenta impedir os trâmites procedimentais de Projetos de Lei ou Bills que objetivam legalizar o estabelecimento de parcerias civis para casais homossexuais.
Deve-se traçar um liame bem definido entre o direito a liberdade religiosa e o fundamentalismo, que surge, basicamente, como uma reação ao chamado "modernismo" na teologia e é caracterizado pela sua influência "holística" sobre as atitudes dos crentes (religiosos), à medida que todos os aspectos da vida passam a ser sensíveis à opção religiosa, contaminando as posições em relação a quase todos os temas da vida, em especial as questões da não tipificação criminal do aborto, da sexualidade e da família, da homossexualidade, da eutanásia, da investigação bio-humana, etc. A religião termina por capturar opções políticas.
O que as diversas formas da visão fundamentalista têm em comum é o caráter autoritário e conservador de suas definições. Todas elas são reduções doutrinário-dogmáticas conservadoras da vida humana a convenções e conceitos produzidos social e historicamente, mas elevados a condição de verdades absolutas, universais, inquestionáveis.
Na ideologia fundamentalista, a homossexualidade é um fenômeno estranho a esclarecer na vida dos indivíduos e o homossexual é portador de uma "causa determinante"que o torna sujeito de uma sexualidade particular. Podemos apontar que a eficácia desta ideologia, entre outras formas, realiza-se na sua ancoragem nas esferas psíquica, emocional e cognitiva (a subjetividade de cada um, uma parte dela inconsciente) de cada indivíduo.
Neste sentido, propõe-se, neste artigo, fazer-se uma análise crítica sobre os limites de exercício da liberdade religiosa, demarcando as diferenças dos atos daqueles que cumprem com este direito humano, que lhes é assegurado e reconhecido internacionalmente, daqueles que são fanáticos por uma escritura sagrada que é infalível em seus termos, para a qual não há outras interpretações ou fórmulas.
Ao traçarmos os limites entre o exercício da liberdade religiosa e do fundamentalismo religioso, pretendemos nos focar nos aspectos homofóbicos que caracterizam alguns dos atos e pensamentos fundamentalistas, seguindo a linha de raciocínio que Ronald Dworkin traçou em 1977, mas que, ainda nos dias atuais, encontra respaldo, qual seja: a) os preconceitos não são razões válidas; b) o sentimento pessoal de nojo ou repulsa não é razão suficiente para um julgamento moral; c) o julgamento moral baseado em razões de facto, que são falsas ou implausíveis, não é aceitável ("fanáticos religiosos nos Estados Unidos da América afirmam que a culpa pela pandemia do AH1N1 é a legalização do casamento gay em alguns estados norte- americanos e, em geral, pela tolerância às comunidades gays"); d) o julgamento moral baseado nas crenças alheias ("todos sabem que a homossexualidade é um mal") também não é justificável.(DOWRKIN, 1977, p. 240-258).
Na direção de questionar os limites da noção dos suportes sociais da existência como base para a construção de uma democracia política e social de fato (NARDI, 2005) utilizo como elemento tensionador a idéia de democracia sexual proposta por Eric Fassin (2006), que encontrará respaldo nas idéias de Dowrkin acima ilustradas, como se verá ao longo deste trabalho.
Por fim, ao buscar compreender a tensão introduzida pela democracia sexual no contexto dos ideais fundamentalistas, a partir de análise do pensamento das classes dominantes em razão aos grupos minoritários, pôde-se visualizar quais estratégias de inflexão da norma heterossexual (ou de reafirmação desta) que disputam a legitimidade da "verdade sobre o sexo" em contextos distintos.

2. Direitos Sexuais e Reprodutivos. 2.1. Descrição e Narrativa Histórica.

O termo "direitos reprodutivos" tornou-se público no I Encontro Internacional de Saúde da Mulher realizado em Amsterdã, Holanda, em 1984. Contudo, foi na Conferência Internacional da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre População e Desenvolvimento (CIPD), realizada no Cairo, em 1994, que se conferiu papel primordial à saúde, aos direitos sexuais e aos direitos reprodutivos, ultrapassando os objetivos puramente demográficos, focalizando-se no desenvolvimento do ser humano. A CIPD provocou uma transformação profunda no debate populacional ao dar prioridade às questões dos direitos humanos.
Dessa conferência decorreu o Plano de Ação do Cairo que, além de introduzir o conceito de direitos reprodutivos, sinalizou para o reconhecimento de direitos sexuais, destacando o direito de exercer a sexualidade e a reprodução livre de discriminações, coerções e violências. Na mesma oportunidade, também foi assentado que os Estados-Parte, além de estimularem e promoverem o relacionamento respeitoso e igualitário entre homens e mulheres, devem dedicar atenção especial a segmentos populacionais mais vulneráveis às violações de direitos humanos nos campos da reprodução e da sexualidade (VENTURA, 2003, p.14).
Embora tenha sido impossível conceituar no Cairo os direitos sexuais, são inúmeras as referências ao "sexo" ou à "sexualidade". Petchesky afirma que a inclusão da saúde sexual como um direito a ser protegido origina-se do esforço das delegações da África Sub-Saariana, cujas conseqüências da epidemia do HIV e Aids foram e continuam sendo devastadoras. ( PETCHESKY,1999, p.19)
Segundo o parágrafo 7.3 do Programa de Ação do Cairo,
(...)Os direitos reprodutivos abrangem certos direitos humanos já reconhecidos em leis nacionais, em documentos internacionais sobre direitos humanos e em outros documentos consensuais. Esses direitos se ancoram no reconhecimento do direito básico de todo casal e de todo indivíduo de decidir livre e responsavelmente sobre o número, o espaçamento e a oportunidade de ter filhos e de ter a informação e os meios de assim o fazer, e o direito de gozar do mais elevado padrão de saúde sexual e reprodutiva. Inclui também seu direito de tomar decisões sobre a reprodução livre de discriminação, coerção ou violência, conforme expresso em documentos sobre direitos humanos(...)(grifo nosso)
Contudo, desenvolver a idéia de direitos sexuais na perspectiva dos direitos humanos aponta para a possibilidade do exercício livre e responsável da sexualidade, criando as bases para uma regulação jurídica que supere as tradicionais abordagens repressivas que caracterizam as intervenções jurídicas nesses domínios.
Com esse ideal, durante o XV Congresso Mundial de Sexologia, ocorrido em Hong Kong (CHINA), entre 23 e 27 de agosto de 2000, a Assembléia Geral da WAS - World Association for Sexology - aprovou as emendas para a Declaração de Direitos Sexuais, decidida em Valência, no XIII Congresso Mundial de Sexologia, em 1997.
A Declaração de Direitos Sexuais tem como fundamento o reconhecimento de que os direitos sexuais são direitos humanos universais, baseados na liberdade, dignidade e igualdade para todos os seres humanos e que a saúde sexual é um direito fundamental. Enumera, ainda, como um dos direitos a serem protegidos, inerentes ao ser humano, o direito à igualdade sexual, ou seja, liberdade de todas as formas de discriminação, independentemente do sexo, gênero, orientação sexual, idade, raça, classe social, religião, deficiências mentais ou físicas.
As Declarações e os citados Programas e Plataformas de Ação de Conferências Internacionais são considerados soft law, refletem-se como compromissos morais dos Estados signatários, que não implicam uma tradução automática para as legislações domésticas, contudo, estes compromissos resultam em pressão externa para que se cumpra o acordo e, eventualmente, um constrangimento político para o Estado no caso de descumprimento.
Rosalind Petchesky atenta para o fato de que o desenvolvimento, mesmo que incipiente do conceito de direitos sexuais, só foi possível de forma negativa, ou seja, enunciando o direito de não ser objeto de abuso ou exploração, no sentido paliativo de combate às violações (VILLELA, W.V. e ARILHA, M., 2003, p.131).
Cada cultura, em cada tempo histórico, constrói símbolos e signos do que é aceito e desejável em termos sexuais. A importância da reprodução como finalidade última da relação sexual não se forma somente pelo discurso sobre a mulher e seu papel na sociedade. Vincula-se, também, aos discursos sobre o sexo, de forma a restringir não só as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo, já que não geram filhos, como também o exercício da sexualidade pelas mulheres fora do casamento. Com isso, "qualquer expressão sexual ligada à obtenção de prazer, e não à reprodução, passa a ser rechaçada" (SARMENTO, 2004, p.190). O modelo normativo baseado nesta ligação sexo-reprodução, não poderia ser outro que não a heterossexualidade que continua sendo entendida como a forma "natural" de relação sexual.

3. Democracia social e Heterossexismo.

Na abordagem jurídica da sexualidade, seus conteúdos são geralmente articulados a partir das demandas envolvendo situações específicas, representativas das lutas e das reivindicações dos movimentos feministas, desde as realidades sociais da discriminação sexista e da violência, até questões relativas à saúde reprodutiva, especialmente no que diz respeito ao acesso às técnicas contraceptivas e ao aborto.
Sem subestimar em nenhum momento tais realidades, avançar na compreensão dos direitos sexuais e dos direitos reprodutivos no quadro maior dos direitos humanos, implica um alargamento de perspectiva. Isso porque os direitos sexuais e direitos reprodutivos são categorias jurídicas que traduzem fenômenos e relações sociais entabuladas não só por mulheres, mas também por homens. Tais direitos se fazem necessários, de modo proeminente, nas discussões a respeito da expressão sexual, aqui entendida na sua forma mais ampla, abarcando homossexuais, heterossexuais, bissexuais, transexuais e travestis.
Na metade do séc. XIX ganhou força uma concepção que corresponderia a uma naturalizaçãoda sexualidade humana, denominada de doutrina naturalista, cujo efeito mais destacado é ter criado a idéia segundo a qual a heterossexualidade seria inata(a natureza daria os exemplos em todas as espécies), sendo então natural e normal, e a homossexualidade seria uma tendência adquirida, não sendo, pois, nem natural nem normal.
Em 1870, um texto do médico alemão Carl Westphal, intitulado "As Sensações Sexuais Contrárias" ao considerar a heterossexualidade "normal", contrapõe-se à idéia de que as outras orientações sexuais são um desvio à norma e reveladoras de perturbação. Não são encaradas como um dos aspectos possíveis na diversidade das expressões da sexualidade humana.
Neste sentido aponta Weeks,
(...)a transformação na vida familiar, a partir do século XVIII, e as marcadas distinções de papéis sociais e sexuais masculinos e femininos associadas com isso, tiveram o efeito de aumentar a estigmatização dos homens que não se conformassem prontamente aos papéis sociais e sexuais deles esperados. Aqueles que rompessem com as expectativas sociais do que era considerado ser um homem eram categorizados como não sendo homens de verdade (...) (WEEKS,1999,p.77)
É a partir dos anos 50, e sobretudo, depois dos anos 70 do século XX, que se inicia a formulação crítica, apoiada na antropologia e na história, opondo-se ao discurso até então dominante – mesmo no chamado meio científico – que apontava o caráter patológico, marginal e desviante da homossexualidade.
O efeito político da pressão dos movimentos sociais pelo direito à livre expressão da sexualidade ganhou força após a epidemia da Aids e busca a igualdade de direitos independente da posição dos sujeitos no espectro da diversidade sexual ou de gênero.
O direito da sexualidade – e nesta ocasião utilizamos a idéia de democracia sexual, apresentada por Eric Fassin (2006) - não deve fixar-se somente em identidades e práticas sexuais predefinidas, evitando rótulos e imposições heterônomas, uma vez que classificações rígidas, fundadas em distinções sexuais monolíticas, acabam reforçando a lógica que engendra machismo ou heterossexismo no direito vigente.(CALHOUN,1993)
Deve-se compreender como se produz um espaço social que limite o menos possível as formas de viver e existir no mundo ou, ao contrário, no sentido de estabelecer novas trincheiras na afirmação de relações de dominação (masculina e heterossexista), como demonstra Judith Butler (2004), a imposição da norma heterossexual para todos continuará inviabilizando a possibilidade de viver para alguns.
Para tanto, é preciso buscar princípios capazes de abarcar, simultaneamente, os grandes eixos que têm estruturado o debate corrente sobre os direitos sexuais, a saber: as questões identitárias vinculadas à expressão da sexualidade (onde se inserem o tema da homossexualidade), as relações sexuais propriamente ditas e suas conseqüências e a busca da fundamentação dos direitos sexuais (atada à idéia de saúde sexual).
A construção dessa abordagem exige que se considere a relação entre democracia, cidadania, direitos humanos e direitos sexuais, bases a partir das quais será proposto um modelo de compreensão democrático dos direitos sexuais, alhures aduzido como direito democrático da sexualidade.

3.1. Homofobia.

A homossexualidade não tem sido concebida como um problema psicológico-social, a homofobia, sim. Pesquisas realizadas entre as mais diversas culturas mostraram que, em vários países, a tolerância dos indivíduos a grupos étnicos e minoritários tem diminuído nas últimas décadas.
Foi somente a partir do século XVIII, no Renascimento, que se começou a considerar a existência de um modelo de dois sexos biológicos distintos. Foi o ambiente igualitário da Revolução Francesa que gerou uma reviravolta no modo de pensar a existência de homens e mulheres, tendo em vista a necessidade de, a partir do referencial da igualdade, desfazer a concepção de mulher como ser humano inferior.
Inicialmente, a inteligência estava associada ao masculino e a sensibilidade ao feminino. Neste sentido, a função precípua das mulheres era, pois, a procriação, era da adequada e eficiente administração do desenvolvimento corporal e da capacidade reprodutiva das mulheres que dependia o desenvolvimento da sociedade.
Interessante notar que, segundo Fabíola Rhoden, a idéia vigente à época era de que a natureza havia provido as diferenças básicas entre homens e mulheres, mas estas seriam operacionalizadas e cristalizadas ao longo de suas vidas.(RHODEN, 2003, p.205-206)
A importância da reprodução como finalidade última da relação sexual não se forma somente pelo discurso sobre a mulher e seu papel na sociedade. Atrela-se também aos discursos sobre o sexo, de forma a restringir não só as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo, já que não geram filhos, como também o exercício da sexualidade pelas mulheres fora do casamento. Com
isso, "qualquer expressão sexual ligada à obtenção de prazer, e não à reprodução, passa a ser rechaçada".(VILLELA, 1992, p.103)
O modelo normativo, então, baseado nesta ligação sexo-reprodução, não poderia ser outro que não a heterossexualidade. Esta era (e continua sendo) entendida como a forma "natural" de relação sexual, o que só foi possível por meio da repressão às outras formas de expressão sexual.
Neste sentido, importante a observação de Gayle Rubin (1989), a qual aduz que as sociedades ocidentais modernas avaliam os atos sexuais a partir de um sistema hierárquico, que tem no topo da pirâmide erótica os heterossexuais reprodutores casados, logo abaixo os heterossexuais monogâmicos não casados, mas que constituem casais, seguidos da maior parte dos heterossexuais. Os casais estáveis de lésbicas e de gays estariam no limite da respeitabilidade, enquanto os homossexuais promíscuos estariam apenas um pouco acima das castas sexuais mais desvalorizadas, que incluem, geralmente, transexuais, travestis, fetichistas, sadomasoquistas, trabalhadores do sexo, modelos da indústria pornográfica, sendo a mais baixa de todas as castas formada por aqueles que transgridem as fronteiras geracionais. Quanto mais o grupo a que pertence um indivíduo está situado no topo da pirâmide, maiores as recompensas em termos de reconhecimento de saúde mental, respeitabilidade, legalidade, mobilidade física e social, apoio institucional e benefícios materiais.
Obtém-se que as concepções preconceituosas com relação à homoafetividade fundamentam-se em idéias religiosas e/ou oriundas de explicações biológicas e psicológicas vulgarizadas no âmbito do senso comum.
Como indício deste modelo hierárquico, observa-se, nos últimos anos, a proliferação de grupos organizados contra os dissidentes sexuais em todos os continentes. (CORRÊA; ÀVILA, 2003)
Um caso que ganhou notoriedade internacional, em Janeiro de 2005, no Brasil, foi o da impugnação, pelo Superior Tribunal Eleitoral (TSE), da candidatura de Eulina Rabelo ao cargo de prefeita do município de Viseu, no estado do Pará. Por seis votos a zero, sob o argumento de que a candidata mantinha um relacionamento estável com a atual prefeita, foi decidida sua inelegibilidade. Nos termos da decisão do então Ministro Gilmar Mendes, do TSE, "Os sujeitos de uma relação estável homossexual, à semelhança do que ocorre com os de relação estável, de concubinato e de casamento, submetem-se à regra de inelegibilidade prevista no art. 14, § 7°, da Constituição Federal (Brasileira)". Em entrevista à revista brasileira "Veja"(edição nº 1878, de 03.11.2004), a candidata impugnada expressou o paradoxo de sua situação: "Eu me senti abandonada pelas leis do meu país (sic!). A Constituição (Federal Brasileira) não reconhece união estável entre homossexuais quando o assunto são seus direitos, mas de repente reconhece para os deveres".
A discriminação, pois, tomou nova forma de expressão, a sutil ou encoberta, em relação a quaisquer formas de preconceito social, especialmente em razão de conjuntos normativos proibitivos de atos ou condutas preconceituosas contra as denominadas minorias sociais. Especificamente, posicionamentos religiosos em relação ao homossexualismo têm sido motivo de polêmica, principalmente porque os mesmos parecem contrariar o princípio universal de direitos humanos que proclama a "igualdade entre todos perante a Lei".
De acordo com Myers (2000), em alguns países, como França, Inglaterra, Alemanha, Austrália e Holanda, o preconceito sutil apresenta as seguintes características: exagero das diferenças étnicas, expressão de pouca admiração e afeição por minorias, discriminação de minorias com base em justificativas não-raciais (ver também Pereira, Torres & Almeida, 2003).
Aponta-se a necessidade de desconstrução dos binarismos estanques. A dominação masculina e as relações homens–homens são marcadas por violências, simbólicas e concretas, de sorte que para ser homem é imperativo distanciar-se do oposto – mulheres e crianças - , tornando o feminino o aspecto central a ser rejeitado, sob pena de ser (mal)tratado como tal (núcleo da homofobia). Ademais, os próprios homens são submetidos a hierarquias masculinas que incluem vetores como os de classe e de etnia.
Fazendo um paralelo entre as sociedades complexas, Welzer-Lang (2004) afirma que aceitando as leis dos maiores - os que detêm a dominação, os homens que são poderosos e que oprimem outros homens e outras mulheres - é que se constituem as identidades masculinas. Para ser homem é preciso não ser associado à mulher. O feminino torna-se o pólo de rejeição central, o inimigo interior que deve ser combatido sob pena de também ser assimilado a uma mulher e também ser (mal)tratado como tal. Apreende-se a sexualidade masculina através dessa iniciação, a partir dos prazeres de se estar entre homens e ser distinguido das mulheres.
Após o estudo realizado nas mais diversas obras sobre o tema, observou-se que a homofobia remete-se a um repúdio que busca dar conta da maneira como a identificação de gênero se volta e se fixa em cada sujeito.
Instaura-se, outrossim, uma ameaça à universalidade dos direitos humanos, uma vez que existem vozes que buscam um conceito de direitos humanos sensível aos valores culturais, que fazem uso político da cultura, de suas tradições sociais, e, inclusive, de dogmas religiosos fundamentalistas (como veremos a seguir) para oprimir não só as mulheres, mas também as minorias sexuais, negando-lhes o exercício pleno da cidadania.

 

4. Liberdade religiosa e secularização do Estado.

É quase indiscutível que a religião ocupa um lugar central na constituição do mundo que temos. Entretanto, as manifestações religiosas no mundo da ciência experimental moderna, tenderiam a um persistente declínio causado pela secularização da sociedade, e ainda que o indivíduo continue a crer e a praticar suas crenças múltiplas, as religiões, como as conhecemos, tradicionalmente, tenderiam a desaparecer.
De acordo com Durkheim (1996), o homem se define em sua coletividade, uma vez que só é homem enquanto parte de uma sociedade. Vivendo em sociedade as pessoas têm necessidade de explicar o mundo que os cerca, e a religião surgiu em satisfação à necessidade especulativa dos homens. Desse modo, a religião é responsável por grande influência na conduta de vida das pessoas e teria, por este motivo, ela mesma, uma estrutura de poder interna, com espaços e mensagens privilegiadas, baseadas em interesses específicos, e com uma dinâmica de interesses próprios.
O direito à liberdade de religião faz parte dos elementos que compõem a idéia de democracia moderna. Mantém um elo entre os princípios de liberdade de consciência, liberdade de expressão, liberdade de associação - corolários do direito à liberdade de pensamento -; e resulta, como solução para as situações problemáticas que envolvem discriminações civis em Estados que mantinham religiões oficiais, em conflitos muitas vezes armados.
Independentemente do sistema constitucional no qual esteja discriminado, o direito ao exercício livre de sua religião pode ser segmentado em: 1) Liberdade de crença; 2) Liberdade de culto e 3) Liberdade de organização religiosa.
Mais do que uma função social, o campo religioso desempenha uma função política, já que determina ações e posições no mundo. Destarte, a relação entre religião e política não deve ser pensada como um exercício de dispersão sem limites. Segundo o antropólogo Emerson Giumbeli, as condições associadas ao princípio da liberdade religiosa são as seguintes,
(...) separação entre Estados e Igrejas, não intervenção do Estado em assuntos religiosos, restrição dos grupos confessionais ao espaço privado, igualdade das associações religiosas perante a lei, garantia de pluralismo confessional e escolha individual(...)(GIUMBELLI, 2001, p.23)
Hoje, porém, nos mais diversos países, volta-se a reivindicar a liberdade religiosa, diante de governos que insistem em instaurar credos oficiais e políticas que implicam na discriminação de minorias religiosas. O campo político-jurídico deve ser secularizado, ou seja, definido como áreas onde o interesse geral e o bem-comum não sejam determinados por preceitos religiosos diversos.
A noção de secularização acompanha a idéia de uma modernidade que constrói a sua autonomia em relação à religião, a qual deixa de ser a instância ordenadora do social e passa a se circunscrever no âmbito privado, da subjetividade individual, perdendo ou diminuindo, assim, seu poder ou sua importância simbólica na sociedade.
O tema da secularização ou laicidade estatal é complexo e não é fato consumado nem nos países em que a modernidade esteve na agenda na formação dos Estados-nações, todavia, as crenças, valores e práticas religiosas não se restringem aos cultos ou à vida privada dos indivíduos mas, constituem, verdadeiramente, os indivíduos e, assim, interferem na maneira com que se relacionam com o mundo, que o lêem, na maneira com que fazem parte dele.
Na opinião de Alexandre B. Fonseca, "A religião não voltou a ocupar a centralidade e o poder de outrora. Isso pode até vir a acontecer, mas não está acontecendo e é impossível que aconteça num futuro próximo"(FONSECA, 2002, p. 30-31)
Esse pensamento, segundo Joanildo Burity, seria, fruto de uma episteme liberal fundada num dualismo entre espaço público e vida privada, no ideal de neutralidade do Estado, e na separação entre igreja e Estado. Exemplos como a resistência da Igreja Católica na Polônia e a politização do catolicismo e do protestantismo histórico latino-americanos na década de 70 e 80, seriam evidências contrárias àquelas expectativas, apontado, ao invés disso, para "um deslocamento de fronteiras e ressignificação ou redescrição de práticas".(BURITY, 2001, p.1)
A liberdade religiosa concebe-se como direito natural, inerente à qualidade de ser humano, que regula as relações entre o Estado e a Igreja, em consonância com a liberdade dos indivíduos e dos grupos, com o fito de sustentar, defender e propagar suas crenças religiosas, bem como se manifesta como um complexo de liberdades, alguns dos quais se circunscrevem à esfera individual dos cidadãos, enquanto outros se apresentam como direitos coletivos. A multiplicidade dos direitos abrigados sob seu manto é reportada, inclusive, pelo direito internacional [02].
É, outrossim, direito humano de toda pessoa não ser obrigada a agir contra a própria consciência e contra seus princípios religiosos. Segue-se daí, não ser lícito obrigar cidadãos a professar ou a rejeitar qualquer religião, ou impedir que alguém entre ou permaneça em comunidade religiosa ou mesmo a abandone. O direito de liberdade de consciência e de crença deve ser exercido, concomitantemente, com o pleno exercício da cidadania.

4.1. Laicidade estatal no mundo moderno.

A secularização do aparato jurídico-político constitui em um processo histórico decisivo na formação das sociedades modernas ocidentais. Com a separação, o Estado, além de adquirir autonomia em relação ao grupo religioso ao qual se aliava, amplia sua dominação jurídica e política sobre a esfera religiosa. Destarte, o laicismo não foi introduzido abruptamente. A emancipação da sociedade em relação ao domínio religioso foi sendo feita progressivamente, ao longo de um processo iniciado com a Revolução Francesa de 1789.
A separação Estado–Igreja e a moderna secularização do Estado propiciaram a efetivação de profundas mudanças no campo religioso. Instaurada pelos Estados liberais – cujo ideário político preconiza a neutralidade religiosa do Estado e a restrição da religião à vida privada ou à particularidade das consciências individuais –, a separação desmantelou o monopólio religioso, erodindo, ao menos parcialmente, as prerrogativas que a religião oficial usufruía de sua aliança política com o Estado, e resultou na garantia legal de liberdade religiosa, na defesa da tolerância religiosa e na proteção do pluralismo religioso.
Contudo, as evidências de que debates envolvendo temáticas religiosas tornaram-se praticamente incontornáveis na atualidade, não estão apenas nos noticiários, mas também em debates que colocam em questão as relações entre Estado, religião e sociedade.
Citemos a França como exemplo. Entre julho e dezembro de 2003, foi criada, pela Presidência da República, uma "Comissão sobre a Laicidade" do Estado. Formada por vinte membros, funcionários, militantes, intelectuais de diversas especialidades, a qual promoveu centenas de audiências abertas e algumas dezenas de audiências fechadas. À comissão foi solicitado um conjunto de medidas que servissem para orientar o Poder Executivo. O relatório foi oficialmente entregue em dezembro de 2003.
O que nos interessa neste relatório, trata-se de seu tema geral, a "laicidade estatal". Um dos vetores deste relatório procura reforçar a neutralidade do Estado, especialmente nas regras aplicadas aos servidores e serviços públicos. Nesse sentido, insiste-se que os servidores devem exercer suas funções colocando em suspensão suas opiniões pessoais, políticas e filosóficas, inclusive, as religiosas. Por outro lado, medidas diversas colocam o Estado como um fator direto de intervenção no campo religioso. Dentre elas estão a criação de uma "escola nacional de estudos islâmicos".
A "Comissão sobre a Laicidade" fez diversas e específicas recomendações a propósito das instituições educacionais. Afirma o relatório, "o espaço escolar deve permanecer para elas (as alunas) [03] um lugar de liberdade e de emancipação". Com base nisso, a comissão propôs que fosse elaborada uma lei que proíba nas escolas públicas "os trajes e signos manifestando um pertencimento religioso ou político". Essa recomendação foi prontamente acolhida pela Presidência da República, que algumas semanas depois enviou um projeto de lei à Assembléia com base no relatório da Comissão sobre a Laicidade, o qual transformou-se em Lei em março de 2004 (Lei n° 2004-228, de 15 de março de 2004).
No contexto da luta por uma cultura laica e democrática que respeite as liberdades individuais e valorize a diversidade, o conflito é importante. A disputa entre perspectivas de valores e de interesses é o grande motor da história, não há futuro para a humanidade com a imposição de doutrinas fundamentalistas.
Entretanto, a batalha por uma cultura laica, plural e progressista só será eficaz se for além da esfera do Estado. Com efeito, não é suficiente uma decisão judicial ou um texto de lei para garantir que essa cultura seja assegurada. Deve-se, portanto, avançar na luta por uma mudança cultural para que se tornem hegemônicos esses valores.
O real problema não é a laicidade estatal, mas o tratamento igualitário das diversas raças e culturas em cada país. A democracia moderna deve admitir que possa haver católicos, islâmicos, budistas, judeus, protestantes, etc e dar-lhes um lugar igual dentro da sociedade, por meio de uma assimilação forçada (não se pode permitir que o debate quede em questões meramente políticas e que envolvem ideologias particulares de cada cidadão, o coletivo deve ser valorizado, a dignidade da pessoa humana deve ser valorizada) que virá da mestiçagem e de políticas sociais voluntárias.

5. Fundamentalismo religioso: subversão do direito à liberdade religiosa.

Na nossa sociedade ocidental, tem-se a idéia de que a "essência" da religião estaria expressa na sistematização teológica (conhecimento acadêmico institucional). Porém, se pensarmos em religião como um sistema de crenças e práticas, constatamos que religião não é somente Teologia, pois é necessário compreender as relações de poder que definem o que é correto e o que é errado dentro de uma tradição institucionalizada, ao menos a partir de uma perspectiva sócio-democrática.
Dentro de um aspecto histórico-cultural, tanto crenças como práticas conferem os mais variados sentidos religiosos. Tomar posicionamento de uma ou de outra significa identificar-se com um lugar de poder. O que devemos fazer é entender como diferentes crenças e práticas fazem sentido para as pessoas e os grupos que as adotam, em contextos históricos específicos.
Embates dentro do campo religioso suscitam preocupação com a questão da tolerância religiosa e do diálogo inter-religioso. O estabelecimento de representações (símbolos que constituem nossa própria maneira de ser, de pensar e agir, dentro de contextos variados, definindo identidades não estanques) não é pacífico nem consensual, mas conflituoso, pois se cada grupo ou indivíduo se compreende de uma determinada forma, a legitimação de uma identidade passa pela desqualificação de outras.
A forte marca heterodoxa da religiosidade impede que se encontre nela elementos que permitam entender o diálogo existente entre as formas religiosas e as racionalistas de se conceber a história. Por exemplo, uma religiosidade popular que incorpore elementos cristãos e kardecistas operará com dois conceitos distintos e excludentes de história, o retilinear e escatológico cristão, desenvolvido a partir de Santo Agostinho, e os ciclos de recomeço da doutrina da reencarnação do kardecismo [04].
Desse modo, é imprescindível que nosso olhar se fixe no diálogo, áspero e contundente, no mais das vezes, entre as igrejas institucionalizadas e os racionalismos.
Quando observamos que as circunstâncias que envolveram a afirmação histórica da liberdade religiosa conectam-se ao pluralismo religioso advindo da quebra da unidade teológico-política da cristandade e à eclosão do constitucionalismo moderno, o valor que historicamente se sobressai como fundamental ao reconhecimento do direito à liberdade religiosa é o princípio da igualdade. A idéia de liberdade religiosa somente pode prosperar num contexto em que se busca o respeito à igualdade de direitos entre todos os cidadãos. Igualdade esta que deve ser interpretada como equilíbrio do poder, sempre presente nas identidades hegemônicas, geralmente disfarçado como universal, com o reconhecimento, até mesmo a celebração pública, de identidades marginais ou suprimidas.
As religiões derivadas do cristianismo se sustentam em uma concepção da história que tem dois fundamentos, sendo o primeiro a noção de retilinearidade e de escatologia e o segundo a noção de história como processo progressivo. Entrelaçando essas duas noções está a concepção de ser a vontade humana o motor e a direcionadora da história.
Nesse contexto, deve-se tomar uma posição: a) escolhendo-se os ângulos que se julga melhores, ou espreitando-se por entre os limites colocados pelas circunstâncias ou b) fica-se em posição de desinteresse, mas, ao mesmo tempo ativo, ou seja, nem se deixa de contrair vínculos – de amizade, de antagonismo, de indiferença – em relação ao que se vê, nem determina-se ideologicamente.
Nos Estados Unidos, teólogos protestantes conservadores, muitos originários do puritanismo inglês, se posicionam contrários à teologia liberal [05] e entre 1909 e 1915 seus seguidores publicaram uma série de volumes com o título The Fundamentals: A Testimony to the Truth (Os Fundamentos: Um Testemunho à Verdade). É o título desta coleção que irá qualificar esse movimento de fundamentalista, pois ele quer fixar os fundamentosda fé cristã. Esses pontos expressam verdades que devem ser aceitas e não debatidas, pois estão na bíblia e ela não contém erros. Tudo que está na bíblia foi inspirado por Deus e, portanto, deve ser acatado, pois é para o bem e felicidade do ser humano.
Tudo quanto o homem fez ou fará em concreto na história reflete sua opção – ou ele age conforme os preceitos religiosos e isso se reflete no equilíbrio social, ou ele age contra esses preceitos e gera o caos social.
Nas palavras de Leonardo Boff, o fundamentalismo pode ser assim definido,
(...)Não é uma doutrina. Mas uma forma de interpretar e viver a doutrina. É assumir a letra das doutrinas e normas sem cuidar de seu espírito e de sua inserção no processo sempre cambiante da história, que obriga a contínuas interpretações e atualizações, exatamente para manter sua verdade essencial. Fundamentalismo representa a atitude daquele que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista(...)(BOFF, 2002, P.25)
Os fundamentalistas religiosos justificam seus atos afirmando serem eles, a única maneira de abraçar um ideal de passado coletivo mais puro, aqueles que se apegam à letra da palavra reveladacomo sendo a única verdade, quem nutre a convicção de que o texto escriturístico está livre de erros humanos e só a interpretação literal tem cabimento e validade.(PIERUCCI, 2004)
A divulgação pública do fundamentalismo se deu, sobretudo, com o debate sobre a proibição dos professores de biologia de ensinarem, nas escolas, as teorias evolucionistas. Desde os anos 20, os fundamentalistas, temendo que o darwinismo levasse os jovens a perderem sua fé em Deus, na bíblia, ou na doutrina "fundamental" do cristianismo, vem criando mecanismos legais, proibindo o ensino da Teoria da Evolução.
Os Estados Unidos dispõem de várias das melhores universidades do mundo, abrigam metade dos cientistas premiados com o Nobel e detêm o registro de mais patentes do que todos os seus concorrentes diretos em conjunto. Ainda assim, só um em cada dois americanos acredita que o homem possa ser produto de milhões de anos de evolução. (CARELLA,VEJA,2009)
O biólogo americano David Sloan Wilson, da Universidade Binghamton, disse a repórter Gabrielli Carelli, da revista brasileira Veja, na edição alhures citada, que: "(...) Infelizmente, a evolução é percebida por muitos como uma arma projetada para destruir a religião, a moral e o potencial dos seres humanos".
Dentro das igrejas existem movimentos de reação contra essa dominação de ideais e dogmas fundamentalistas, os quais estão baseados em uma posição que associa a missão religiosa ao compromisso com a justiça social. Destarte, nas últimas décadas, o movimento fundamentalista tem articulado religião e política, nos mais diversos países, como uma forma de fazer valer os valores cristãos a partir de sua concepção teológica. Desse modo, as relações da vida cotidiana entre a igreja e a política vão se tornando cada vez mais difíceis de serem enfrentadas; especificamente, a construção do Estado laico, tanto na sua formalidade como na sua prática.

5.1. Fundamentalismo religioso homofóbico.

O fundamentalismo religioso é o caso que melhor ilustra o mergulho na contingência bruta e a construção de um imaginário que não a enfrenta nem a compreende, mas simplesmente se esforça por contorná-la apelando para uma forma inseparável de transcendência: a divina, de modo a justificar atitudes religiosas fanáticas, um retorno à sociedade pré-moderna ou mesmo práticas violentas.
Sua origem encontra-se no universo religioso, entretanto, a sua abrangência na sociedade contemporânea ultrapassa esse universo e ocupa os espaços da política, da economia e das artes, carregando consigo um traço tipicamente ideológico.
O fundamentalismo apresenta-se como reação à modernidade ocidental, liberal e tecnocrática. É caracterizado pela inimizade à ciência e à razão. Outrossim, de acordo com seus conceitos, as artes são conduzidas pelas rédeas de uma moral definida em termos religiosos e a economia e a administração política são organizadas sob a dominação de critérios religiosos tradicionalistas.
A interpretação atualizada da letra da doutrina é um risco para uma mente fundamentalista, pois pode vir a perder sua verdade original, primitiva. Esta compreensão gera intolerância e desprezo do outro e das outras maneiras de compreender a verdade.
Recorrendo à razão ou à luz natural, quando dela carece para impor o que interpreta e expulsando a razão quando esta lhe mostra a falsidade da interpretação, ou quando já obteve a aceitação do seu ponto de vista, a atitude fundamentalista, em face de sua razão estabelecida e imutável, desenha o seu lugar próprio da teologia. Sobressai-se, neste sentido, uma doutrina naturalistasegundo a qual a heterossexualidade é a forma da sexualidade humana produzida pela natureza – e, acrescentam os religiosos, a única aceita por Deus, Javé, Allah (os termos variam conforme as crenças). A concepção predominante é sempre a de que a homossexualidade é um "desvio", uma "suspensão" do desenvolvimento sexual considerado normal.
A necessidade de impormos limite à tolerância torna-se cada vez mais evidente. No sentido de que, não podemos permitir que sob o manto do exercício do direito humano à liberdade religiosa, atos de violência moral, psicológica e/ou física [06] irrompam como a essencialidade e fundamentalidade do direito à dignidade da pessoa humana das minorias sociais, quais sejam, negros, índios, idosos, e aqueles que possuem orientação sexual diversa da heterossexual, que seriam os homossexuais, bissexuais, travestis e transexuais.
A liberdade moderna, significando ausência de coação, exige a tarefa crítica de conhecer e determinar o que de fato coage e limita a vida dos homens. As coações podem ser internas (subjetivas) ou externas (objetivas), mas, independentemente de sua característica, é preciso opor-se a elas quando injustas, indevidas ou cruéis.
A visão criacionista entende o sexo como motivo do companheirismo e da reprodução, existindo só em virtude de certa complementaridade entre o homem e a mulher. Sustentam, ainda, que nenhum outro modelo de vivência sexual pode ser naturalou moralmente aceitável.
O Vaticano editou nos primeiros dias de Abril de 2003 um polêmico glossário de termos sexuais. Trata-se do "Léxico para termos ambíguos e coloquiais sobre vida familiar e questões éticas". O capítulo sobre homossexualidade e homofobia afirma que a homossexualidade deriva de um conflito psicológico não resolvido, afirma ainda que os homossexuais não são normais e que os países que permitem os casamentos unissexuais são habitados por pessoas com mentes profundamente perturbadas. [07] Oficialmente, portanto, a posição da Igreja Católica, continua sendo homofóbica e gerando polêmica.
Nesta linha de raciocínio, paradoxalmente, lembramos-nos do escândalo da chamada "pedofilia de batina", que veio a público no primeiro semestre de 2002, em diferentes partes do mundo, e que tem provocado entre os católicos, ainda mais discussões sobre a homossexualidade.
Alguns luteranos, embora contrários à ordenação de homossexuais, chegam a reconhecer que seria um engano expulsar os homossexuais das celebrações religiosas com proporções semelhantes à segregação ocorrida na mesa da comunhão, embasada num critério racial, levada a cabo por cristãos sul-africanos durante a apartheid (BRASH, 1998). Outros, ao contrário, apresentam idéias mais conservadoras, defendendo a proibição completa dos homossexuais nos templos religiosos. Entretanto, em jogo nesse debate está a compreensão de doutrinas centrais como a natureza da igreja, seu ministério e a interpretação da bíblia.
Contudo, convivem posições diferenciadas entre os cristãos e até mesmo entre membros da hierarquia da Igreja Católica. Destarte, não pretendemos, neste trabalho, nos concentrar em ideologias individuais, outrossim, nos dogmas e doutrinas das religiões, amplamente consideradas.
As grandes religiões monoteístas não têm apenas que enfrentar a explicação da realidade oferecida pelas ciências, mas têm ainda que enfrentar, de um lado, a pluralidade de confissões religiosas rivais e, de outro, a moralidade laica determinada por um Estado secular. Acabam por reconhecerem-se e à própria ciência (cujas lógicas lhes são quase impossíveis de traduzir) como rivais. Destarte, se imaginam em relação imediata com o absoluto e portadoras da verdade eterna e universal, excluem o trabalho do conflito e da diferença e produzem a figura do "outro" como demônio e herege.
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