domingo, 28 de março de 2010

"...TODO DIA ACONTECE..."

A fala da travesti soa conformada, fatalista, sem esperança de protagonismo, de mudança. Todo dia acontece violência contra elas.

"A cada dois dias um homossexual é assassinado", dizem as estatísticas levantadas pelo Grupo Gay da Bahia, a partir de notícias de jornal e internet, recolhidas no Brasil.

Fossem fazer contagem dos crimes cometidos na Baixada Fluminense, especificamente contra travestis, decerto a estatística que apareceria seria esta: "- Todo dia acontece."

Penso isso enquanto vou assistindo aos documentários BASTA UM DIA e SEXUALIDADE E CRIMES DE ÓDIO, de Vagner de Almeida. Eles tratam da absurda violência contra o diferente; do ódio à diferença. E, no caso específico, a diferença se expressa na pessoa das travestis.

O segundo, SEXUALIDADE E CRIMES DE ÓDIO, é um réquiem pela morte de travestis que foram entrevistadas por Vagner no BASTA UM DIA e que logo depois foram assassinadas, como de costume, pelo simples fato delas existirem - uma delas, grotesca ironia, no mesmo dia e horário em que ocorria o lançamento do filme no Centro Cultural Banco do Brasil. O Diretor vai nos revelando as dimensões absurdas desses crimes, a sua absurda constância, a sua infame presença por todo o país, o descaso da polícia em sua apuração, o quanto a questão da classe e posição social são determinantes nesse consórcio de desdém formado entre o Estado e a sociedade.

O cenário mais retratado é a Rodovia Presidente Dutra, altura de Nova Iguaçu. E eu me lembro certa vez, de carro, a trabalho, passando por certo trecho dessa rodovia, o motorista aponta um imenso Shoping recém inaugurado na pista sentido São Paulo. Informa que anteriormente ali era um campo de futebol e que era comum às segundas-feiras, naquele terreno, amanhecerem corpos de travestis assassinados. Uns eram mortos ali, outros "desovados". A cena era corriqueira e se mantinha ao longo dos anos. O final de semana mais "fraterno" estampava um corpo de travesti. Nos mais "movimentados", eram três, quatro - espalhados pelo terreno descampado e até pendurados na baliza do gol. Ninguém se incomodava: "não era com eles"; não era gente "deles".

Enquanto ouvia esta narrativa do motorista, ficava a me perguntar quantos desses assassinatos teriam sido contabilizados pelo GGB, entidade que, embora com as suas deficiências, é pioneira tanto na mensuração dessas ocorrências, quanto em dar a devida importância para o assunto, remontando mesmo à década de oitenta do século passado.

Retorno ao filme. Um profundo desconforto me assola ao constatar, na maioria das entrevistadas, um fatalismo inamovível, uma "resignação cristã".

A violência é algo tão diário, tão presente, que elas passam a lidar com esse aspecto como algo "inerente" à vida e ao viver, como o sol ou a chuva - coisa sobre a qual não se tem ingerência, capacidade de ação transformadora, possibilidade interventiva.

Com que naturalidade elas falam da presença cotidiada da humilhação, do medo, das ameaças, da violência física, sexual, da morte sempre tão próxima.

Das corriqueiras experiências de práticas sexuais forçadas, muitas vezes à tapas, com o cano do revólver no rosto ou na boca, elas apenas reclamam de eles não haverem efetuado o pagamento pelo serviço auferido. É como se tivessem incorporado tais práticas como parte integrante de sua atividade profissional: sexo forçado, tudo bem, desde que pague.

Em outros momentos, são incapazes de identificar a violência presente em seus viver diários: De tão inerente, a violência chega a deixar de ser percebida, destaca o Diretor Vagner de Almeida no VIOLÊNCIA E CRIMES DE ÓDIO.


Um dos agentes sociais voluntários entrevistados comenta, impactado, que se dera conta de que elas, as travestis prostitutas, não fazem planos para o futuro; não possuem ou melhor, apagam, o registro do virá, do amanhã: as compras de alimento são feitas dia a dia e tudo o que elas querem é a possibilidade de estar vivas no dia seguinte.

Os aspectos mais humilhantes dessa nossa humana (digo humana porque frequente, não como atenuante) dificuldade diante da diferença são aqueles retratados na fala da empregada da funerária.

Ela nos relata o grau de apagamento de valores como empatia, solidariedade, fraternidade, verificados em profissionais da polícia e da defesa civil (bombeiros).

Eles se negam a tratar as vítimas e os cadáveres com a dignidade devida, exclusivamente por serem "viados", "bichinhas". Alguns corpos, de tão massacrados, precisam ser recolhidos com pás. Mas nem por isso - ou justamente por isso - os profissionais envolvidos na tarefa se recordam da humanidade a que aquele corpo, os seus restos, pertencem. Também não são capazes de se lembrar que, como eles, servidores públicos, as travestis de pista também tem quem lhes estime, se preocupe e pranteie a sua morte.


A desqualificação desferida às travestis em vida as segue além-morte - seja pelos bombeiros, seja pelo pessoal do Instituto Médico Legal. A relação desses servidores com os corpos é de criminoso aviltamento. Como se fora um amontoado de lixo pútrido, assim é procedido o recolhimento do cadáver vitimado pela bárbara e diária homofobia. No mesmo estado em que são recolhidos são tambem depositados nos caixões - nenhuma necrópsia, geladeira, nenhum preparo.

Impossível terminar de assistir a esses documentários sem pensar que, de certa maneira, essa mesma alienação nos acomete.

Também nós nos deixamos ficar indiferentes, aceitando como da ordem do imutável a contumácia dessas humilhações, terror e assassinatos macabros.


Quantas mais, travestis, gays, lésbicas - pobres, negras, anônimas -, precisarão ser trucidadas para que tomemos em nossas mãos a determinação de dar um basta nessa realidade?

Como é possível deixar-nos ficar a apenas contabilizar essas mortes do conforto de nossas casas, através de nossos computadores, principalmente agora, que uma nova onda de Caça às Bichas vem se instalando?



Dicesar Foi Eliminado, Dourado Ficou: A Violência Está Legitimada no País

Tudo agora repousa sob a Paz da mesmice. Com a votação majoritária pedindo a saída de Dicesar do jogo, a Paz comum às zonas de guerra está assegurada:

- Declarou-se que, neste país, é admissível ameaçar e mesmo espancar homossexuais, mulheres, travestis, drags, transexuais; que, no Brasil, definitivamente tais cidadãos não são reconhecidos enquanto portadores de direitos em igualdade de condições com todo e qualquer outro cidadão.


O simbolismo que envolveu a polarização mercantilística entre os estilos de masculinidade de ambos os jogadores (Dicesar x Dourado), espraiando-se pelas ruas e espaços virtuais, desencadeou a apologia da Caça às Bichas, quer dizer, aos homossexuais, travestis, drag queens e transexuais.

Já desde o paredão entre a persona "modelo de macho" e a subversora da ordem dos gêneros (a Lésbica assertiva Morango), viu-se o quanto a diversidade de orientação sexual e de estilo de identidade de gênero ainda incomoda, sendo capaz de fazer eclodir as pulsões mais primitivas: não basta vencer em um jogo; é preciso eliminar fisicamente o Outro, o Diferente "subversor" da Norma, quer dizer, da normatividade heterossexual androcêntrica.

A força dessa normatividade simbólica é tão intensa que o próprio Dicesar, segundo o sítio da emissora, em alguma parte do jogo declarou, a respeito de Dourado: "'Eu sempre quis um homem assim. Dourado é para casar'".

Saído Dicesar, saiu-se igualmente, no plano simbólico, com a esperança de que a parcela da sociedade brasileira midiatizada e instrumentalizada nesse tipo de "show" repudiasse os apelos à violência, ao ódio à diferença, às demonstrações acintosas de rudeza e grosseria (formas infantis de afirmação de uma orientação heterossexual que, a pensar nas fotos exibidas na internet como de produção profissional anterior aos jogos vis a vis com as demonstrações de homofobia explícita, pode-se colocar sob indagação quanto ao bom nível de sua resolutibilidade).

Uma vez mais, instada a se posicionar, parcela significativa (representação majoritária?) da sociedade brasileira dá o seu recado.

Aqui, nesse jogo virtual a envolver paixões, milhões e muito, muito faturamento para a emissora, como lá, nos idos de 1989, quando foi eleito o Presidente da República que havia se utilizado do golpe extremamente antiético de se utilizar da ex-namorada de seu adversário com uma bombástica "denúncia" de proposta de abortamento, e de resto em inúmeros outros exemplos nossos cotidianos ("rouba, mas faz" etc), os brasileiros falam em alto e bom som & imagem HD que o seu código de valores não tem lá alguma qualquer rigidez de princípios.

Aliás, tem uma, expressa na velha e conhecidíssima máxima: "- Aos amigos, tudo; ao inimigo, a Lei."

Por si eloquente, expressa o quanto para esse povo que se move e é movido a futebol, cerveja, samba, cachaça (e, mais recentemente, à violência explícita), a observância das normas (éticas, de sociabilidade, de pontualidade, de manejo da coisa pública, de organização do funcionamento das instituições, ou jurídicas, tanto faz) jamais é da ordem do impessoal, geral, universal; antes, é território essencialmente mimético, movediço, variável, "ajeitável" a partir das estratégias de reconhecimento daqueles que representem os "Nós" e os "Outros".

Aos "Nossos", aos "Manos", o Paraíso da realização dos desejos no vale tudo generalizado ("vale tudo, vale o que vier. Só não vale dançar homem com homem, nem mulher com mulher; o resto vale!").

Aos "Outros", os desestabilizadores da ordem, da nossa ordem, a Lei - aqui empregada como sinônimo de obstáculo aos desejos; força; repressão; perseguição; enfim violência em todas as suas formas e cores.

Dicesar foi expulso; Dourado ficou. O Paraíso Tropical de Fúria e Truculência não está mais ameaçado. Quando finalmente sair da Casa (milionário?), Dourado poderá dar vasão aos seus desejos de sair por aí a quebrar bares, espancar viados, tudo com as bênçãos de milhares de brasileiros.

sábado, 27 de março de 2010

ONGs LGBTs FAZEM CAMPANHA PRA AUMENTAR O FATURAMENTO DO BBB 10

Hoje fomos surpreendidos com a notícia:
"*Hackers invadem site do Grupo Arco-Íris

*Homepage da instituição amanhece completamente pichada e com dizeres "FORA DICÉSAR"

Na manhã de hoje (27/3), a página eletrônica do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT continha expressões homofóbicas e palavras de ordem que rejeitavam a permanência de Dicésar no BBB 10. Na tarde de ontem (26/3), o Grupo publicou difundiu nota oficial a fim de convocar toda a comunidade LGBT a votar em Marcelo Dourado para a saída do reality show. Os hackers, que se auto-intitulam, Máfia Dourada destruíram toda a administração remota do site, inclusive cobrindo o banner virtual que ficava no topo do site (Campanha Não Homofobia - iniciativa do Grupo desde 2008).
"Esta é uma entre as milhares de provas da intolerância e da violência com nossa comunidade. Invadir a página eletrônica de uma ONG com o intuito de destilar todo o ódio e a crueldade contra os LGBT é inconcebível. Isto é crime! O BBB 10 está tomando proporções irreversíveis no estímulo à prática da discriminação e violência aos LGBTs. É lamentável e revoltante!" , afirma a presidente do Grupo Arco-íris, Gilza Rodrigues"



Ontem o texto da "Nota Oficial" do GAI, dizia:
"Grupo Arco-Íris convoca toda a comunidade LGBT a se mobilizar para eliminar Marcelo Dourado do BBB 10.


Grosseiro. Mal -educado. Ríspido. Rude. Troglodita. Desinformado. Agressivo. Machista. HOMOFÓBICO. Existem mil motivos para toda a população brasileira votar contra a permanência de Marcelo Dourado no Big Brother Brasil, mas a intolerância e as agressões (ainda) verbais do participante aos LGBT não podem ser deixadas de lado. É o momento de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, simpatizantes e todas e todos aqueles (as) que acreditam numa sociedade mais fraterna e de paz dizer um NÃO à violência.


“O BBB não é um programa meramente de entretenimento. É um formador de opinião; um espelho de nossa sociedade. Não podemos permitir que anos em defesa dos direitos humanos, em especial dos LGBT, sejam jogados no ralo. Devemos mostrar nossa força e nos mobilizarmos contra a homofobia que ainda teima em descolorir nosso país!”, conclama a presidente do Grupo Arco-Íris, Gilza Rodrigues.


Reflita sobre sua vida, os obstáculos que todos passam no processo de aceitação. Pense em quantas pessoas já morreram em virtude de suas orientações sexuais. A permanência de Marcelo Dourado não apenas reflete a indiferença do país em relação a esta situação, como também a cumplicidade que tod@s adquirem o apoiando.


A partir da instauração do paredão, o Grupo Arco-Íris e seus freqüentadores (as) ficarão de plantão numa nítida demonstração de resistência, perseverança e por acreditar que uma sociedade sem homofobia é possível. Faça parte desta luta! Mobilize-se a si a tod@s que @s cerca! #FORADOURADO""


Não sei se as proporções dessa campanha homofóbica eclodida a partir desse Dourado é algo da ordem do "irreversível" .

- Sei, porém, pelo que se tem visto publicado em blogs e nas redes de relacionamento e vociferado nas ruas, que essa polarização entre machistas homofóbicos x LGBTs,construída e estimulada pela Rede Globo de Televisão via produção do BBB 10, assume proporções preocupantes e que já deveriam estar sendo alvo de ações e investigações por parte tanto da Delegacia de Crimes na Internet como por parte do Ministério Público.

Porém o que me preocupa - como já expressei anteriormente em outro espaço - são as ONGS LGBTs aderirem ao papel de agenciadoras de audiência para a Globo, dando legitimidade a esse tipo de estratégia comercial de potencialização de lucros pela via da irresponsabilidade do poder da televisão como formadora de opinião, de hábitos, comportamentos (vide os modismos surgidos em decorrência de temas de novelas, chegando inclusive a inspirar a escolha de nome nos filhos).

Preferiria mais, dado que são entidades que buscam atuar no campo dos direitos humanos, dos quais o direito à DIGNIDADE é axial, que se dirigissem aos LGBTs e à toda a sociedade no sentido DENUNCIAR esse jogo comercial, no qual estamos nos prestando ao papel de simples peças, e que passa ao largo da ética, valorizando a mercantilização, o espetáculo e a instrumentalização de pessoas, relacionamentos, afetos.

O foco em minha opinião está equivocado: - Não será dando milhares de telefonemas ou acessos no sítio do programa BBB 10 que xs LGBTs e todxs aquelxs que são contra processos de estigmatização e incitamento à violência terão garantia do respeito às leis (incitação ao ódio, à violência, é crime previsto em lei) e aos Direitos Humanos.

Será, isto sim, denunciando (tanto na mídia como nos órgãos competentes) esse circo e as decorrentes campanhas de incentivo às práticas de violência contra LGBTs que temos verificado, seja nos sítios de relacionamento, seja em blogs, seja nas ruas.

terça-feira, 9 de março de 2010

Em Visita à SuperDir - Uma Aventura Antropológica

Há exatamente um mês, isto é, em 09 de FEVEREIRO, o Superintendente de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos, propôs, via e-mail, um encontro com as pessoas que lhe haviam solicitado informações acerca de quais os canais institucionais deveriam ser buscados pela população LGBT no Estado do Rio de Janeiro, caso necessite efetuar alguma denúncia de práticas trans, lesbi ou homofóbicas.

As pessoas eram a autora este blog e duas outras que também expressaram seus interesses pelo fornecimento da informação: o advogado e militante Carlos Alexandre, autor do blog Direitos Fundamentais LGBTs e Carlos Tufvesson, estilista carioca e integrante do Conselho dos Direitos da População de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais do Estado do Rio de Janeiro - Conselho LGBT e do Conselho Político do Grupo Arco Íris RJ).

A minha busca nos sítios do Estado e da Prefeitura do RJ por essas informações resultou em duas postagens neste blog. A última, de 07 de fevereiro, sob o título A Cidade e o Estado do Rio de Janeiro e as Políticas Antidiscriminação LGBT: - A quantas Andamos nesse Carnaval?, enviei ao Superintendente, aos dirigentes e coordenadores do Grupo Arco Íris, ao Movimento D'Elas e à ASTRA RIO e aos dois acima referidos. Estava surpreendida e preocupada diante da permanência dessa lacuna informacional, ainda mais que nos encontrávamos às vésperas do Carnaval e tendo a cidade há poucos meses atrás sido agraciada com o Prêmio de Melhor Destino Gay Internacional, o que certamente proporcionaria (como proporcionou) um grande impulso no número de turistas que receberíamos na cidade.

Após a adesão deles, inclusive com os acréscimos trazidos pelo Carlos Alexandre (de que: em maio de 2008 havia sido anunciado pela Titular da Secretaria de Estado e Assistência Social - SEAS RJ, que "o disque-homofobia seria criado em meados de julho" do ano de 2008; e, em julho de 2009 o próprio Superintendente, informando "que aguarda a finalização da obra nas instalações da Superintendência, no 7º andar do Prédio da Central do Brasil, que terminará ao final de agosto [de 2009], para assim, o Governador lançar o Programa Rio Sem Homofobia e inaugurar o Disque Cidadania LGBT, Centros de Referência de Promoção da Cidadania LGBT, o Núcleo de Monitoramento e Avaliação de Políticas para LGBT e o Observatório de Crimes Homofóbicos"), o Senhor Superintendente então convida para uma reunião, na sede da SuperDir:
"estou a disposição para marcar com vcs um encontro e explicar os avanços que já vem ocorrendo e os prazos que tiveram que ser reorganizados por causa de tramitação administrativa. Considero muito relevante as questões que levantaram e gostaria que viessem me visitar para conversarmos. Podem me encontrar na Superintendência no dia 11/02 as 15h ou no dia 12h as 10h ." (sic)

Após adiamentos, em virtude de compromissos do Superintendente, foi agendada a data de hoje, 09 de MARÇO, às 14:00 horas. A reunião foi confirmada por mim por e-mail . Dias depois, uma das assistentes do senhor Superintendente me telefona para reconfirmá-la. O endereço informado por ele no e-mail era a sala 642.

Como chegara na Portaria com 15 minutos de antecedência, tive tempo suficiente para buscar a localização da sala informada através dos dois longos corredores que compõem o prédio da torre da antiga Central do Brasil, vez que inexiste recepcionista no andar ou placas indicativas da direção dos órgãos (será que o fluxo de pessoas na SEASDH-RJ é assim tão baixo?).

Um jovem do projeto FIA, já demonstrando iniciativa e comprometimento profissional, me acudiu. Ao passar por mim, percebe que estou à procura e indaga-me se pode ajudar. Finalmente orientada quanto à direção e ao corredor, à hora marcada, adentrei na SALA 642.

Após um périplo por toda a extensão do andar, em seus dois corredores, onde pude constatar a inexistência de qualquer placa indicativa de qualquer setor que fosse dirigido à promoção dos direitos da população LGBT, finalmente cheguei, conduzida prestimosamente por uma funcionária da conservação que anuiu saber onde se localizava a 642, com um riso enigmático e a frase "ah, a sala dos meninos"! Ali, passado um pequeno espaço, à guisa de antessala, adentra-se numa outra, espaçosa, com duas poltronas minhas conhecidas, do início de 2009, por ocasião da reunião sobre a ADPF, quando aquela Superintendência ainda ocupava o prédio do Detran, na avenida Presidente Vargas.

A única coisa familiar eram as poltronas. Nenhuma das pessoas com as quais interagi no sexto andar reconheci como integrante dos quadros que encontrei, seja quando da reunião sobre a ADPF, seja quando daquela preparatória para a viagem à Conferência Nacional, em junho de 2008. Ao fundo da sala, numa mesa grande, tipo de reunião, um jovem, talvez de tão absorto com suas atividades no computador, dispensou-se de responder ao meu cumprimento de boa tarde. Como não restasse outro ente humano no ambiente, caminhei na direção da mesa, isto é, do fundo da sala, em busca de algum outro ambiente, de alguma outra pessoa que se dispusesse a me atender. Encontro uma porta e o acesso para outra sala.

Ali, uma jovem senhora muito simpática e cortês, confirmando o meu nome, informa que o Superintendente "foi almoçar e já está chegando" e indica a poltrona na sala anterior, uma daquelas minhas conhecidas, para que aguarde.

Acho estranho uma pessoa, mais ainda uma autoridade pública, agendar um compromisso com alguém e, no horário combinado e confirmado, sem qualquer aviso de superveniência de fato novo e urgente (o Superintendente possui o número de meu celular) ir almoçar. No entanto, dada a pouca seriedade dispensada entre os nossos concidadãos com relação ao respeito aos horários dos compromissos - a nossa tradicional e decantada frouxidão à observância das regras de civilidade - tomo assento e dedico-me ao artigo que, há dias, jazia em minha pasta, aguardando um tempo para ser lido.

Passam-se nem mais nem menos do que 42 (quarenta e dois minutos) e volto à presença da senhora para indagar se acaso teria alguma notícia do Superintendente Cláudio Nascimento. Sempre simpática, profissional e gentil, responde-me que acabara de falar com ele ao telefone, informando que eu estava a lhe aguardar já por bastante tempo (acaso ele não sabia?!) .

Às 14:49 horas retorno outra vez à sua presença para lhe solicitar que informe ao Superintendente que eu me retirava. Cumprimento-a, bem como a sua colega, e me retiro. Às 14:52 horas devolvo o crachá junto à recepção da portaria do edifício.

*********
Na viagem que empreendi através de ambos os corredores do sexto andar, vi passar por mim,... Ou melhor, eu passei por portas indicativas dos mais diversos setores: promoção da igualdade racial, Direitos da Mulher, Políticas para Pessoas Idosas, Portadoras de Deficiência, Segurança Alimentar e Renda... Nenhum, porém, se referia, de qualquer forma que fosse, às LÉSBICAS, aos GAYS, BISSEXUAIS, TRAVESTIS E TRANSEXUAIS.

Penso, porém, que é ainda possível a esperança. Afinal, somos brasileiros... Não desistimos nunca! E, como dizia a mãe do excelentíssimo senhor Presidente da República: - Tem que Teimar!

Há que se recordar o fato de, após as indagações, como noticiado neste blog, a Superintendência disponibilizou um plantão de 24 horas durante todo o Carnaval para receber eventuais denúncias de violação às leis antidiscriminação LGBT no Estado.

*********

Enquanto escrevia este texto, revisitei a página da SEASDH. Ali, embora a SuperDir continue lá no final da página, na antepenúltima linha, antes apenas da Superintendência da Igualdade Racial e do Diretor Geral do Departamento de Administração e Finanças e sem nenhum link para acesso eletrônico, a página da Ouvidora está completamente nova.

Não faz parte do portal oficial do Estado, porém. Ancora-se no Wordpress. Mas, ao menos publiciza informações. E entre estas, a de que "em breve" (?) disponibilizará o "Disque Defesa GLBT"...

O por quê de, findos quatro anos de uma gestão políticoadministrativa, embora implantados e funcionando os serviços de "Disque-Eficiente", para atender às demandas da população com deficiência, o "Disque Racismo", o "Disque Mulher", e o "Ligue Idoso", a "tramitação administrativa" para a implantação do Disque Defesa LGBT tenha enfrentado tantos obstáculos ao ponto de ainda não ter se tornado realidade, é algo que foge completamente à minha compreensão.

Também não consegui atinar o motivo pelo qual a listagem dos órgãos integrantes da SEASDH (Estrutura) aparece completamente fora da ordem alfabética.

Muito menos a razão da existência de uma Subsecretaria de Estado de Defesa e Promoção do Direitos Humanos e de uma Superintendência de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos e nenhuma Superintendência de Políticas para LGBT, à exemplo das existentes para a Pessoa Idosa, para Pessoas Portadoras de Deficiência, dos Direitos da Mulher e da Igualdade Racial.


Porém, como deixou o Senhor Superintendente Cláudio Nascimento de cumprir o compromisso que assumira comigo, privou-nos da possibilidade de indagar-lhe os motivos e, sobretudo, ouvir as suas explicações.

Quem sabe, às vésperas das eleições, seja enfim possível que se torne realidade as promessas feitas pela Secretária Benedita da Silva em maio de 2008 e repetidas pelo Superintendente em julho de 2009 e, finalmente, a população LGBT fluminense consiga ver ser "lançado o Programa Rio Sem Homofobia e inaugura[do] o Disque Cidadania LGBT, Centros de Referência de Promoção da Cidadania LGBT, o Núcleo de Monitoramento e Avaliação de Políticas para LGBT e o Observatório de Crimes Homofóbicos."


Referências:
http://www.ibase.br/modules.php?name=Conteudo&pid=2665
http://www.abglt.org.br/port/cons_estaduais_rio.html
http://www.soropositivo.org/noticias-2007-a-2009/3199-governo-do-rj-anuncia-criacao-do-disque-homofobia.html
http://www.jusbrasil.com.br/politica/2756206/claudio-nascimento-e-premiado-em-belo-horizonte
http://ouvidoria.wordpress.com/
http://ouvidoria.wordpress.com/tele-idoso/
http://www.social.rj.gov.br/indice.asp?orgao=473

domingo, 7 de março de 2010

Ser Mulher: Uma Construção Diária Rumo à Isonomia de Direitos e de Dignidade


"Simone de Beauvior mudou nossas vidas", diz Fernanda Montenegro (belíssima, como sempre), na capa da Revista Bravo de maio de 2009.

É verdade. Através de Beauvoir, foi possível dar impulso (ainda que tardio) ao processo de conhecimento de que os gêneros são construídos culturalmente, como já havia anunciado em 1928 e 1947 a antropóloga Margareth Mead, com base em pesquisas de campo (nos livros Adolescência, Sexo e Cultura em Samoa e Sexo e Temperamento).

A mulher não nasce, mas torna-se - disse-nos Simone em 1949, data da primeira edição do seu livro O Segundo Sexo (disponível para download).

Em outras palavras, é por meio da socialização que as pessoas aprendem, incorporam e reproduzem os atributos construídos historicamente para o masculino e o feminino.

Constituídos no seio da sociedade, são elaborados um em relação ao outro de forma assimétrica, hierárquica - o homem como o referente ordenador, o Um paradigmático em relação ao qual a mulher é construída e se constroi como o Outro.

Foi também com ela (e nesse mesmo livro) o nosso aprendizado teórico daquilo que todas nós sabemos na carne: "o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos". Em outras palavras, que é através da incorporação e da reprodução que concedemos a necessária permanência aos sistemas de valores, sem as quais eles não funcionam.

Foi, porém, pessimamente recebido pela crítica esse livro, nos informa Françoise Thébaud e Sylvie Chaperon.

Naquela época, diz Thébaud, falar sobre o corpo e a sexualidade das mulheres, principalmente sendo uma outra mulher a fazer isso era algo muito mal visto.

Foi um verdadeiro escândalo!

A reação foi tão negativa que Simone chegou a enfrentar hostilidade em locais públicos, conforme nos informa Sylvie Chaperon:

[Sua publicação] abre longa e áspera polêmica que mobiliza intelectuais de renome: François Mauriac, Julien Benda, Roger Nimier, Julien Gracq, Thierry Maulnier, Emmanuel Mounier, para citar apenas os de maior prestígio. Le Figaro, Le Monde, La Croix, revistas literárias ou filosóficas como Esprit, La Nef, Combat, Les Temps Modernes, é claro, mas também Les Lettres Françaises e La Nouvelle Critique, todas consagram algumas páginas a um debate que se tornara nacional. Uma enchente de correspondência invade a caixa de correio de Simone de Beauvoir, que também tem que enfrentar reações de hostilidade em lugares públicos. Em cartas oudiscussões, as palavras são às vezes cruas; conhecemos as de François Mauriac ao se dirigir a um colaborador dos Temps Modernes para queixar-se de ter “aprendido tudo sobre a vagina de sua patroa”.

Para Michelle Perrot, embora dotado de uma "novidade radical", passou completamente despercebido o desmonte que efetuou do sistema dos gêneros.

Apenas lá pelos idos dos anos de 1960, através das feministas estadunidenses, é que se recupera as análises efetuadas por Beauvoir e por Margareth Mead.

Artemísia Flores Espínola informa-nos ainda que Simone foi também a precurssora da crítica à racionalidade e objetividade científicas, ao apontar, no primeiro volume de O Segundo Sexo, o conteúdo ideológico das verdades científicas.

Já a crítica que Beauvoir elabora (em fins da década de 1940, ressalte-se) sobre as convicções aristotélicas a respeito o sêmem como a única “causa eficiente” na procriação, e sobre a concepção da anatomia e da fisiologia da mulher como o inverso inferior do homem (cientista e referente), que gozou de credibilidade dogmática até o século XIX, será retomada por Laqueur em 1990.


Como se vê, foram necessárias muitas décadas para que se recuperasse, investisse e consolidasse a linha investigativa que ela propunha – o exame todos os aspectos de construção das pessoas. Não apenas o biológico, mas também o cultural, psicológico, histórico, de modo a compreender por que as pessoas são constituídas e se constituem como são.

Com relação à Margareth Mead, é consensual entre os antropólogos a relevância daqueles seus estudos inaugurais para o entendimento da mutabilidade dos “papéis de gênero” - base de apoio sobre a qual se consolidou a idéia da cultura como o local de sua elaboração.

De igual forma, pesquisadores de áreas diversas reconhecem no movimento feminista e, paralelamente, na teorização feminista, a introdução da categoria do gênero para referir os processos sociohistóricos de significação da diferença entre os sexos.


Muita água passou no leito do rio da história da lutas das mulhes por dignidade e isonomia, desde esses trabalhos inaugurais. Muitas conquistas, é verdade.

Muitas permanências, também.

Embora sejam a maioria da população brasileira, ainda sofrem diariamente com a elevada prática de violência doméstica - apesar da Lei Maria da Penha ter sido promulgada em 2006, há quatro anos, portanto.

Já "virou rotina" ouvir no noticiário que algum homem atirou ou mantém sob ameaça a ex-namorada ou ex-esposa, porque "não se conforma" que esta tenha terminado a relação.

Pesquisas apontam que a cada 15 segundos, uma mulher é agredida pelo "companheiro"; das vitimadas, apenas 40% apresentam queixa-crime. 56% dos entrevistados apontam a violência contra as mulheres dentro de suas próprias casas como o problema que mais preocupa as brasileiras. Segundo eles, "a questão cultural e o alcoolismo estão por trás da violência contra a mulher". No RJ, 50% das agredidas têm menos de 18 anos. Em SP, em 2006 foram registrados três estupros a cada dia.

Numa cultura onde desde a gestação o gênero feminino é representado de maneira inferior, instrumentalizada, objetal, sobra violência para todas as gerações:

A discriminação contra a mulher começa na infância e vai até a velhice. Em alguns casos, começa até mesmo antes do nascimento, na seleção do sexo do embrião.

No caso da violência doméstica contra os idosos, a imensa maioria das vítimas são mulheres. Segundo Maria Antonia Gigliotti, aos 77 anos, presidente do Conselho Municipal do Idoso da cidade de São Paulo, isso “tem a ver com a lógica do sistema patriarcal, que considera que a mulher vale menos do que o homem, não importa a idade que ela tenha. Também conta o fator financeiro: as mulheres idosas são normalmente bem mais pobres do que os homens idosos”. Fonte: Unifem, Maria, Maria nº 0.



A diferença salarial pelo mesmo trabalho também é tema ainda não superado. Do mesmo modo que conquistar o direito de não ser tratada como caça, objeto sexual, idiota ou mercadoria.

Conquistaram o mercado de trabalho, sendo mesmo a maioria entre as aprovadas em concursos públicos, com presença marcante na magistratura e na academia. Não conseguiram todavia superar a vulnerabilidade psicossociossexual aprendida.

Não raro vemos mulheres que ocupam cargos de poder e prestígio e que conquistaram relativamente boa autonomia financeira, se submeterem a relacionamentos nocivos, sofrendo ameaças e violências cotidianas por parte de companheiros os quais ou sustentam ou lhes complementam a renda.

Embora tenham conquistado a liberdade de praticar o sexo com o advento da pílula anticoncepcional, não conquistaram paralelamente a necessária autonomia erótica, sendo ainda incapazes, em sua imensa maioria, de adotar com independência o sexo seguro:

- São alarmantes os números da contaminação das mulheres pelo HIV! Por mais que o governo dedique somas as mais vultosas em campanhas de conscientização!

Se ainda não conquistaram o direito ao pleno prazer, com inúmeras igualmente se submetendo a relacionamentos onde o gozo é apenas do parceiro, também não alcançaram o direito à livre orientação sexual:

O fato de ser lésbica torna as mulheres homossexuais ainda mais vulneráveis às diversas formas de violências cometidas contra as mulheres.

“As jovens que se descobrem lésbicas, e que vivem com seus pais, são as que mais sofrem violência. A família reprova a lesbianidade da filha e procura impor a heterossexualidade como normalização da prática sexual do indivíduo. Por serem destituídas de qualquer poder, os pais buscam sujeitar e controlar o corpo das filhas lésbicas, lançando mão de diferentes formas de violência, como os maus-tratos físicos e psicológicos. E não faltam acusações, ameaças e, inclusive, a expulsão de casa. As ocorrências de violência sempre têm o sentido de dominação: é o exercício do poder, utilizado como ferramenta de ensino, punição e controle.” Fonte: Marisa FernandesEste endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo. , “Violência contra as lésbicas”, Maria, Maria, nº 0.



O "estupro corretivo" ainda é uma prática frequente contra lésbicas, como pode ser observado recentemente, por ocasião do episódio envolvendo dois jogadores do Big Brother Brasil 10 - o Dourado e a Angélica ("Morango").

A presença de uma lésbica de personalidade assertiva desencadeou reações as mais tradicionalistas, com manifestações explícitas de machismo e lesbofobia em diversos sítios da rede, alguns contendo explícitas conclamações ao estupro corretivo.


Agora, por ocasião das comemorações pelos 100 anos do Dia Internacional da Mulher, penso que vale a pena aproveitarmos a data para refletirmos, em todos os espaços que interagimos, sobre as condições gerais da mulher brasileira - seja lésbica, bi ou heterossexual; de classe média, alta ou miserável. Jovem ou velha; negra ou mestiça. E tendo sempre por moldura aquelas descobertas ainda tão inéditas para a realidade de muitas de nós:

- O desamparo feminino é aprendido, como ó é a submissão, o colocar-se em segundo plano, a passividade, a insegurança, o receio, a baixa autoestima.

É claro que não se pode destruir séculos de aprendizado inferiorizante com cento e poucos anos de luta feminista (emprego aqui o termo feminista abarcando também os movimentos pelo direito ao voto e à educação, desencadeados no século passado).

Mas temos o dever moral para conosco mesmas e para com as gerações vindouras - de homens e mulheres - de dar seguimento diário e sem tréguas a essa batalha por formas mais dignas e respeitosas de viver e se relacionar.

- Uma luta que é de todo o gênero humano!



Para quem gosta de história, umas dicas:
Camile Claudel - livro e filme

- livros:
Maria Ruth, de Ruth Escobar
Profissão Artista: Pintoras e escultoras acadêmicas brasileiras, de Ana Paula Cavalcanti Simioni (Edusp-Fapesp)
História do Estupro, de Georges Vigarello
Anayde Beiriz, de José Joffily
Entre a história e a liberdade, de Margareth Rago

- filmes:
Anahy de las misiones, de Sérgio Silva - Europa Filmes
Lanternas Vermelhas, de Zhang Yimou - Spectra Nova
A Cor Púrpura, de Steven Spelberg - Warner Bros.
Pretérito Perfeito, de Gustavo Pizzi - Saraguina (prod.) e Pipa (distrib.)
Sou Mulher, Sou Brasileira, Sou Lésbica, de Vagner de Almeida - Prazeres e Paixões (prod.)
A Morte Inventada: Alienação Parental, de Alan Minas - Original Vídeo
Que Bom Te Ver Viva, de Lúcia Murat - Taiga Filmes
O Cárcere e a Rua, de Liliana Sulzbach -


Referências:
Revista Bravo, maio de 2009
Revista Carta Capital, 06 de dezembro de 2006
Idem, 11 de março de 2009
BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo. 1. Fatos e Mitos. São Paulo: Círculo do Livro, 1986.
ESPÍNOLA, Artemisa Flores. La Segunda Ola del Movimiento Feminista: El Surgimiento de la Teoría de Género Feminista. In: Mneme – Revista Virtual de Humanidades, n. 11, v. 5, jul./set. 2004. Dossiê Gênero. Disponível em: http://www.seol.com.br/mneme.
LAQUEUR, Thomas. Inventando o Sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.
PERROT, Michelle. Controverses autour du livre de Pierre Bourdieu La Domination Masculine. In: Travail, genre et sociétés, nº 1, avril, 1999, 201-234.
THÉBAUD, Françoise. História das Mulheres, História do Gênero e Feminismo: O Exemplo da França. In: COSTA, Cláudia de Lima e SCHMIDT, Simone Pereira. Poéticas e Políticas Feministas. Ilha de Santa Catarina: Editora Mulheres, 2004, 67-80.
http://cynthiasemiramis.org/?p=114
http://www.maismulheresnopoderbrasil.com.br/pdf/Sociedade/Aue_sobre_O_Segundo_Sexo.pdf
A imagem de Margareth Mead é de autoria de Edward Lynch e foi obtida de: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Margaret_Mead_NYWTS.jpg
A foto de Simone de Beauvoir foi obtida de: http://www2.warwick.ac.uk/fac/arts/french/pg/culturethought/modules/simone_de_beauvoir.jpg
http://www.violenciamulher.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1213&Itemid=2


sábado, 6 de março de 2010

Agora é no Próprio Vaticano: Assessores Diretos do Papa Envolvidos com Prostituição Homossexual

A Igreja Católica Apostólica Romana, é sabido, não possui um passado digno. Sua história é marcada pela arrogância, prepotência, intolerância. O sangue de milhares de mulheres, índios, negros, judeus, árabes, condenados à fogueira, ao trabalho forçado, ao supliciamento e ao desterro, mancha as vestes secerdotais e os paramentos de seus rituais religiosos.

Na contramão de tudo aquilo que o Cristo pregava - amor, fraternidade, benevolência, tolerância, desapego das coisas terrenais (poder e riqueza) -, construiu um verdadeiro Estado, através de disputas as mais ignóbeis, envolvendo traição, ambição, corrupção e sexo, muito sexo.

O Vaticano, porém, sede desse governo religioso, através de seu "primeiro ministro" (o papa), não se furta a ditar regras de conduta civil a milhares de povos pertencentes a estados outros, inclusive de outras religiões, resistindo veementemente à separação entre vida civil e religiosa (veja-se a respeito, o recente inconformismo à retirada dos símbolos da religião católica das repartições públicas, objeto de proposta democraticamente apresentada nas inúmeras Conferências Nacionais e incorporadas ao III Programa Nacional de Direitos Humanos).

Dentre a série de intolerâncias, o sexo sempre foi tema de perseguição e deturpações, levando, não raro, a condutas as mais criminosas por parte de seus próprios "ministros".

A cúpula Católica negou o quanto pode as constantemente denunciadas práticas sexuais por parte de seus clérigos. Ainda que recentemente tenha se dignado a adotar uma conduta menos arrogante e negatória, tendo mesmo chegado a enfrentar a questão e inclusive oferecer desculpas públicas pelas práticas de sexo criminoso por parte de seus "evangelizadores", pedofilia e prostituição vez por vez ressurgem no noticiário como comportamentos relativamente frequentes por parte de setores dessa Igreja.

Nada disso, porém, tem tido o efeito de fazê-la rever a forma preconceituosa e persecutória que tem de lidar com a sexualidade - parte intrínseca à natureza humana e, como tal, também fruto da criação Divina.

Essa postura intransigente e preconceituosa, no entanto, produz efeitos nefandos no seio de sua própria estrutura. Compelidos ao celibato compulsório, vale dizer, à negação de uma parte de sua própria natureza (tão singela e essencial quanto o respirar, o alimentar-se), educados a ver o desejo afetivossexual como algo da ordem do pecaminoso, do aberrante, não raro vê-se ministros católicos envolvidos com denúncias de práticas sexuais interditas.

Dessa vez o escândalo vem do próprio centro do poder. O sítio da BBC noticia que "Um assessor do papa Bento 16 foi afastado nesta semana por causa de um escândalo sexual envolvendo prostituição gay que sacudiu o Vaticano."

Trata-se nada mais, nada menos do que Angelo Balducci, um Assessor Direto, do Papa responsável pela recepção de dignatários.

Pego em gravações telefônicas, realizadas pela Polícia, instruindo o seu "agente" (integrante do Coral do Vaticano) acerca das características do michê cujos serviços sexuais desejava contratar, ambos (contratante e agente) foram afastados pelo poder central Católico.

- Até quando persistirá essa linha de ação da Igreja Católica, relegando a sexualidade aos porões do interdito e da violência?

Fosse a sexualidade reconhecida como inerente ao humano - a todos os viventes -, livre das visões obscurantistas, medievas, seus próprios clérigos não se vieriam compelidos a essas práticas escabrosas (sobretudo porque envolvem dominação).

Veja a íntegra da matéria da BBC aqui.


sexta-feira, 5 de março de 2010

GGB Divulga Relatório Anual dos Crimes Homofóbicos, Compilados da Imprensa



ASSASSINATO DE HOMOSSEXUAIS NO BRASIL: RELATÓRIO ANUAL

O Grupo Gay da Bahia (GGB), divulga o Relatório Anual de Assassinato de Homossexuais (LGBT) de 2009.

Foram assassinados no Brasil no ano passado 198 homossexuais, 9 a mais que em 2008 (189 mortes), um aumento de 61% em relação a 2007 (122).

Dentre os mortos, 117 gays (59%), 72 travestis (37%) e 9 lésbicas (4%).

O Grupo Gay da Bahia, que há 30 anos coleta informações sobre homofobia em nosso país, cobra do Presidente Lula mais ação e menos blábláblá: apesar do programa federal "Brasil sem Homofobia", nosso país continua sendo o campeão mundial de homicídios contra LGBT, com 198 mortes, seguido do México com 35 e dos Estados Unidos com 25 mortes anuais. A cada dois dias um homossexual é assassinado no Brasil, vítima da homofobia. O risco de uma travesti ser assassinada é 262 vezes maior que um gay devido à diferença de tamanho das duas populações Nos dois primeiros meses 2010 já foram documentados 34 homicídios contra homossexuais.

Bahia e Paraná são os estados mais homofóbicos: 25 homicídios cada um, sendo que na Bahia os gays foram mais numerosos (21), enquanto no Paraná predominaram as travestis (15 mortes).

Curitiba, cidade modelo de urbanidade, foi a metrópole brasileira onde mais homossexuais foram assassinados, 14 vítimas, seguida de Salvador com 11 homicídios.

Pernambuco, que nos últimos anos liderava esta lista de assassinatos, registrou 14 mortes, (4º lugar) o mesmo número de São Paulo e Minas Gerais, embora SP tenha população cinco vezes maior.

Alagoas é proporcionalmente o estado mais violento para a comunidade LGBT: 11 mortes para 3 milhões de habitantes, surpreendentemente mais crimes do que o Rio de Janeiro (8 homicídios), cinco vezes mais populoso que Alagoas.

Faltam informações sobre Acre e Amapá.

Três travestis brasileiras foram assassinadas na Itália.

Segundo Luiz Mott, antropólogo e fundador do GGB, "estes números são apenas a ponta de um iceberg de sangue e ódio, pois não havendo estatísticas governamentais sobre crimes de ódio, nos baseamos em notícias de jornal e internet, uma amostra assumidamente subnotificada. O Brasil é o campeão mundial de crimes contra LGBT: um assassinato a cada dois dias, aproximadamente 200 crimes por ano, seguido do México com 35 homicídios e os Estados Unidos com 25." De 1980 a 2009 foram documentados 3196 assassinatos de gays, travestis e lésbicas no Brasil, concentrando-se 18% na década de 80, 45% nos anos 90 e 37% (1366 casos) a partir de 2000.

O Nordeste confirma ser a região mais homofóbica: abriga 30% da população brasileira e registrou 39% dos LGBT assassinados. 21% destes crimes letais ocorreram no Sudeste, 15% no Sul, 14% no Centro-Oeste, 10% no Norte. O risco de um homossexual do Nordeste ser assassinado é aproximadamente 80% mais elevado do que no sul/sudeste! 39% destes homicídios foram cometidos nas capitais, 61% nas cidades do interior. 41% dos LGBT assassinados eram jovens de até 29 anos, dos quais 6 tinham menos de 18 anos.

A vítima de menor idade foi uma travesti com 16 anos, Jeferson Santos, baleada no centro de Belém do Pará.

O mais idoso, o aposentado Zigomar Belo, 72 anos, foi morto a marretadas no interior do Maranhão.

Em dezembro ocorreu o maior número de homicídios, 29 (15%), e Agosto o mês menos violento, 7 casos (3%). Não há regularidade na freqüência mensal de assassinatos nos últimos anos, observando-se contudo maior criminalidade à noite, em fins de semana e dias festivos.

As vítimas exerciam 40 diferentes profissões, de profissionais liberais a trabalhadores braçais, predominando, como nos anos anteriores 28% de travestis profissionais do sexo, 10% de professsores, 7% de cabeleireiros.

Entre as vítimas, 7 pais de santo e 4 padres católicos. Tais sacerdotes constam no site da CNBB, contudo omitindo-se terem sido assassinados por rapazes de programa.

Persiste a tendência de que a maioria destas vítimas foi executada com arma de fogo (34%), seguido de arma branca (29%), espancamento (13%), asfixia (11%).

As travestis estão mais expostas a serem atingidas por tiros (47%), muitos destes crimes ocorridos na "pista", enquanto reduz-se para 20% os gays vítimas de arma de fogo.

O padrão predominante é o gay ser morto a facadas ou estrangulado dentro de sua residência, enquanto as travestis morrem alvejadas por tiros.

Outra característica dos assassinatos homofóbicos é sua condição de "crime de ódio", incluindo muitos golpes, múltiplos instrumentos e tortura: 5 vitimas foram degoladas e 10 tiveram seus corpos queimados.

A travesti Karina Alves, 26, foi morta com 13 tiros em Belo Horizonte, enquanto o idoso gay Jonas Terêncio de Souza, mecânico de Tocantins, levou mais de 60 golpes de faca; outro gay, Walmir Silveira Ponciano, 38, cartomante, morreu em Corumbá, MS, com 37 facadas.

Segundo o professor de filosofia Ricardo Liper, da UFBa, "mesmo em crimes envolvendo drogas e outros ilícitos, a condição homossexual da vítima sempre está presente, fruto da homofobia cultural e institucional que impregna a mente dos assassinos. Prova disto é que se matam muito mais travestis na pista do que mulheres prostitutas, embora as travestis não ultrapassem 30 mil indivíduos, enquanto as profissionais do sexo mulheres contem-se aos milhões. Portanto, mesmo em casos de latrocínio e crimes que tenham relação com outros delitos, é correto classifica-los como crimes homofóbicos."

O Grupo Gay da Bahia (GGB) alem de disponibilizar na internet o manual "Gay vivo não dorme com o inimigo" como estratégia para erradicar os crimes homofóbicos, ameaça:

se a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República não implementar as deliberações do Programa Brasil Sem Homofobia e da 1ª Conferencia Nacional GLBT, enviará denúncia contra o Governo Brasileiro junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) e à Organização das Nações Unidas (ONU), pelo crime de prevaricação e lesa humanidade contra os homossexuais.

O GGB reivindica a divulgação de outdoors em todos os Estados com mensagens diretas contra assassinato de homossexuais.

Quanto aos autores destes crimes, chama a atenção que aproximadamente 80% das ocorrências têm "autor desconhecido", ou por terem sido praticadas altas horas da noite, em locais ermos, ou pela omissão das testemunhas, que devido ao preconceito anti-homossexual, não querem se envolver com vítimas tão desprezíveis.

Metade destes criminosos praticaram latrocínio, roubando eletrodomésticos, cartão de crédito e o carro da vítima.

Também chocante é predominância de assassinos bastante jovens: mais da metade dos homicidas de gays e travestis tinham menos de 21 anos, o mais jovem apenas com 13 anos, vários agindo em grupo.

"É uma falha principalmente da escola. Essa juventude se torna agressiva pela falta de uma educação sem homofobia, que incorpore o respeito aos direitos dos homossexuais em sua metodologia de ensino," diz Deco Ribeiro, diretor da Escola Jovem LGBT, de Campinas, SP.

Dos 20% de criminosos identificados, menos de 10% chegam a ser detidos e julgados, e mesmos estes, alegando legítima defesa da honra, são beneficiados com penas leves ou injustamente absolvidos. Como nos anos anteriores, entre os assassinos de LGBT em 2009 predominaram os garotos de programa e clientes de travestis.

Para o Presidente do GGB, Marcelo Cerqueira, "há solução contra os crimes homofóbicos: ensinar à população a respeitar os direitos humanos dos homossexuais, exigir que a Polícia e Justiça punam com toda severidade a homofobia e sobretudo, que os próprios gays e travestis evitem situações de risco, não levando desconhecidos para casa, evitando transar com marginais."

Tabela completa sobre assassinato de homossexuais nos sites
http://www.ggb.org.br/dossier%20de%20assassinatos%20de%20homossexuais%20em%2
02009.html
http://www.ggb.org.br/imagens/TABELA_GERAL_2009_assassinatos_de_homossexuais
.pdf


Para maiores informações e entrevistas: (71) 3328.3782 - 9989.4748 -
9128.9993


Luiz Mott
<luizmott@...>
http://geocities.ws/luizmottbr/
http://www.ggb.org.br/

Fone/Fax: 71-3328.3782 - 9128.9993