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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Liberdade de culto e secularismo exigem reciprocidade

Toda vez que se busca a supressão de privilégios, a correção de rotas desviadas, há sempre muita grita. Foi assim em relação ao nepotismo; está sendo assim em relação aos privilégios que religiões vem gozando em relação ao estado republicano.

Raros são os que aceitam abrir mão com serenidade de seus privilégios, ilegalidades, reconhecendo sua ilegalidade e ilegitimidade. Nem mesmo padres, pastores, bispos. Eles são simplesmente humanos. Se esquecem, nessas horas, as palavras daquele que pregam, - os princípios do "cada um com o seu cada um", ou o do "a César o que é de César, a Deus o que é de Deus".

O princípio da laicidade (ou secularismo) significa que existe liberdade de culto; que todas as religiões são igualmente válidas e merecem ser respeitadas. TODAS, sem exceção. Nenhuma é melhor ou “mais verdadeira” que a outra. Nenhum deus é o único: todas as concepções de divindades são legítimas e todas DEVEM ser respeitadas igualmente. Até a religião de não ter religião! Também chamada ateísmo. Sim, porque crer que não existem deuses não deixa de ser uma... Crença! Ainda que pautada pela ciência, é uma forma de conceber o mundo e suas manifestações.

Outro aspecto da laicidade é a garantia de que o Estado não se intrometerá nos assuntos religiosos; cada credo sendo livre para estabelecer os seus valores e postulados.

Ocorre, porém, que, como explicado pelo constitucionalista Daniel Sarmento, a laicidade (ou respeito à diversidade de credos) é uma via de mão dupla (SARMENTO, 2007): - O Estado não faz ingerências nas doutrinas religiosas, nas formas de realização do seu culto, nos intrumentos ritualísticos e as religiões não se introduz nos assuntos da República.

Esse porém é o aspecto mais esquecido do secularismo! As igrejas estão muito de acordo que o Estado não exerça qualquer influência sobre, por exemplo, a organização interna de sua religião, os modos de suas liturgias... 

Também estão muito de acordo que o Estado que não cobre tributos sobre a propriedade dos imóveis que são seus; que cobre impostos, taxas e emolumentos (IPTU, Imposto sobre a Transmissão de Bens, Imposto de Renda, Imposto sobre Operações Financeiras, taxas para concessão de Alvarás etc.).

No entanto, não admitem a mão dupla para essa via. E, assim, vivem a querer se arrogar no direito de se imiscuir nos assuntos civis; nas legislações civis!

Vivem a querer impor por todos os meios - possíveis e impossíveis - os seus valores peculiares a toda a sociedade CIVIL.

Querem Bíblias em todas as bibliotecas de escolas públicas; querem o ensino religioso nas escolas públicas; querem Bíblia na mesa diretora da Câmara e do Senado; querem poder usar o dinheiro do trabalhador, o seu Fundo de Garantia, para a construção de templos; querem que os tribunais do trabalho não reconheçam o vínculo empregatício entre padres e igrejas; querem poder realizar cultos e missas nos espaços públicos, inclusive no Palácio do Planalto, na Câmara dos Deputados, nas Assembléias Legislativas; querem exibir crucifixos em todas as repartições públicas; querem escrever trechos bíblicos em paredes de presídios; transformar espaços  no interior de presídios, que deveriam ser ecumênicos, em igrejas devocionais; querem, ademais de terem suas próprias concessões de canais de televisão, poder transmitir seus cultos nas emissoras públicas; querem que o dinheiro traga o nome de uma divindade; que a lei maior do país traga o nome de uma divindade; que os juramentos civis realizados durante a posse de servidores públicos sejam realizados em nome de uma divindade... (Todos esses exemplos dizem respeito a projetos de lei já aprovados ou em tramitação, bem como a práticas em curso)

Mais do que isso, querem ainda, ter o poder de decidir sobre qual deve ser o conteúdo da lei vigente e obrigatória a todos, mesmo àqueles que não professam o seu credo.

E nossos parlamentos, em total violação da Constituição Republicana, acatam esses interesses, em detrimento dos valores republicanos e submete o exame do conteúdo de projetos de lei às opiniões de representantes religiosos. Mas, curioso, de apenas determinados credos religiosos. 

Ora, o Estado não tem (nem deve ter) assento nas instâncias hierárquicas de qualquer religião; não interfere sobre os mitos da criação de nenhum credo; não combate nem discute sobre o conteúdo dos seus dogmas.

Então, por que insistem em manter o estado republicano sob o seu controle? Leis que autorizem a interrupção de gravidez não obriga a que todas as mulheres o façam! - Fará quem tiver necessidade e quiser. É uma faculdade. Não uma obrigação. Ninguém propõe uma lei que OBRIGUE a realização do aborto! Mas, sim, se luta para que a mulheres tenham o direito de DECIDIR elas mesmas, por si, e não por imposição de religião alguma.

Os homossexuais e travestis que buscam o reconhecimento de sua cidadania em igualdade de condições com a população heterossexual não estão a obrigar ninguém que gostem de duas práticas e forma de amar. Exigem porém respeito, isso sim. Da mesma forma que evangélicos, católicos e candomblecistas, budistas, muçulmanos.

Querer impedir que a sociedade civil possa decidir livremente sobre as suas questões por conta de crenças religiosas - seja de qual religião seja - é pretender a instauração de um regime totalitário. É pretender manter toda a sociedade civil subordinada às crenças pessoais e íntimas de parte da sociedade, ainda que essa parcela seja majoritária. Nenhuma dessas denominações aceitaria que o Estado tomasse parte em suas discussões internas!

Não é absolutamente direito de nenhuma religião o exercício do poder temporal. E, lamentavelmente, é isso que estamos a assistir, dia após dia em nosso país.

Referências:
SARMENTO, Daniel. O crucifixo nos tribunais e a laicidade do estado. Revista eletrônica PRPE, maio de 2007. Disponível em: http://www.prpe.mpf.gov.br/internet/Revista-Eletronica/2007-ano-5/O-Crucifixo-nos-Tribunais-e-a-Laicidade-do-Estado

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Projeto de poder dos evangélicos: a destruição do estado laico

Já algum tempo venho aqui chamando atenção para o projeto de poder dos evangélicos: a completa destruição do estado laico inerente ao regime republicano.

A concepção da "Igreja Estendida" visa justamente instrumentalizar este projeto.

Em linhas muito breves, a coisa se estrutura assim: 

Embora o cisma protestante desencadeado por Martinho Lutero tenha advogado a capacidade de todo cristão estabelecer diretamente sua conversação com o seu Deus e obter Dele a orientação espiritual necessitada - objetivando impedir a continuidade da comercialização e manipulação da fé, então praticada somente pelos padres católicos -, na atualidade a doutrinação neopentecostal afirma que são apenas os apóstolos, quer dizer, "os que atuam na liderança apostólica em um conjunto de igrejas" é que são dotados por Deus da prerrogativa de ouvir as Suas palavras - através do Espírito Santo:
Ao contrário do que algumas pessoas podem pensar, não é responsabilidade de todos os cristãos nem dos pastores da igreja ouvir diretamente o que o Espírito está dizendo às igrejas (plural). São os apóstolos aqueles que receberam a responsabilidade primeira de ouvir o que o Espírito está dizendo às igrejas. Aqueles que atuam na liderança apostólica em um conjunto de igrejas precisam ouvir o que o Espírito está dizendo às igrejas sob sua responsabilidade. Da mesma forma, aqueles que têm uma jurisdição mais horizontal precisam ouvir, de forma ainda mais abrangente, o que o Espírito está dizendo (WAGNER, 2007, p. 10) .

Temos, assim,  a clara reinstauração da pedagogia da hierarquia e da mediação, com a exclusividade da capacidade e do direito a ouvir e compreender (saber interpretar, saber ver e ler "os sinais") a palavra divina; aquilo que é o desejo, a "fala" do Deus, como ocorria antes do protesto de Calvino.

Reinstaura-se a convicção de que não são os pobres mortais capazes a ler a Bíblia e compreender os postulados do Deus cristão. Não. 

Agora, como antes - quando submetidos ao exclusivo domínio papal -, são apenas e exclusivamente as "lideranças apostólicas" (aquelas possuidoras da prerrogativa de conduzir diversas igrejas) que são capazes de saber ouvir e interpretar a palavra "proveniente do Espírito".

Mas, vejam que não é qualquer palavra do "Espírito". - é a palavra que diz respeito à maneira de condução das igrejas. Dito de outra forma, a palavra que explicita o projeto da igreja.

E o que é que diz "a palavra global proveninente do Espírito" para as igrejas evangélicas (neopentecostais)?


"Ela" diz "que a razão bíblica para a existência da igreja, em todas as suas formas, é buscar, de forma ousada, tomar posse da sociedade em que vivemos  (WAGNER, 2007, p. 10) .
 Ora, se a razão, o motivo, o sentido "bíblico" para a existência da igreja é tomar posse da sociedade, é preciso que se construa e implemente um projeto para a conquista dessa sociedade, para a instauração de um "governo da igreja" (WAGNER, 2007, p. 11) .

E como se fará essa conquista?

Precisamente através da noção de "Igreja Estendida".


Os escolhidos para receber a palavra do Deus
Por meio de imagens mentais místicas, que apontam para um capacidade especial, um dom especialíssimo de que estariam ungidos pela divindade, esses pastores dotados do poder de influência sobre diversas igrejas afirmam ter recebido do Deus uma incumbência, uma tarefa. 

E, por simples dever de obediência, passam a transmitir essa "nova tarefa que Deus me havia atribuído".

Empregando termos "do momento", oriundos das ciências sociais - com o que "ancoram" seus postulados no imaginários de seus fiéis -, entremeados com textos bíblicos selecionados e descontextualizados, falam da necessidade da "da renovação da mente"; da "mudança de paradigma"; "de sair de nossa zona de conforto"; de "perceber que que precisamos fazer alguns ajustes na forma de pensar que nos acompanha há muito tempo" (Idem, p. 13).

Porém, como em todo processo de inovação, "alguns indivíduos a adotam logo de início, outros a adotam no meio do caminho, e outros ainda demoram muito para adotá-la, mas há aqueles que são retardatários e se recusam a aceitar qualquer inovação" (Idem, idem).  - Com esse discurso transmitem a mensagem subliminar de que "os melhores", "os mais capazes" são precisamente aqueles que primeiro aderem às inovações. Portanto, seguem pavimentando suave e singelamente a sua pedagogia política.

"O espírito está dizendo às igrejas" [e não está dizendo para todos, mas apenas para os que foram ungidos como líderes] que é preciso "tomar posse da sociedade em que vivemos". Portanto, para cumprir esse projeto - ou missão, dever, incumbência divina -, precisam estender a igreja a todos os demais espaços sociais possíveis.


Todos os espaços são igreja
Nesse projeto - estender a igreja para além do templo privado (igreja nuclear) -, há que se conquistar todos os espaços onde se trabalhe. Assim, cabe a todos os "cristãos" participar desse projeto de conquista e lutar para transformar o seu local de trabalho em uma igreja, estendendo-a então a todos os espaços sociais; todos! Porque em todos eles é preciso ganhar almas para o projeto divino.

E, assim, vão construíndo grupos de estudos bíblicos, grupos de oração, seja em qual seja a instituição - preferencialmente pública! Como Repartições burocráticas, Universidades e, mesmo no Parlamento!

Por meio dessa estratégia, buscam pura e simplesmente a destruição do estado laico, quer dizer, fazer ruir a separação entre estado constitucional e religião. 

Buscam reintroduzir o estado religioso, tornando a religião estatal não a católica como foi no passado, mas precisamente a dogmática dita evangélica ou neopentecostal. 

No entanto, sempre utilizando do discurso místico, afirmam que o que buscam é a implantação do Reino de Deus.


O Reino do Deus é aqui
Mas de um Reino de Deus aqui e agora e não "algo que virá quando o Senhor retornar." (Idem, p. 15).
Postulam que o verdadeiro "Reino de Deus não está confinado nos muros de uma igreja local"."Não é simplesmente uma metáfora ou uma figura de linguagem; ele é tangível. [...] Deve ser encontrado onde quer que haja indivíduos exaltando Jesus Cristo como seu Rei." Mas não apenas. 

Por muito generoso, o Deus não quer e não se contenta em permanecer apenas entre aqueles que o exaltam. Ele que mais. 
O desejo de Deus é que os valores, as bênçãos e quea prosperidade do Reino de Deus permeiem todas as áreas da sociedade. (Idem, p. 15. Negritei.)
Daí o novo paradigma. Da anterior noção de que se devia buscar a salvação em um outro mundo, que viria depois, pois este é mau e pecaminoso, agora o postulado é  não se deve abandonar o mundo à ação desimpedida de Satanás. Não. Muito ao contrário. Há que se realizar a disputa contra Ele.

E para isso - para disputar as almas com Satanás, ganhando-as para o Deus - é preciso fazer com que a igreja não se restrinja apenas às paredes do templo (igreja nuclear); que não se contente com aquelas almas que ali foram "espontaneamente" (sabemos os variados e não poucos casos de sugestão, para dizer o mínimo, mas fiquemos por enquanto aqui com a ideia de que aqueles que vão aos templos o vazem de forma voluntária, consciente, em pleno gozo de suas faculdades discricionárias). é preciso buscá-las em toda parte. Inclusive e preponderantemente no ambiente de trabalho. Afinal, é precisamente ali onde se passa o maior número de horas por dia.

Vejamos agora, sempre nessas linhas muito gerais, o que diz Edir Macedo, o fundador da Igreja Universal do Reino de Deus.



O Plano de Poder
Em 2008 o dono da rede Record de Televisão publicou em co-autoria com Carlos Oliveira, diretor-presidente do jornal Hoje em Dia, de Minas Gerais, o livro “Plano de Poder – Deus e os cristãos e a política”, onde procura sensibilizar seus fiéis e simpatizantes para a proposta política de construção de um estado evangélico.

Em suas 128 páginas, Macedo e Oliveira empregam a mesma tática de outros autores neopentecostais - sobretudo estrangeiros, notadamente estadunidenses, como Charles Peter Wagner, acima citado: Se valer de campos do saber acadêmico (ou científico)  com vistas a transmitir um ar de racionalidade, coerênica, bom senso. 

Recorrendo a conceitos de administração e marketing e sempre selecionando descontextualizadamente trechos bíblicos que possam servir como fundamentação aos seus propósitos, Edir Macedo e Carlos Oliveira (não à toa um "cristão" graduado em administração de empresas) convocam os fiéis a deixarem de lado sua apatia e partirem para a disputa do estado, através da participação eleitoral:


É um projeto que se apropria do descrédito que paira sobre o parlamento, da parca cultura política e do ínfimo senso crítico da população majoritariamente pobre e mesmo sua parcela dotada de formação escolar superior - desprovidas de meios necessários à construção da capacidade crítica para além da manipulação da informação apresentada pelos grandes veículos de comunicação.



Ampliação no número de evangélicos
Sobre essa base fértil, segue avançando. Em 25 de maio de 2009 a Revista Época publicou edição de aniversário na qual trazia uma série de projeções para o país em 2020. - O maciço crescimento dos evangélicos estava entre elas. 

A entidade protestante de estudos teológicos Serviço de Evangelização para a América Latina, mais conhecida como Sepal, apontara que aproximadamente 50% da população poderia ser de evangélicos em 2020.

A matéria, transcrita no sítio diHITTI, trazia opiniões tranquilizadoras que hoje parecem não se sustentar:


A capacidade de exercer influência
Estimada hoje em quase **24% da população** [ver abaixo o índice do IBGE/FGV-2010: 20,2%], as disputas que vem sendo travadas, as formas orgânicas e coordenadas de atuação de seus "apóstolos" tem feito com que exerçam um poder que não corresponde ao tamanho numérico de suas bancadas.


Não à toa a Presidenta Dilma, a mulher de personalidade forte, caráter firme e determinado; técnica competente que sempre comparecia às reuniões com o Presidente Lula quando titular de um seu Ministério munida de todas as informações, dados, estatísticas etc sobre os assuntos da pauta, em maio desse ano de 2011, deixou-se aprisionar numa vexatória trama obscurantista e, sem buscar informações fidedignas com os seus ministros e demais assessores, encenou talvez o seu mais humilhante e patético papel político-institucional, ao anunciar para jornalistas que, sem sequer conhecê-lo integralmente, determinara o recolhimento do material audiovisual em elaboração destinado ao Programa Escola Sem Homofobia.




Que país queremos?
A pergunta que se coloca é como os setores progressistas e defensores dos valores democráticos e republicanos pretendem fazer frente a esse projeto de poder que está claramente em andamento.

No último dia23, terça-feira, a Procuradora do município de São Paulo em Brasília defendeu no artigo Escolha eleitoral deve considerar secularismo do Estado, publicado no Consultor Jurídico, que, no regime republicano e secular, 
Já é um bom sinal! 



População religiosa no Brasil, segundo IBGE 2010 e FGV
(Trecho acrescentado em 19/11/2011)

Distribuição percentual da população residente, por religião – Brasil – 1991/2000

Religiões 1991 (%) 2000 (%)
Católica apostólica romana 83,0 73,6
Evangélicas 9,0 15,4
Espíritas 1,1 1,3
Umbanda e Candomblé 0,4 0,3
Outras religiosidades 1,4 1,8
Sem religião 4,7 7,4
Fonte: IBGE, Censos Demográficos 1991/2000.


Segundo a Fundação Getúlio Vargas em seu "Novo Mapa das Religiões", 2011, a religiosidade é menor em ambos os extremos da escolarização - 7,27% entre os com até 3 anos de instrução escolar; e 7,46% entre aqueles com 12 ou mais anos de escolaridade. Para os que possuem até 7 anos de estudo, 69,83% são evangélicos e 13,63% formados por Evangélicos pentecostais. Dentre os com 12 ou mais anos de escolarização, 8,62% são evangélicos; 6,70% pentecostais; 6,40% "espiritualista"; 4,19% "outras"; 66,90% católicos. Do universo populacional com mestrado ou doutorado, 17,40% se declararam sem religião; 60,81% são católicos; 5,01$ são pentecostais; 5,63% evangélicos; 6,96% "espiritualista"; 4,19% "Outras agregadas".

Também segundo o estudo, ao mesmo tempo em que se observa o crescimento das religiões evangélicas lato senso, verifica-se o decréscimo no número de católicos. Também é observado o crescimento no número de indivíduos que responderam  não professar nenhuma religião.
Ao contrário do divulgado em estimativas de outras fontes, a FGV afirma que a população de evangélicos lato senso é de 20,2%. Já os "sem religião" em 2009 eram da ordem de 6,72%.

 Da população religiosa, as mulheres são as que mais frequentam os cultos (93%) comparativamente aos homens (85%). O que se repete entre as pessoas com mais idade: 91% das pessoas religiosas acima de 50 anos frequentam os cultos, comparado com 83% das entre 15 e 24 anos.

Embora sejam do Rio de Janeiro personagens como o Senador Crivella, o deputado Garotinho, os pastores Silas Malafaia e R. R. Rodrigues - tradicionais religiosos que dedicam a vida a impedir que a população LGBT veja implementada a norma constitucional que impede discriminação e preconceito e conquiste a  isonomia dos direitos civis -, o nosso estado é o segundo menos religioso.

O Rio de Janeiro ostenta uma significativa parcela de 15,95% de pessoas sem religião, ultrapassado apenas por Roraima, com 19,39%. Somente 49,83% se dizem católicas. 14,18% são evangélicos pentecostais e 10,66% são formadas por evangélicas de todas as demais denominações. A periferia fluminense é a menos religiosa de todas as periferias nacionais: 23,68% não professam nenhuma religião. Veja o estudo integral aqui.

Referência:
WAGNER, C. Peter. Os cristãos no ambiente de trabalho. Como o povo de Deus pode transformar a sociedade. São Paulo: Ed. Vida, 2007. - O autor é "professor de Crescimento da Igreja no Fuller Theological Seminary School of World Mission, Pasadena, EUA, por 28 anos."
http://www.fgv.br/cps/religiao/
http://www.ibge.gov.br/7a12/conhecer_brasil/default.php?id_tema_menu=2&id_tema_submenu=5

domingo, 26 de junho de 2011

A Organicidade dos fundamentalistas cristãos e os movimentos LGBTTs

Estamos às portas da comemoração dos 42 anos do Levante de Stonewall. 

Talvez seja um bom momento para reflexões. Para um bom e necessário balanço de avaliação desses 33 anos das lutas no Brasil do movimento homossexual ou movimento de libertação homossexual  - hoje conhecido como movimento LGBT.

Da ditadura militar aos fundamentalistas cristãos
Nos primeiros anos de luta do movimento homossexual brasileiro o grande adversário era o regime ditatorial. Não que as polícias estaduais antes e depois do regime de exceção tivessem se destacado por atuação nos estritos limites da legalidade. Toda a história de nosso país é marcada por práticas ilegais, onde a tortura sempre esteve presente, sobretudo dirigida às camadas mais pobres e discriminadas, como as putas, as bichas, os pobres sem carteira assinada e os pretos e "pardos".


Foi justamente essa truculência, em São Paulo estimulada pelas classes médias e proprietários de grandes veículos de imprensa, como os Mesquita - donos do jornal O Estado de São Paulo - e  operacionalizada pelo Delegado Richetti e suas caçadas denominadas Operação Rondão, prendendo e espancando travestis e putas, que, em 13 de junho de 1980, levou às ruas pela primeira vez no pais, as bichas "pão com ovo" - as "rasgadas que pouco tem a perder além da vida" -, as lésbicas do Grupo de Ação Lésbica Feminista, gays e demais entendidos, num memorável protesto contra a discriminação e a violência de estado.  



Esta data entrou para a história dos movimentos sociais brasileiros e era rememorada com muito orgulho por aqueles militantes pioneiros como o primeiro ato público do movimento de liberação homossexual do Brasil.


Depois, logo no ano seguinte (1981), tem início o grande desafio: a pandemia da Aids.

Cristãos, padres, arcebispo, papa, pastores, jornalistas irresponsáveis e inescrupulosos, por um lado; médicos e demais profissionais da saúde, por outro, todos portadores de igual preconceito forjado em torno das homossexualidades e transexualidade com a ascensão do catolicismo, promoveram o que ficou conhecido como A terceira epidemia (Herbert DANIEL e Richard PARKER. Aids: A terceira epidemia. Ensaios e Tentativas. Iglu, 1991) - a morte social do paciente, decorrente da estigmatização, do preconceito:
Um dos aspectos da pandemia da AIDS, que incontáveis pessoas não querem considerar com inteira seriedade e coerência, é a íntima relação existente entre a disseminação da doença e a crescente agressividade de homossexuais, enquanto formando grupos de pressão que agem dentro da sociedade e contra ela (do sítio Catolicismo, da TFP, parte de um texto de 1994).
O contexto cultural de "Peste" - a "Peste Gay" -, fomentado por tais personagens, reforçou e reatualizou os processos de estigmatização aos homossexuais, travestis, bi e transexuais, justamente no momento de maior fragilidade emocional e física desses indivíduos. Acometidos por doença então tida como terrível e mortal, ainda desconhecida em sua etiologia, formas de transmissão e remédios para o seu combate, foram submetidos a toda sorte de indignidade, abandono e negativa de assistência médica. 
CatolicismoEntão, na origem da AIDS poderá estar um pecado contra a natureza...
Dr. RiotortoÉ bem verdade. Não se pode descartar a hipótese de que tenha sido por um infamante pecado de bestialidade que o vírus se tenha transferido dos símios para os homens. Nesse caso, a conotação moral ficaria ainda mais clara, pois na causa do mal encontraríamos a bestialidade, e em sua propagação a homossexualidade. Duas gravíssimas desordens morais, dando origem a um terrível flagelo (trecho de texto de dezembro de 2001, do mesmo sítio).

Novamente, travestis, homossexuais, transexuais, lésbicas, juntamente com hemofílicos e outros ativistas, realizaram com determinação e tenacidade o enfrentamento. De início, espontaneamente, fazendo frente à urgência que se apresentava, cada um dava de si, mobilizando os recursos ao seu alcance da forma como podia.

E fez-se o reinvestimento no valor da solidariedade. Essa seria a grande "vacina" contra a morte social que estava sendo promovida aos portadores do vírus e pacientes que já haviam desenvolvido a doença. Esse foi o investimento cultural e político promovido sobretudo por Herbert Daniel, para contrapor as terríveis manifestações de preconceito que se verificaram durante aqueles primeiros anos da síndrome.
 
O outro grande investimento foi, sem dúvia, a construção do Programa Nacional de combate à Aids, com a quebra das patentes sobre os medicamentos e a criação do programa de distribuição de remédios - inovador, ousado e universal, premiado e adotado mundialmente, tendo como grande protagonista o médico infectologista Paulo Roberto Teixeira.

Nos dias que correm, são os fundamentalistas cristãos que despontam como os grandes adversários, determinados a impedir que pessoas lésbicas, travestis, transexuais, gays, bissexuais, conquistem os direitos da cidadania em igualdade de condições com qualquer outra pessoa, livres de toda e qualquer manifestação de discriminação ou preconceito, como reza a Constituição da República de 1988. E uma vez mais os segmentos LGBTs - em ongs ou fora delas -, conscientes, comprometidos, determinados, estão na luta pelo reconhecimento de seu direito à isonomia social e jurídica.
Inúmeras pessoas partilham do entendimento de qual seja o projeto político dessa vertente religiosa (seu projeto mediato):


- a Bíblia tomada de forma literal, infalível e ahistórica;

- explicação do mundo e suas espécies na perspectiva criacionista e não evolucionária;

- autopercepção de seus adeptos enquanto portadores de uma "missão" divina: promover a salvação humana, por meio da conversão massiva à sua visão religiosa;

- repúdio à coexistência pacífica com outras modalidades religiosas, bem como com as liberdades laicas;

- prática e disseminação da intolerância e do preconceito;

- interpretação seletiva  (não integrativa nem histórica) da Bíblia;

- oposição de forma totalitária ao direito ao aborto - que combatem como se o que estivesse sendo proposto fosse a institucionalização de uma obrigatoriedade e não o direito à opção pessoal, íntima, individual de cada mulher;

- oposição veemente e determinada à conquista da plena cidadania de homossexuais (gays e lésbicas), travestis, bi e transexuais, empenhando-se a que permaneçam como párias, portadores de estigma.

De forma semelhante, muita gente vem percebendo a cada vez maior ingerência dessas religiões nos negócios do Estado e da vida civil das pessoas no Brasil. Sabemos que nunca conquistamos de fato a laicidade em nosso regime republicano. No entanto, é visível o avanço da ótica religiosa sobre a sociedade civil (secular).

Das salas de audiência ostentando crucifixos, isenção tributária aos templos religiosos, passamos a ver instituições prisionais públicas propagandeando em seus muros trechos bíblicos; "pregadores" invadirem espaços de cultos tradicionalmente utilizados pelas religiões de origem africanas, tradicionalmente inclusivas e fraternas; afrontarem imagens e objetos de culto de outras religiões; destruírem e perseguirem templos outros, notadamente os afrobrasileiros; postarem-se em frente a campus universitários públicos e templos de igrejas inclusivas, ostentando cartazes com dizeres disseminadores de intolerância e discriminação aos "homossexuais" (LGBTs); parlamentares de suas denominações apresentarem propostas legislativas tendentes a tornar obrigatório o ensino religioso nas escolas públicas e moções de repúdio a religiosos não fundamentalistas que se posicionem de forma cristã (fraterna, não discriminatória, não julgadora); a institucionalização de sessões de cultos no interior de instituições públicas do estado - Assembleia Legislativa, Câmaras de Deputados, de Vereadores, Universidades, Tribunais de Justiça etc.

O avanço, nos anos 80
No quadro das concessões de canais de teve e emissoras de rádio, promovidas sobretudo na batalha pelos cinco anos de mandato para o então presidente José Sarney, adquiriram diversos canais e emissoras, ampliando enormemente a sua rede de influência, em muito facilitados pelo contexto econômico de crise inflacionária e elevado desemprego - grandes promotores da sensação de fragilidade, impotência, desamparo, numa nação marcada constitutivamente pela injustiça social, concentração de renda, inexistência de políticas públicas de proteção social e baixíssimos índices de escolarização (Mascarenhas, J.A.S. A Tríplice conexão; Vaz, Lúcio, A ética da malandragem - no submundo do Congresso Nacional).

Facilitadas por esse contexto de fragilização pessoal, por um lado, e fisiologismo político, por outro, essas correntes religiosas souberam se beneficiar amplamente, fincando os pontos estratégicos de seu projeto de tomada de poder. Alavancadas pelos recursos advindos da obrigatoriedade do pagamento dos dízimos e de doações realizadas em momentos de vulnerabilidade emocional e psíquica, não raro com o comprometimento da subsistência pessoal do doador, conforme diversos casos levados ao Judiciário e noticiados pelos veículos de informação, puderam arregimentar capitais suficientes para a exploração de espaços e canais televisivos, bem como de horários em diversas emissoras de rádio.

De forma concomitante, atuaram na ampliação nos seus quadros de pastores, multiplicando, igualmente, o número de templos, tanto nos espaços rurais quanto urbanos. Multiplicaram, assim, o número de adeptos, pessoas adestradas por uma crença dogmática, promotora da subordinação obediente e acrítica de seus fiéis às concepções políticas e visões de mundo disseminadas pelos seus Pastores - que passam a ser repetidas como verdades absolutas, aplicáveis inclusive e sobretudo àqueles que professem outras religiosidades e àqueles destituídos de qualquer crença.

Institucionalização na política nacional
Com a consolidação de sua representatividade política, organizaram-se em torno de uma frente parlamentar evangélica. Veja aqui a sua composição, por denominação religiosa, partido e estado da federação.

Ao contrário de atuar, de forma republicana e democrática, em prol da filosofia cristã (fraternidade, amor ao próximo, solidariedade), lutando por

# justiça social, distribuição de renda, reforma agrária,

# ensino e saúde públicos de qualidade e efetivamente universais;

# superação da violência familiar e contra a mulher;

# combate à violência e exploração sexual de crianças e adolescentes,

tais "cristãos" tem se empenhado vigorosamente em fazer com que a sua forma peculiar de ver o mundo se torne obrigatória a todos os demais integrantes da sociedade brasileira.

Determinados a impor seus pontos de vista baseados numa determinada e muito peculiar perspectiva religiosa e cristã - dogmática, intolerante, discriminatória, disseminadora de ódio e violência -, vem atropelando não apenas o princípio do estado secular (Estado autônomo e independente de toda e qualquer religião), como outros princípios igualmente fundamentais da República brasileira:

- o respeito às minorias sociais e políticas, bem como a todas religiões - inclusive àqueles que não professem nenhuma crença;

- o princípio da não discriminação:a proibição de discriminar e manifestar preconceito, seja por qual motivo for (inclusive aqueles decorrentes de determinadas visões religiosas);

- o da fraternidade;

- o da inclusividade;

- o da autodeterminação.

Características de sua organicidade
Pessoas progressistas, entre essas LGBTs comprometidas com a efetivação e observância dos princípios constitucionais, vem se perguntando o que faz com que semelhante visão de mundo (a um tempo religiosa e política) tenha adquirido essa forma orgânica que atualmente vem apresentando. Me parece interessante observar suas características.

Uma delas é sem dúvida o forte sentimento de identidade que conseguem construir para si. Seus fieis passam a se ver como pessoas especiais, dotadas de uma "missão divina": eleitas pelo seu Deus para promover a "salvação" da humanidade, por meio de sua conversão (impositiva, diga-se de passagem). Em pararelo a esse vem o sentido de que pertencem a uma comunidade especial e forte - porque escolhida pelo Senhor seu Deus para a realização daquela missão.

Porém, o que é que os torna tão comprometidos com os objetivos do grupo, capazes de abrir mão de suas individualidades, senso crítico e autodeterminação?

Autonomia e responsabilidade pessoal
Primeiro é preciso lembrarmos que a manutenção de uma vida autônoma e responsável por si próprio - assumindo pessoalmente a responsabilidade pelas próprias decisões e escolhas - é um projeto que demanda esforço contínuo, determinação e capacidade reflexiva - senso crítico para avaliar não somente os acontecimentos e os outros, mas, sobretudo, a si próprio. Implica não ter alguem a quem atribuir a culpa pelos nossos erros, fracassos e escolhas equivocadas. Tampouco pela nossa situação física, emocional ou material.

Como nos diz Tzvetan Todorov, jamais somos completamente determinados por forças exteriores. Por mais que estejamos contingenciados por forças sobre as quais não temos poder (a situação econômica nacional e mundial, níveis de salário e de empregabilidade, a qualidade da prestação dos serviços de saúde pública e privados ("planos de saúde") e da educação (tambem pública e privada), até mesmo sob regimes totalitários, como o nazista, o franquista, o fascista e o stalinista, sempre resta alguma margem para a ação pessoal; para a realização de nossa autonomia, nosso poder de decisão, de escolha (Todorov, Tzvetan. O homem desenraizado).

"Se quebro uma perna ao cair", diz ele, "a Providência e eu somos ambos responsáveis." 

- Isso é muito penoso para algumas pessoas, sobretudo aquelas acostumadas a ter alguem a quem outorgar o poder de decidir por elas - na terra ou no céu -, aliviando, assim, o fardo de erguerem-se sobre as próprias pernas e traçarem o seu próprio rumo. 

Aqui talvez seja necessário abrir-se um parêntesis para recordar nossa tradição autoritária e aristocrática, assujeitada a religiões e regimes políticos repressores e alienantes, totalmente na contramão de um projeto de nação que busque constituir seus cidadãos enquanto pessoas autônomas e responsáveis pelos seus destinos e ações, bem como pelo destino da própria nação à qual integram.

Alienação pessoal vinculando-se a um grupo
Uma das maneiras de se livrar da angústia e responsabilidade perante as próprias escolhas é se anular através da imersão a um grupo - qualquer grupo que exija adesão acrítica e incondicional.

É uma maneira muito fácil e aceita socialmente de renúncia ao dever pessoal de exercer o julgamento próprio (o livre arbítrio, segundo alguns). Não tenho que pensar, ponderar sobre as consequências de meus atos. Basta que apenas me deixe levar, que aja de maneira igual aos outros; àquilo que é esperado, ordenado, determinado. Depois, caso venha a ser cobrado, posso dizer com a tranquilidade dos santos, que não sou responsável, que todos faziam assim; que apenas cumpri ordens; só fiz obedecer aos meus superiores (Pastor, Padre, Patrão, Chefe).

Em grupo, as pessoas tendem a se sentir mais fortes, poderosas - tem com quem contar; alguem para vir em seu socorro; partilhar dos mesmos pontos de vista. Em troca, sentem-se aceitos, reconhecidos, amados. Desfrutam dos pequenos favores que o grupo pode lhes outorgar.

Reconfortante, acolhedor, o grupo é, também, potencialmente totalitário, na medida em que exige a renúncia a autonomia individual, em benefício da observância de seus preceitos e princípios. O medo de ser repudiado, segregado, privado do convívio, do reconhecimento, dos favores e agrados que o grupo pode conferir, tende a tornar mais palatável o preço cobrado - a capacidade crítica, a responsabilidade de um julgamento próprio.

Obtenção da organicidade grupal
Uma das formas para se conquistar a adesão e a permanência dos indivíduos em determinado grupo é torná-lo de tal modo integrado ao dia a dia de seus membros que ele sinta que pode recorrer à sua "comunidade", sempre que necessitar ou se sentir em apuros.

Saber que se tem alguem com quem contar e que partilha de nossos pontos de vista, cada vez mais torna-se importante, nesses tempos de neoliberalismo (transitoriedade, impermanência, individualismo, competitividade, mercantilização de tudo - água, órgãos, crianças, gestações, genoma, ar, as espécies vivas, afetos, energia vital, principalmente na versão Reiki etc) e supressão da alteridade, da diferença, do Outro, enfim, que me desafia, inquieta e instiga a refletir sobre os seus argumentos, pontos de vista, modos de ser e compreender as coisas e o mundo.

Preservando autonomias, construindo comunidades demmocráticas, participativas
Se todo grupo é potencialmente totalizante, a pergunta que se impõe é: em que medida seria possível a construção de grupos de ação política que a um tempo garanta o espaço da crítica e da autocrítica, mas tambem da unidade? Grupos que sejam efetivamente representativos daqueles em nome dos quais se diz atuar? Comprometidos com a mais ampla participação e horizontalidade? Estruturados sob preceitos éticos, não discriminatórios e transparentes? Que construa a cultura da escuta e fala respeitosa e universal a todos aqueles em nome dos quais se busca atuar?

Eu, pessoalmente, não possuo nenhuma fórmula mágica, capaz de materializar a receita para uma tal instituição, provida de pessoas portadoras de uma cultura radicalmente democrática, incapazes de se manterem reproduzindo a lógica externa de assimetria, autoritarismo, desqualificação, fisiologismo e personalismos pseudo heróicos. Nodatamente numa sociedade com as características das nossas - ausência de tradição participativa, de comprometimento com o coletivo, de processos socializadores baseados na autonomia e na responsabilidade.

Entretanto, tenho para mim que, fundamentalmente, é imperioso que se assegure o direito à ampla participação, à verticalidade e à impessoalidade.

Apenas se seus integrantes puderem se desvencilhar do sentimento de propriedade (os "donos do grupo") e de necessidade de distinção (visões heróicas que nutrem sobre as prestações de serviços públicos desincumbidas por meio de transferência da responsabilidade do Estado para entidades privadas, por via de convênios); de compreenderem que o trabalho que realizam ou realizaram - seja a prestação de serviços remunerada ou voluntária, ou a ação política estrito senso - resulta pura e simplesmente de uma decisão pessoal, cuja responsabilidade é exclusiva de seu agente, não cabendo o envio de nenhuma "fatura" à coletividade em nome da qual disseram agir, exigindo-lhes a "gratidão eterna".

Somente se os integrantes que se encontrem no controle desse coletivo imaginário superarem a necessidade de exigir gratidão dos destinatários - reais e supostos - de suas ações, poderão enfim perceberem-se fora da ótica distintiva, aristocrática, na qual tanto gostam de atuar e fazer perpetuar.

E, assim, por meio desse desapego e impessoalidade, conseguirão, enfim, ver os demais como um seu igual, permitindo-lhes sentirem-se incluídos, integrados, pertencentes, passíveis de contribuir com suas ações, críticas e sugestões. Não apenas como massa de manobra, contingente mobilizável ao bel prazer de "lideranças" autoconsagradas, notadamente em eventos festivos e adesistas.

As lições de Robert Kuttner
Como pode uma simples faxineira de hotel ter coragem para denunciar um político peso-pesado como Dominique Strauss-Kahn?

É que ela não estava só, diz-nos Robert Kuttner. Ela tinha por traz de si o seu sindicato, entidade bastante forte politicamente.

- E por que o seu sindicato é tão forte politicamente?


Em resumo, somente se for capaz de se tornar representativo, inclusivo, integrado à vida de seus integrantes, poderá o grupo, partido, agremiação, clube ou igreja tornar-se forte, provido do poder político necessário à condução de sua agenda política, preferencialmente construída conjuntamente com todos os indivíduos.